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Home Cultura

Arte ucraniana em ovos de páscoa resiste no Brasil

Por Ricardo Antunes
06/04/2023 - 09:54
Pêssanka ou Pysanka, é um ovo colorido à mão, de origem e tradição eslava

Pêssanka ou Pysanka, é um ovo colorido à mão, de origem e tradição eslava

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Do UOL — Faz 132 anos que os primeiros ucranianos chegaram aqui com a promessa de terras férteis. A maioria (80%) das 10 mil famílias se instalou no Paraná, onde o calor é ameno e o solo, bom para o trigo. Graças a igrejas e escolas, as colônias perpetuaram a cultura de geração em geração. Agora, mesmo a 10 mil quilômetros de distância, bisnetos desses ucranianos cultivam tradições como a pêssanka, arte milenar feita em ovos naturais que enaltece a vida.

Um deles é Vilson José Kotviski. Morador de União da Vitória (PR), ele escreveu os dois únicos livros sobre o assunto publicados no Brasil e explica a ligação das pêssankas à Páscoa, que começou com o advento do cristianismo como religião oficial no ano de 988.

“As pessoas se presenteiam com ovos num símbolo de renascimento e benção. Antes disso, as pêssankas faziam parte da festa da primavera, realizada na mesma época. Eram dedicadas ao deus do sol, Dajbóh, e celebravam a passagem dos invernos rigorosos. O costume era enterrar os ovos em agradecimento às colheitas passadas e para trazer boas energias ao campo”.

Durante o regime soviético, porém, as manifestações culturais tipicamente ucranianas murcharam. “Era quase proibido. A URSS tentou apagar os símbolos nacionais de suas repúblicas”, diz o curitibano Jorge Serathiuk, que, junto da esposa, Iara, foi convidado para viajar à Ucrânia após a independência, em 1991, para reintroduzir a arte da pêssanka no território. “Demos cursos, participamos de exposições e gravamos vídeos para serem distribuídos nas escolas”.

“Os imigrantes servem para isso: guardar o passado do seu país de origem. Somos depositários de cultura”.

Na pêssanka, os ovos são pintados à mão.

Jorge, hoje com 73 anos, trabalha com a arte desde os 30. “Criamos e formamos os nossos quatro filhos com a venda de pêssankas”. O casal rodou a Europa como os únicos representantes latino-americanos em concursos. Como lembranças das viagens, ele guarda 500 ovos feitos por eles e por profissionais de outras nacionalidades. “Cada um usa uma técnica. Há inúmeras maneiras de decorar”.

De segunda a segunda, Jorge sabe o que fará das seis da manhã às sete da noite: colorir ovos de codorna, galinha, ganso ou avestruz. A produção ininterrupta rende 1.500 exemplares por ano. “Levo de sete a oito dias para concluir 24 peças”. Em outros tempos, mais precisamente na década de 1990, a tarefa era feita a muitas mãos. Com a participação dos filhos e da esposa somada à alta demanda, chegou a despachar 4 mil peças.

Certa vez, a atriz francesa Catherine Deneuve comprou, sozinha, cinquenta unidades. “Ela estava hospedada no Maksoud, em São Paulo, e mandou embrulhar todas as pêssankas disponíveis na loja do lobby, que revendia as nossas. Foi um furor. Depois dela, todo mundo quis”.

A lista de clientes especiais não para por aí. “Pintei ovos das emas do Palácio do Alvorada para Itamar Franco. Fernando Henrique Cardoso, à época ministro da Fazenda, viu e encomendou também”.

A maior de suas obras foi para o Memorial Ucraniano, em Curitiba. É uma pêssanka de 2,1 metros de altura, em cerâmica e bronze, e que replica um selo editado na Ucrânia em 2011.

“É uma linguagem. Como se fosse um telegrama cifrado”

Como nasce uma pêssanka

Os ovos naturais são esvaziados por meio de microfuros. Jorge injeta gesso para dar peso e resistência ao produto e pincela gema e clara por fora. Com um lápis fino, o apoio do dedinho e muito cuidado, escreve os símbolos na superfície arredondada. “Pêssanka vem do verbo pysaty, que quer dizer escrever. Por isso, é incorreto usar a palavra ‘desenhar'”, explica Vilson. Jorge resume a ideia:

“É uma linguagem. Como se fosse um telegrama cifrado”

Diferente de uma tela, na qual o pintor traça um esboço e vê a obra se transformando diante dos seus olhos, o artista de pêssanka isola cor por cor com cera de abelha. No fim do processo, o ovo está todo escuro. Ao aproximá-lo da chama da vela — o calor é essencial para derreter o material —, as imagens escondidas são reveladas. “Nessa hora, você entende que, na arte da pêssanka, o autor também é presenteado. É um momento único. Mágico”, diz Vilson. Na sequência, a peça é revestida com verniz.

Os símbolos não são escolhidos aleatoriamente. Pelo contrário: cada um carrega o seu significado. Quando os ovos faziam papel de homenagem a Dajbóh, raios de sol predominavam na casca. Com o tempo, o ambiente passou a ser expressado nos desenhos, por meio de animais, flores e plantas. A essa espécie de dicionário da pêssanka, também foram adicionadas formas relacionadas à religião.

Conforme o artesão escreve, ele deposita as suas boas vibrações e desejos no objeto. Por isso, quando alguém é presenteado com uma pêssanka, recebe com ela toda essa energia de proteção. Caso se quebre, não é um lamento, mas um agradecimento: ela foi capaz de espantar o mal.

Certa vez, a atriz francesa Catherine Deneuve comprou, sozinha, cinquenta unidades. “Ela estava hospedada no Maksoud, em São Paulo, e mandou embrulhar todas as pêssankas disponíveis na loja do lobby, que revendia as nossas. Foi um furor. Depois dela, todo mundo quis”.

A lista de clientes especiais não para por aí. “Pintei ovos das emas do Palácio do Alvorada para Itamar Franco. Fernando Henrique Cardoso, à época ministro da Fazenda, viu e encomendou também”.

A maior de suas obras foi para o Memorial Ucraniano, em Curitiba. É uma pêssanka de 2,1 metros de altura, em cerâmica e bronze, e que replica um selo editado na Ucrânia em 2011.

Principal data no calendário ucraniano, a Páscoa de 2022 acontece meio à invasão da Rússia. A guerra causou a morte de 1.932 civis e fez 5 milhões pessoas refugiadas em quase dois meses, segundo a ONU. Por isso, a celebração deste ano reafirma os seus votos de renascimento num tom de luta e esperança. “As pêssankas levarão energia positiva, coragem, fé e confiança à Ucrânia. Estamos unidos em oração, numa corrente infinita de cultura”, coloca Vilson. Jorge conclui:

“Na história, a Ucrânia está sempre renascendo. E assim vai acontecer de novo. É um povo resistente”.

 

Tags: Ucrânia
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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