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Home Cultura

David Moraes perdeu pai, mãe, avó e virou amigo da saudade.

Artista tem o violão como companheiro no luto e gravou a penúltima canção inédita composta por Moraes Moreira, a quem dedica o novo trabalho, 'Todos nós': 'A gente vai ficando amigo da saudade'

Por Ricardo Antunes
27/12/2020 - 14:41
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Por Maria Fortuna, do Globo – Davi Moraes mal tinha digerido a morte do pai, Moraes Moreira, em abril, quando perdeu também a mãe. Responsável por levar o baixista Dadi para os Novos Baianos, Marília Mattos era muito querida no meio artístico. Andava com a turma do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone e, de tão bonita, ocupou o posto de musa do Arpoador nos anos 1970.

 

A história de Marília e Moraes começou quando ela o viu se apresentar descalço no palco do Teatro Casa Grande (“se apaixonou pelo meu pé, que é muito grande”, costumava contar o compositor). Inspiração da canção “A mulher e a cidade”, Marília partiu sete meses após o ex-companheiro. E, tudo indica, pelo mesmo motivo: o coração parou de bater.

Davi encontrou no violão o remédio curar a tristeza: ‘O sentimento de perda vai transformando, e a gente vai ficando amigo da saudade’ | Foto: Leo Martins

Foi Davi quem a encontrou em casa, após o chamado do porteiro, preocupado porque ela não respondia ao interfone. Desta vez, ele ainda teve a missão de comunicar à irmã, Cecília, que tinha sido a porta-voz da tragédia anterior.

— Meu pais tinham forte conexão, eram muito ligados, só não moravam mais juntos. Mesmo quando discutiam era engraçado, um ligava reclamando do outro. Não tem aquilo de casal, que quando vai um, o outro vai logo no embalo? Então… — elabora um Davi ainda “atordoado”, tentando encontrar respostas.

O cantor e compositor Moraes Moreira e a ex-companheira, Marília Mattos: ela se apaixonou ao vê-lo se apresentar descalço no palco | Foto: reprodução

‘Super avó, de capa e tudo’

Como se não bastasse, esse ingrato 2020 também levou a avó materna de Davi e Cecília. Dona Cândida, a Tilinha, perdeu a vida para a Covid-19 aos 97 anos. Era, como diz Davi, uma “super avó, de capa e tudo”. Teve grande importância na educação dos netos, que ficavam com ela quando não acompanhavam os pais nas turnês.

De cara, ela acolheu o cabeludo Moraes, que estava longe de ser a tradução da velha expressão “genro que mamãe pediu a Deus” na época. Foi ela também quem abrigou a família no momento em que o compositor deixou os Novos Baianos sem um tostão furado para tentar carreira solo.

Quando lembra o Natal de 2019, com os três conversando cúmplices, Davi embarga a voz. Na verdade, a sucessão de chacoalhadas na vida do músico começou naquele ano, quando se separou da cantora Maria Rita. Os dois foram casados por oito anos e tiveram uma filha, Alice.

— Me separei, perdi meu pai, minha mãe e minha avó. Foi um um strike. Achei que não fosse aguentar… Mas a vida mostra que somos mais fortes do que achamos. A gente enverga, mas não quebra.

Moraes e Davi: os dois eram parceiros de vida, estrada e profissão. Moraes deu um cavaquinho para Davi quando o menino ainda era tão pequeno que não conseguia tocar um violão

Aos 47 anos, Davi tratou de catar seus caquinhos e transformou o luto em música. Ele lança, dia 5, o EP “Todos nós” (Biscoito Fino), em que rima amor e dor em quatro faixas em homenagem ao pai. Porque se ele, um dos maiores guitarristas de sua geração, passou parte da carreira injetando solos radicais no carnaval ou em canções de Marisa Monte, Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto, agora, recorre à suavidade e à doçura para reverenciar aquele que foi seu maior parceiro de vida e profissão.

Por trás do título do trabalho há um tanto de significados. “Todos nós” é nome da primeira música que Davi compôs, aos 10 anos. Com saudades do pai, que estava viajando, o menino pegou o cavaquinho e mandou ver. Ao ouvir a canção, Moraes, que sempre pôs o filho para tocar no palco, batizou a música celebrando o encontro entre seu rebento e sua banda. Também gravou a canção no disco “Bazar brasileiro”.

