Por Rodrigo Capelo, do Estadão – Até para os padrões do futebol, não é comum que balanços financeiros de clubes sejam integralmente “reprovados” por auditorias externas. A palavra correta do ponto de vista técnico não é bem esta, mas chegaremos lá num instante. Pra começar a conversa, vamos assim: Botafogo e Sport tiveram balanços reprovados — algo que me lembro ter acontecido com o obscuro Vasco de Eurico Miranda.
O clube produz a documentação contábil com os números do exercício fiscal em questão, no caso, 2025, e contrata empresa de auditoria para fazer uma verificação independente. Ela checa se os valores informados batem com os de terceiros; se o saldo na conta bancária confere, se os credores atestam as dívidas, se normas contábeis foram seguidas, assim por diante. É assim que funciona.
É comum que os pareceres de auditorias externas saiam com “ressalvas”, ou seja, elas se certificam da confiabilidade de quase tudo o que está descrito, exceto uma coisa ou outra. No caso de Botafogo e Sport, a situação é tão incerta, que a auditoria achou melhor se abster de opinar. Chamei lá no começo de “reprovação” do balanço, mas tecnicamente é isto: abstenção de opinião.

Um parecer dessa natureza passa péssima mensagem ao mercado em geral. É como dizer que você pode até ler o balanço, mas por sua conta e risco. O documento representa uma versão da realidade apresentada pela respectiva diretoria, que não passa pelo crivo de uma avaliação técnica e independente.
Passando da confiança para a transparência, outro caso atual é educativo sobre a importância de ambos. Desde que havia sido comprado pela Red Bull, em 2020, o Bragantino publicava uma versão capenga do balanço dele — sem auditoria externa, sem notas explicativas, com informação insuficiente para a análise.
Em 2026, a postura mudou. O clube alinhou a decisão com a Áustria e publicou um balanço completo, de cabo a rabo. Hoje nós sabemos que a folha salarial do futebol é inferior a R$ 200 milhões por ano, por exemplo. E sabe por que isto importa? Porque ajuda a dimensionar a expectativa da torcida e do mercado.
O Bragantino impressionou no início, em 2020, quando a grana do energético o tornou competitivo. Mas houve inflação no futebol. Salários aumentaram, direitos ficaram mais caros. A Red Bull não acompanhou o passo. Hoje, o clube tem uma das folhas mais baixas da Série A, mas é cobrado como se fosse time rico.
Transparência constrói reputação. Hoje é possível entender o negócio do Red Bull Bragantino e dimensionar a expectativa, inclusive esportivamente. Não se pode dizer o mesmo de Botafogo e Sport. Pode-se confiar neles? Abstenho-me de dizer.












