Por Andre Beltrão – Transcrições de um grupo de WhatsApp atestam frenética atividade política da médica brasileira Maria Emilia Gadelha Serra, que se notabilizou na pandemia da COVID por ser contra a vacinação. Tais transcrições, registradas em cartório e peritadas, já se encontram em poder das autoridades policiais, que abriram procedimento investigativo sigiloso.
A médica foragida está tentando mobilizar colegas de profissão para que assinem requerimentos que possam impedir a cassação de seu registro no Conselho Regional de Medicina de SP, o CREMESP.
Documentos judiciais obtidos pela nossa equipe de jornalismo investigativo revelam que a médica já havia tentado processar membros da Câmara Técnica de Vacinação do próprio CREMESP, em ação julgada improcedente pelo Tribunal Regional Federal.
Procurados por nossa reportagem, o Cremesp afirmou que responderá nós autor do processo. Já a médica ainda não se pronunciou e o espaço segue aberto para manifestações.

Em conversas no grupo de WhatsApp intitulado “CLEANING CREMESP”, revela-se que a médica Maria Emilia Gadelha Serra está se mobilizando para tentar blindar-se de 19 processos éticos abertos contra ela no Cremesp — processos que, segundo fontes próximas ao caso, colocam em risco seu registro profissional no Brasil e vem recebendo forte apoio da maioria do médicos que não admitem sua pregação anti-científica.
Nas mensagens enviadas ao seu diminuto grupo de apoiadores, a médica confirma que responde aos 19 processos e convoca colegas a assinar requerimentos para denunciar o próprio Cremesp e sua procuradoria jurídica por supostas irregularidades nos processos que lhe são movidos, sem, contudo, detalhar o teor das acusações. No mesmo espaço, incita os participantes a recusarem a fiscalização e os processos disciplinares do conselho, em flagrante desobediência às leis vigentes.
Segundo médicos ouvidos pela reportagem, a estratégia parece ir além da defesa individual: trata-se de uma tentativa de deslegitimar o órgão regulador como forma de enfraquecer os processos que, ao que tudo indica, irão finalizar com a cassação do registro profissional da belicosa Dra. Gadelha.
Para os críticos da tumultuada conduta profissional de Maria Emilia, seu comportamento enquadra-se no que a comunidade científica classifica como “charlatanismo”, ou seja, a oferta claramente leviana de tratamentos sem evidência qualquer evidência científica. Os valores cobrados pela médica são muitíssimos elevados além de tornarem extremamente vulneráveis os pacientes por ela atendidos.
O conhecido empresário Luciano Hang, da rede de magazines Havan, durante o auge da pandemia da COVID entregou aos cuidados da Dra. Gadelha os cuidados para com sua mãe, Regina Moresti Hang, então com 82 anos e gravemente enferma. Transportada em um jato executivo diretamente para um dos mais modernos hospitais de São Paulo, ela foi atendida exclusivamente pela Dra. Gadelha e seus “tratamentos alternativos”, inclusive a ozônioterapia e medicamentos sem qualquer comprovação de eficácia ou cura.
Em várias reuniões com o ex-presidente Jair Bolsonaro, quando as mortes pela COVID já passavam das 700 mil, a médica Gadelha, em pleno gabinete presidencial no Planalto, referendou a política equivocada que se praticava, além de debater-se contra a utilização das vacinas.
Pouco tempos após a morte da matriarca dos Hang, o conhecido empresário (apesar de bolsonarista como a médica Gadelha) não economizou adjetivos duros para descrever o sofrimento da genitora, afirmando que foi mel atendida e mal tratada, terminando por vir à óbito. Hang chegou às lágrimas na CPI da COVID no Congresso Nacional.
A médica e seus poucos apoiadores, por sua vez, costumam rejeitar as investigações sobre suas contestáveis práticas taxando-as de “o que perseguição ideológica” e “censura à medicina integrativa”.
Não é a primeira vez, porém, que ela transforma uma questão ética em disputa política. No passado, chegou a denunciar o então presidente do Conselho Federal de Medicina por improbidade administrativa e tentou pedir a condenação dos membros da Câmara Técnica de Vacinação do Cremesp por suposto conflito de interesses. Ambas as ações foram julgadas improcedentes e caíram no folclore da medicina nacional.
A mobilização atual da médica é uma clara cortina de fumaça com a finalidade de esconder uma trajetória tumultuada, prenhe de contestações e um sem número de críticas.
Para os críticos, o padrão é revelador. “Quem ataca sistematicamente o árbitro costuma estar preocupado com o resultado do jogo”, resume, em linguagem coloquial, a lógica que especialistas em ética médica atribuem à conduta da médica diante dos 19 processos que podem custar-lhe o registro profissional.
O mais respeitado cardiologista do país, que atende as “cabeças coroadas” da República, foi curto e grosso ao ser procurado por nossa reportagem: “essa senhora é um tumor purulento na medicina nacional e precisa ser lancetada”. Há, da parte desse importante operador da saúde, uma preocupação justificada: “ela está na na Europa esculhambado a medicina brasileira, que é uma das melhores do mundo. É uma especie de Embaixadora das mentiras contra a excelente medicina que fazemos no Brasil”, salientou.
Um longo histórico de polêmicas e confrontações
Maria Emilia Gadelha Serra não é desconhecida do radar das autoridades sanitárias, do Ministério Público e dos Conselhos de Classe. Fundadora da Sociedade Brasileira de Ozonioterapia (SOBOM) e ex-presidente da Associação Brasileira de Ozonioterapia (ABOZ), a médica tornou-se uma das figuras mais proeminentes do movimento antivacina brasileiro, propondo tratamentos polêmicos de “reversão vacinal”.
Em lives e palestras amplamente compartilhadas nas redes sociais, a médica chegou a comparar a vacinação infantil a um “assassinato em massa” e disseminou alegações criminosas e infundadas sobre a vacina contra o HPV.
Nenhuma dessas afirmações encontra respaldo científico. Organizações como o CDC americano reafirmam sistematicamente a segurança e eficácia dos imunizantes.
As declarações motivaram um inquérito instaurado pelo Ministério Público de São Paulo, visando apurar a conduta da médica. Em 2024, Maria Emilia passou a responder processo na Justiça por incitação ao crime.
Paralelamente, também passou a ser criticada por cobrar R$ 1,8 mil por consulta para aplicar o que chama de “reversão vacinal” — terapia sem qualquer embasamento científico reconhecido.
Existe um alentado dossiê no gabinete da Saúde, o médico Alexandre Padilha, que já se manifestou revoltado com as posturas científicas e ideológicas de Maria Emilia Gadelha.
Os prognósticos para a continuidade médico-delitiva da Dra. Gadelha são os piores. Bom para a Medicina, melhor para o Brasil.