— Minha irmã, sugeriu dar ao disco esse nome também porque a família ia junta nas turnês. Não é só um presente meu, mas de todos nós para ele — explica Davi. — Quando comecei o EP, queria falar da partida dele. Não podia imaginar que lançaria a homenagem sem minha mãe aqui…

Letra ‘profética’

Capa do EP de Davi dedicado ao pai, Moraes Moreira

O presente chega recheado de participações. Canção que abre o EP, a inédita “Aos santos” tem melodia do filho de Moraes com letra de Carlinhos Brown, que Davi chama de “profética” por conta do verso “fiquei sem respostas, sem tocar na banda”.

— Carlinhos é um bruxo. Ele não sabia que esse foi o primeiro carnaval em décadas que não fui tocar com meu pai. A letra é como se eu dissesse que teria ido se soubesse que seria a última vez.

Brown diz que a melodia de Davi “já falava tanta coisa” que foi fácil “psicografar os sentidos” ocultos nela.

— Isso se deu pelo respeito que temos um pelo outro e pelas nossas famílias. Os Freitas (sobrenome de Carlinhos), os Moraes e os Gomes (de Pepeu) se dão tão bem que chamo de Fregomoraes — brinca. — Conheço Davi desde criança, tocando bandolim com o pai. Virou meu parceiro, é um exímio músico e compositor maravilhoso. Moraes é o Brasil subindo a ladeira, e Davi, vai junto com esse legado e inspiração.

A segunda música, “Aquele abraço do Gil”, também é inédita. Foi composta por Moraes e Joyce Moreno, que faz dueto com Davi (o baterista Paulo Braga e o baixista Alberto Continentino completam o time). A história dessa canção começa num encontro de Moraes e Joyce na padaria.

Ele entregou à cantora a letra escrita num papelzinho, a penúltima que escreveria. Um trecho chega a arrepiar: “no meu andar de passista, a minha alma de artista deixa o corpo e voa”. Joyce, então, fez um samba e mandou o áudio pelo celular. Eles não chegaram a gravar, mas Davi não perdeu tempo.

Moraes Moreira, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Marília Mattos na época dos Novos Baianos: mais tarde, Davi tocaria na banda de Caetano

Prima-irmã da mãe de Davi, Marina Lima divide a cena com ele na regravação de “Davilicença” (veja o vídeo dos dois tocando juntos nesta matéria), de Moraes e Armandinho. A cantora tem uma ligação afetiva com a canção. Foi testemunha do momento em que ela nasceu.

—Vi Marília e Moraes começarem a namorar, vivia enfiada na casa deles. Ele era muito carinhoso comigo, me chamava de Marininha e me protegia. Ficou felicíssimo com a chegada do Armadinho, vindo da Bahia, em sua casa. Eles tocavam o dia inteiro, os vi compondo essa música, ficava fascinada com a agilidade deles — lembra a cantora. — Depois, nos afastamos. Quando Moraes morreu, Davi me ligou. Nunca tinha me ligado! Retomar esse elo me emociona muito. Davi passou uma semana em São Paulo comigo e foi profundo revisitar tanta história emocional e afetiva.

Marília, Cecília, Moraes e Davi

A emoção mora ao lado

“O cantor das multidões”, composição que Mú Carvalho e Tuca de Oliveira fizeram assim que Moraes nos deixou, fecha o EP, produzido por Kassin. A canção emocionou a vizinha de Davi, que interfonou para o apartamento dele para saber “que música bonita” era aquela que ele ouvia repetidamente.

Espécie de canção biográfica de Moraes, ela ganhou um ar A Cor do Som (banda que se criou a partir do séquito dos músicos que acompanhava Moraes pós-Novos Baianos) com a participação de Mú, no piano, e Dadi, no baixo.

Davi curtiu demais ver a trajetória do pai traduzida em música por antigos parceiros. Desde que Moraes se foi, ele parece ter herdado uma inspiração. Não para de compor novas canções. Parcerias com Luiz Caldas, João Cavalcanti e Chico Brown, que estarão em um próximo disco. E que devem revelar mais sobre o sentimento de Davi diante do desafio dessa nova vida, agora, sem pai nem mãe.

— Sinto como uma passagem de bastão. Vida de adulto exige força e amadurecimento. A perda se transforma, e a gente vai ficando amigo da saudade — conta. — Agora, a base somos eu e minha irmã e buscamos a luz em nossos filhos, que nos dão uma força descomunal. Mas… É muita saudade ao mesmo tempo.

Tags: Música
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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