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Uma lágrima para o fotojornalista Lilo Clareto, que se foi aos 61, vítima da Covid

Por Ricardo Antunes
22/04/2021 - 07:59
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Do Estadão – Poeta, despojado e referência na luta por justiça social, o fotojornalista Lilo Clareto, de 61 anos, teve a morte confirmada nesta quarta-feira, 21, vítima da covid-19. Deixa incontáveis amigos, esposa e quatro filhos.

Ex-Estadão e revista Época, foi responsável por fotografias consideradas históricas e atuava como freelancer desde 2008. No currículo, acumula prêmios e contribuições para diversos veículos estrangeiros. “Lilo foi uma pessoa muito especial e um dos grandes do fotojornalismo brasileiro. Muito querido por todos que conviveram com ele”, disse David Friedlander, editor-chefe do Estadão.

Em 2017, Lilo saiu de São Paulo para morar em Altamira, no Pará, onde trabalhou junto a ribeirinhos e indígenas. A principal suspeita é que tenha contraído o novo coronavírus ao documentar a crise humanitária provocada pela construção da hidrelétrica de Belo Monte, na Volta Grande do Xingu, na Amazônia.

Sem plano de saúde, chegou a ser atendido em hospital público de Altamira. A gravidade do quadro, no entanto, inspirava mais cuidados do que a rede, superlotada e com poucos recursos, poderia oferecer. Hoje, o País vive a fase mais aguda da pandemia.

O episódio também demonstra o quanto Lilo era capaz de reunir amigos e admiradores à sua volta. No dia 21 de março, a família conseguiu arrecadar dinheiro para fretar uma UTI aérea e transferi-lo para o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Para pagar o tratamento privado, chegou a ser lançada a campanha Respira, Lilo!, que levantou R$ 215,8 mil até o momento. A meta era R$ 300 mil. Houve, ainda, ação para vender imagens feitas pelo fotógrafo. Internado, foi submetido a traqueostomia e ao menos duas cirurgias de risco.

A morte foi informada nesta manhã. “Lilo Clareto mandou dizer que respira. Mas não precisa mais de ar. Saiu da UTI para habitar um lugar ao qual não temos mais acesso”, diz o texto publicado na página da campanha. “Nós, amigos, familiares e, porque não dizer, fãs… Ainda estamos processando essa nova realidade. Não é o fim. É uma pausa. A obra de Lilo continuará viva pra sempre! E que privilégio poder passar pela vida e de fato deixar um legado.”

Fotografia de Lilo Clareto que retrata o povo indígena

Maurilo Clareto nasceu em uma família numerosa na cidade de Passos, Minas Gerais, onde o pai administrava uma fazenda de usina açucareira. Foi a irmã caçula, Inês Costa, que acabou por lhe dar o apelido. Por ainda não saber falar direito, Maurilo virou Lilo, nome que o acompanhou da infância à vida profissional.

“Sem querer, acabei captando a sua alma neste apelido que ele próprio adotou como sendo sua essência”, escreveu Inês, na semana passada. “Ser Lilo resume, de maneira singular, quem ele é e sempre foi: aquele que todo mundo dá um desconto e quer proteger, porque, afoito, se lança à vida com a inocência de uma criança. É tanta energia, tanta vontade, que ignora os riscos de viver.”

Foram três filhos no primeiro casamento. Já em Altamira, conheceu e se apaixonou por Daniela Silva. Da história de amor, nasceu Maria, sua caçula, de apenas 2 anos.

Amante da MPB, cervejeiro e afeito a um bom caldinho de mocotó, transformava uma passada rápida no boteco em conversas ou cantorias de varar madrugada. Também gostava de reunir a turma em casa, como nas inesquecíveis festas juninas. Segundo os mais próximos, era cozinheiro de mão cheia. Capaz de preparar uma sopa impecável só com sobras da geladeira.

Entre os pares, Lilo é descrito como um “fotógrafo de miudezas”. “Ele conseguia enxergar grandes fatos em pequenos detalhes. Essa sensibilidade no olhar abria a visão de todos nós”, relata o fotojornalista JF Diorio, com quem trabalhou na década de 1990 no Estadão. “Não precisava estar na Olimpíada ou em outra cobertura considerada importante. Uma caminhada na Praça da Sé já virava uma grande foto.”

Foto de Lilo Clareto para capa do Jornal da Tarde

Foi exatamente assim que o fotógrafo fez uma das suas imagens mais emblemáticas: de uma criança que afasta a chupeta da boca para tragar um cigarro. O olhar atento a detalhes que poderiam contar a “história inteira” também está presente na foto de uma família que se assusta com o rasante de uma aeronave da Esquadrilha da Fumaça, em Campinas, na década de 1980.

Lilo escrevia poesia, não só por imagens. Um dos seus poemas, em 2009, é dedicado ao fotojornalismo. Um trecho diz: “Você viu o brilho da dor nos olhos das pessoas / Você sofreu com elas / Você pisou nas cinzas, na brasa e respirou a fumaça do incêndio / Você sentiu o cheiro da morte / e quase pisou na poça de sangue”.

“Era um cara sincero, que se emocionava com as pessoas e sentia a história que estava contando. Ele tinha uma preocupação muito forte com o outro e acho que conseguia transferir esse olhar para a fotografia”, descreve o fotógrafo Luiz Carlos Leite. Os dois eram amigos desde os tempos de redação do Diário Popular, no início dos anos 1990.

Além das tarde no sítio de Lilo em Apiaí, no Vale do Ribeira, Leite guarda na memória a vez que o camarada foi pautado para cobrir uma desapropriação em Sapopemba, na zona leste de São Paulo. “Ele fotografou um rapaz comum, que estava no local. Depois começou uma confusão e aquela pessoa acabou sendo baleada, praticamente do lado dele. Por causa do olhar sensível, conseguiu fazer todo o registro completo dos últimos momentos de vida do rapaz. Eu me arrepio até hoje”, relata. “Perder um cara assim é como perder alguém da família.

A carreira de Lilo é marcada por denunciar crimes ambientais e violações dos direitos humanos. Nos últimos anos, trabalhou em parceria com a jornalista Eliane Brum. “Nosso Lilo virou árvore, rio, floresta.Virou vagalume, borboleta amarela na Terra do Meio. Lilo, meu Lilo, você é em todos que te amaram e que foram amados por ti. Lilo, você é”, diz parte da publicação que ela fez em homenagem ao amigo.

Nas redes, a maioria dos textos de despedidas feitos por amigos diz que Lilo “não morreu”. Na verdade, “virou o verbo ‘lilar’”. Lilar significa “quebrar regras”. Ou “enxergar a vida de maneira singular”. Também pode dizer “permitir-se, sem medo do que há por vir; agir de forma espontânea, criativa e alegre”.

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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