Por Artur Rodrigues e Cézar Feitosa, do UOL – A Polícia Federal investiga uma suspeita de desvio de R$ 750 mil do fundo eleitoral do PRTB nas eleições municipais de 2024. Os principais beneficiados, segundo a apuração, seriam o presidente do partido, Leonardo Avalanche, vice na chapa presidencial encabeçada pelo influenciador Pablo Marçal, e familiares do dirigente partidário.
A investigação começou com uma denúncia anônima enviada à Polícia Federal. Ela diz que o dinheiro havia sido repassado pelo partido para o escritório de advocacia de Samuel Alves de Azevedo, secretário-geral do PRTB, com posterior distribuição para integrantes do partido.
A quebra dos sigilos bancários dos investigados, porém, levantou suspeitas de um esquema ainda mais complexo que envolve empresas intermediárias, saques em dinheiro vivo e até uso da conta de um adolescente de 13 anos para esconder a origem dos valores, segundo a Polícia Federal.
A investigação ainda não foi concluída pela Polícia Federal, que enviou apenas relatórios parciais à Justiça de São Paulo. Há suspeitas de crimes eleitorais e de improbidade administrativa. Avalanche negou as irregularidades e disse que não comentaria o teor da investigação em respeito ao sigilo do processo. Marçal foi procurado por meio de sua assessoria, mas não respondeu.
De acordo com a quebra de sigilo, o escritório de Samuel Azevedo recebeu R$ 750 mil do PRTB no início de setembro. De lá até fevereiro de 2025, foram transferidos R$ 501 mil para contas vinculadas a Avalanche e familiares por duas empresas suspeitas de integrar o esquema criminoso: a JFX Consultoria e a Superstar Corporate Ltda.
O escritório do advogado recebeu o valor do fundo eleitoral em setembro de 2024. Na mesma época, segundo a investigação, o escritório fez duas transferências para Ana Cláudia Ferreira de Faria Alves, mulher de Avalanche, no valor total de R$ 100 mil. Nos dias 11, 12 e 14 de outubro de 2024, ela devolveu o mesmo montante à sociedade advocatícia, em três transferências.
A suspeita da PF é que a devolução teria acontecido após o grupo perceber que o repasse direto da conta de Samuel para Ana Cláudia levantaria suspeitas. Dez dias depois, em 24 de outubro de 2024, ela recebeu outros R$ 150 mil da empresa Superstar Corporate Ltda —uma das companhias suspeitas de fazer parte de um esquema de desvio de recursos do PRTB.
Essa mesma empresa enviou R$ 100 mil para o filho de Avalanche, que à época tinha 13 anos. O adolescente movimentou R$ 751 mil nos oito meses de sigilos bancários analisados pela Polícia Federal, com repasses feitos aos pais do garoto.
Um ponto que chamou a atenção dos investigadores foi o uso da Cooperativa de Livre Admissão e dos Advogados LTDA como instituição financeira nas transações envolvendo a família de Avalanche, o que foi considerado inusual pela PF.
A Superstar, que fez os repasses, tem como endereço uma rua residencial no bairro periférico de Americanópolis, São Paulo, e o seu sócio na ocasião, Cristiano Silva Coelho, tinha como endereço a cidade de Vilhena, em Rondônia.
A quebra de sigilo também identificou repasses feitos pela empresa de Adevando Junior, então tesoureiro do PRTB, a familiares de Avalanche. Entre as operações identificadas, estão dois repasses de R$ 50 mil: um para a esposa do dirigente partidário e outro para o filho. Criada em abril de 2024, poucos meses antes do início do período eleitoral, a empresa JFX Consultoria somou R$ 160 mil em transações com investigados.
A PF suspeita é que a empresa tenha sido criada para intermediar pagamentos e ocultar origem e destino dos recursos dos investigados sob suspeita de desvios do fundo eleitoral.
Avalanche afirmou em que colabora com as investigações em curso e que confia na apuração dos fatos. “Não me é possível comentar aspectos específicos do caso fora dos autos”, disse o dirigente do PRTB, em nome também de seus familiares citados na investigação da PF.
Ele afirmou que prestará os eventuais esclarecimentos “exclusivamente perante a autoridade policial, no momento processual adequado, e por meio dos canais próprios do inquérito”. Avalanche foi intimado a prestar depoimento nas próximas semanas.
O UOL procurou Samuel Alves e a empresa Superstar, que não responderam até a publicação desta reportagem. Adevando, dono da JFX Consultoria, não foi localizado. O espaço está aberto.
Ascensão no partido
Natural de Anápolis (GO), Leonardo Avalanche ganhou projeção após lançar o goiano Pablo Marçal à Prefeitura de São Paulo, em 2024. A ruidosa campanha do influenciador não o levou ao segundo turno da eleição; a exposição da candidatura, porém, trouxe à luz suspeitas de crimes que fizeram Avalanche assumir o comando do PRTB em fevereiro de 2024.
O dirigente partidário se tornou réu em processo na Justiça Eleitoral de São Paulo no início do ano. Ele é acusado pelo Ministério Público de violência política e associação criminosa. Segundo a denúncia, Avalanche fraudou a eleição interna da legenda que o levou à presidência do PRTB, com uso de documentos falsos e filiações retroativas.
O presidente do partido também foi denunciado por perseguir o grupo político da correligionária Rachel de Carvalho. A acusação diz que Avalanche fez ameaças de morte, ofensas misóginas e a coagiu ilegalmente para forçar sua renúncia à liderança do PRTB.
Leonardo Avalanche também foi gravado em conversa com correligionários dizendo fazer parte da facção criminosa o PCC (Primeiro Comando da Capital), como revelou a Folha de S.Paulo. À época, ele disse não reconhecer a própria voz na gravação. A suspeita de vinculação com o crime organizado é citada na denúncia.
Avalanche enfrentou batalhas jurídicas nos últimos dois anos, sendo expulso da presidência do partido e conseguindo liminares para voltar ao poder. Chegou a lançar seu nome à Presidência da República este ano, mas capitaneou a chegada de Pablo Marçal à chapa no último dia para o registro da candidatura.
Pablo Marçal está inelegível até 2032, condenado pelo TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) por uso indevido dos meios de comunicação durante a campanha à prefeitura de 2024. Na última semana, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) proibiu a campanha do influenciador de usar recursos do fundo eleitoral e promover propaganda eleitoral.
Um dos mais ricos
Avalanche está na lista de candidatos mais ricos, de acordo com a sua declaração de bens à Justiça Eleitoral. Ele declarou R$ 495 milhões em bens, dos quais R$ 491 milhões em criptomoedas.
A declaração revela um grande salto patrimonial do dirigente. Em 2018, quando disputou uma vaga de deputado federal por Goiás, ele havia declarado R$ 380 mil em bens.
Com o montante declarado, Avalanche foi alçado ao quinto candidato mais rico das eleições de 2026.










