Com informações do UOL – O volume de apreensões de dinheiro em espécie e de bloqueios de contas bancárias em fiscalizações e operações policiais no Brasil bateu recorde e cresceu 36 vezes entre 2022 e 2025. O salto ocorreu no ano passado, impulsionado por grandes operações contra o Banco Master e braços financeiros do PCC (Primeiro Comando da Capital).
Em 2022, a PF apreendeu R$ 125 milhões de dinheiro vivo e bloqueios judiciais, valores já corrigidos pela inflação. Em 2025, foram R$ 4,4 bilhões. Os dados da Polícia Federal foram obtidos pelo UOL por meio da Lei de Acesso à Informação. Os valores não incluem arrecadação e confisco de criptoativos, carros e imóveis. Isoladamente, a apreensão de dinheiro vivo teve aumento de três vezes entre 2022 e 2025; os confiscos, 66 vezes.
O bloqueio de contas bancárias e investimentos chegou a R$ 1,4 bilhão na Operação Carbono Oculto, em agosto, que ligou o setor de combustíveis ao PCC, em valores nominais. Já na Compliance Zero, que investigou os negócios do Banco Master, de Daniel Vorcaro, em novembro, o valor foi de R$ 833 milhões, em valores nominais.
Os bloqueios judiciais cresceram no Brasil mesmo sem os grandes confiscos dos casos Master e Carbono Oculto. Sem eles, 2025 terminaria com R$ 2 bilhões arrecadados em valores nominais — 36 vezes mais que em 2022. Em relação a 2024, o aumento é de 39 vezes.

Polícia mirou baterias para dinheiro vivo, diz advogado
A maior parte das apreensões e dos bloqueios foi feita pela Polícia Federal, embora parte das ações tenha ocorrido em conjunto com outras forças de segurança, como polícias militares, civis e a PRF, no âmbito das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficco). Para o advogado Fernando Henrique Neves, o aumento das apreensões também reflete uma maior atuação das forças de segurança, e não necessariamente uma alta na ocorrência desses crimes.
“Tem mais a ver com a atividade e às vezes com a coordenação ou a convergência de uma série de interesses”, disse ele.
Neves afirma que o aumento de recursos para a Polícia Federal pode ajudar a explicar o avanço nas apreensões. Dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop) indicam que os gastos da corporação com investimentos e despesas correntes, excluída a folha de pagamento, cresceram 38% nos dois últimos triênios, em valores corrigidos pela inflação — de R$ 3,7 bilhões entre 2020 e 2022 para R$ 5,1 bilhões de 2023 a 2025.
Sobre o aumento dos bloqueios em contas, Neves ressalta que o avanço está ligado à atuação de órgãos de controle do sistema financeiro, como o Banco Central, “colocando a mão no sistema de persecução penal”.
Ele diz que normas do BC tendem a ter mais rapidez e efetividade do que leis aprovadas pelo Congresso. A delegada da Coordenação de Combate a Crimes contra a Ordem Tributária e Fraudes da Polícia Civil do Distrito Federal, Isabel D’Ávila, afirma que o aumento dos bloqueios reflete uma mudança na forma de investigar crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e atuação de organizações criminosas.
“Já se sabe que a pena de prisão não faz muita diferença para os grupos criminosos; eles nem vão presos porque o sistema prisional é complexo”, afirmou.
“Então, sempre que se pede busca e apreensão e prisão, normalmente, pede-se também bloqueio de bens, apreensão de veículos, imóveis, contas bancárias e por aí vai. Um novo paradigma de investigação está implantado, a asfixia financeira.”
Neves prevê alta nos sequestros judiciais. Segundo ele, mudanças recentes na legislação — como as leis “anticrime” e de combate a facções — ampliaram instrumentos como o chamado “confisco alargado”, em que o investigado precisa comprovar a origem lícita do patrimônio.
“Isso vai aumentar vertiginosamente no Brasil”, afirma.
São Paulo e Brasília lideram confiscos
Os dados mostram que São Paulo, principal centro financeiro do país, lidera as apreensões de dinheiro em espécie, com R$ 57 milhões entre 2022 e 2026, em valores históricos. Na sequência aparecem estados com áreas de fronteira ou grandes centros urbanos. Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina vêm a seguir, com R$ 52 milhões, R$ 29 milhões, R$ 26 milhões, R$ 20 milhões e R$ 18 milhões, respectivamente.
Brasília, centro do poder político, ganhou espaço no ranking de apreensões de dinheiro em espécie nos últimos anos. A capital passou da penúltima posição em 2022 para a 9ª em 2025 e, nos últimos seis meses, ocupou a 6ª colocação. Ao todo, foram R$ 7,8 milhões apreendidos no período, dos quais R$ 6,6 milhões se concentram em 2025 e 2026.
Nos bloqueios judiciais, São Paulo lidera com R$ 2 bilhões entre 2022 e 2026, seguido pelo Distrito Federal, com R$ 1,1 bilhão. O Paraná aparece em terceiro lugar, com R$ 369 milhões, à frente de Bahia (R$ 229 milhões) e Santa Catarina (R$ 164 milhões).
Moeda estrangeira dobra arrecadação
Considerando-se apenas o valor das notas na moeda original, a maior parte das apreensões e dos bloqueios da Polícia Federal é em reais. Pela conversão em reais, porém, as moedas estrangeiras somaram R$ 638 milhões entre 2022 e março de 2026. Dólar, euro, libra esterlina e dólar australiano responderam por mais de 90% desse total.
O destino do dinheiro apreendido pela Polícia Federal varia conforme a origem. Valores em reais, em espécie ou bloqueados em contas, são transferidos para uma conta judicial na Caixa Econômica Federal e passam a render. Já as moedas estrangeiras são mantidas fisicamente pela instituição, sem depósito em conta específica.









