Por Mino Pedrosa, do Fatos On-Line – Brasília vive de segredos. Alguns sobrevivem por décadas. Outros morrem antes mesmo de a Polícia Federal bater à porta. Quando uma operação nasce cercada pela suspeita de vazamento, o problema já não é apenas o que se investiga. É descobrir quem abriu a porta por dentro.
Foi esse cenário que levou o ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, a adotar uma providência rara. Relator da Operação Compliance Zero, ele autorizou a quebra do sigilo telefônico do senador Jaques Wagner (PT-BA) e o monitoramento da localização de seu celular. Não para investigar apenas o senador, mas para responder a uma pergunta que, em Brasília, costuma ser mais incômoda do que o próprio inquérito: quem avisou quem?
A decisão desmonta o discurso confortável de que tudo corria sob absoluto sigilo. Não corria. Mendonça registrou que seu gabinete recebeu um pedido de audiência de um dos investigados exatamente no dia em que a Polícia Federal protocolava as representações da operação. O detalhe que transforma coincidência em motivo de preocupação é outro: o pedido chegou antes mesmo da distribuição de parte das medidas judiciais.
Em português claro, o ministro enxergou elementos suficientes para suspeitar que alguém poderia estar correndo mais rápido do que a própria Justiça.
Jaques Wagner é um dos principais alvos da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas envolvendo o Banco Master. Segundo a Polícia Federal, o inquérito reúne provas de que um apartamento em Salvador, avaliado em cerca de R$ 2,5 milhões, teria sido utilizado como meio para o pagamento de vantagem indevida ao senador. Essa é uma das linhas de investigação submetidas ao Supremo Tribunal Federal.

Os autos também revelam uma proximidade que dificilmente passa despercebida. Conversas atribuídas ao controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, mencionam um encontro com Jaques Wagner no Senado, a disponibilização de uma aeronave em um “hangar discreto” para o parlamentar e a referência de que o senador poderia servir de intermediário para transmitir um recado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em Brasília, favores raramente são descritos como favores. Ganham nomes elegantes, justificativas protocolares e versões cuidadosamente ensaiadas. Mas os diálogos reunidos pela Polícia Federal colocaram essa relação sob a lupa da investigação, justamente porque, para os investigadores, ela pode ajudar a compreender o contexto dos fatos apurados.
A preocupação do ministro, entretanto, ultrapassou as suspeitas investigadas. Se houve vazamento, a credibilidade da operação também entrou em jogo. Por isso, Mendonça autorizou uma medida discreta: acompanhar a localização do aparelho celular por meio das antenas de telefonia. A lógica era simples. Vigilância ostensiva poderia alertar o investigado, permitindo troca de aparelhos, destruição de provas digitais, ocultação de documentos ou alinhamento de versões antes da chegada da Polícia Federal.
Há um exemplo clássico na Operação Compliance Zero. Quando a Polícia Federal chegou à residência do publicitário Thiago Miranda, ele já havia deixado alguns documentos à vista para serem apreendidos. Mas, no momento em que a polícia chegou, ele jogou o celular no vaso sanitário e o escondeu. O que ele não contava era com o monitoramento da Polícia Federal após a apreensão. Tudo nos autos. Tudo nas nuvens.
Quando a nona fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada, em 18 de junho, Jaques Wagner foi alvo de busca e apreensão. Segundo os autos, no dia seguinte houve tentativa de venda de um terreno avaliado em aproximadamente R$ 15 milhões na região metropolitana de Salvador. A negociação acabou interrompida porque havia uma ordem judicial de bloqueio de bens registrada no cartório.
No fim das contas, a decisão de André Mendonça produziu um efeito político inevitável. O foco da investigação deixou de estar apenas nas suspeitas atribuídas ao senador e passou a alcançar uma questão ainda mais delicada para as instituições: se alguém teve conhecimento antecipado da operação, quem rompeu o dever de sigilo? Essa resposta pode dizer tanto sobre o funcionamento da investigação quanto sobre os fatos que ela procura esclarecer.











