Do Estadão – Em depoimento ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a ex-funcionária do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que acusa o ministro Marco Buzzi de assédio disse que fez força para retirar a mão dele das nádegas dela em novembro do ano passado. A vítima contou, em fevereiro deste ano, que o episódio ocorreu quando Buzzi pediu que ela o ajudasse a conectar um pen drive. Os relatos foram feitos aos prantos.
“Ele se aproveitou para passar a mão de novo na minha bunda. Ele apertou. Segurei a mão dele. Ele fez força. Usei as duas mãos. Ele fazia força ao contrário, e eu fazendo força para tirar a mão dele. E, quando ele percebeu que a gente estava fazendo força um contra o outro, ele começou a pedir desculpa, ‘desculpa pela brincadeira’. Eu disse: ‘ministro, isso não é uma brincadeira’”, disse.
A defesa do ministro nega as acusações e diz que o vazamento de depoimentos “viola as regras de sigilo do procedimento, atenta contra as garantias fundamentais do investigado e visa, deliberadamente, pressionar o Superior Tribunal de Justiça”.
Os depoimentos foram registrados em vídeos, estão sob segredo de Justiça e foram obtidos pelo Estadão. Com base nos relatos e em outros elementos de prova, o STJ vai decidir na próxima terça-feira, 14, se abre processo administrativo contra o ministro. A tendência é que a resposta seja positiva. Ao fim do procedimento, o tribunal decidirá se condena ou não Buzzi. O ministro nega que tenha praticado os crimes.
A vítima narrou oito situações em que teria sofrido abuso sexual e moral pelo ministro no gabinete. Em uma delas, Buzzi teria dado um tapa nas nádegas da funcionária durante o expediente. “Literalmente, ele estapeou minha bunda com força. Eu saí correndo, acelerando o passo na frente. Foi o dia que eu mais me senti violada”, disse.
A vítima indicou como testemunha outra funcionária do gabinete que ocupava posição superior à dela. Em depoimento, essa outra funcionária disse que a vítima a procurou para contar sobre os episódios.
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“Ela falou que, em algum desses momentos, ele apalpou ela, segurou o braço dela, ela tentou se desvencilhar, mas ele segurou o pulso dela e ela falou que ele tocou no corpo dela. (…) Nesse dia ela falou: ‘Isso não aconteceu só uma vez, aconteceu outras vezes’”, contou a testemunha.
A vítima também afirmou que, em outra situação, o ministro pediu para ela regular o ar-condicionado. “Quando eu me virei, ele falou que eu tinha um atributo diferente das mulheres do Sul, que o meu bumbum era grande, e que isso chamava muito a atenção”, disse.
A testemunha também afirmou que a vítima relatou esse episódio a ela.
“Não tem uma maneira fácil de eu dizer tudo isso que vem acontecendo, porque eu vinha sofrendo muito psicologicamente. Meu corpo adoeceu e eu me culpo muito, porque eu tinha muito medo. Como que eu ia enfrentar isso? Como que as pessoas iriam acreditar?”, disse a vítima ao CNJ.
Antes da ex-funcionária, uma jovem de 18 anos relatou ter sido importunada sexualmente pelo ministro. O crime teria ocorrido durante o recesso, quando Buzzi recebeu uma família de amigos em sua casa de praia, em Balneário Camboriú (SC). A filha do casal, que chamava o ministro de tio, relatou que Buzzi tentou agarrá-la à força. O magistrado também nega essa acusação.
Além dos processos administrativos no CNJ e no STJ, Buzzi também responde a inquérito criminal no Supremo Tribunal Federal (STF). O caso está em sigilo, sob a relatoria do ministro Kassio Nunes Marques.
Leia abaixo a nota da defesa de Buzzi
A defesa do Ministro Buzzi repudia o vazamento do depoimento da segunda denunciante, divulgado em texto e vídeo nesta semana.
O ato viola as regras de sigilo do procedimento, atenta contra as garantias fundamentais do investigado e visa, deliberadamente, pressionar o Superior Tribunal de Justiça. É também uma violação das garantias fundamentais de todo e qualquer cidadão, bem como da própria advocacia.
Não é casual que todos os vazamentos verificados neste caso tenham envolvido exclusivamente elementos de acusação.
Os múltiplos elementos de contraprova e o interrogatório do investigado jamais receberam qualquer publicidade. A seletividade é a prova da estratégia – e o avesso da lealdade processual.
A defesa confia na independência e no histórico institucional do Tribunal para que tais manobras não alcancem o efeito pretendido.











