Por Manoel Medeiros – O novo prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), estreia à frente da gestão da capital pernambucana sob o desafio de governar uma máquina inchada com mais de 13 mil cargos de indicação política, entre comissionados e terceirizados, e três anos sucessivos de déficit primário (mais gastos do que receitas, excluindo-se as operações de crédito).
O primeiro movimento para salvar o caixa em ano eleitoral, quando seu amigo e padrinho, João Campos (PSB), tentará levar de volta o PSB ao governo estadual, é uma operação de securitização da dívida marcada para o próximo dia 16 de abril.
Na prática, a gestão do PSB vai ao mercado financeiro para antecipar parcelas já contratadas junto aos contribuintes (pessoas físicas e empresas) previstas para serem pagas em 2026 (segundo semestre), 2027, 2028, 2029, 2030 e 2031 (primeiro semestre). O objetivo da antecipação é socorrer as contas públicas e manter o fluxo de pagamentos, que há tempo já enfrenta dificuldades, com relatos de atrasos a pagamentos de fornecedores e crescimento das despesas de exercícios anteriores, as chamadas DEAs.
O inchaço da máquina pública recifense é o instrumento pelo qual João Campos e o PSB tem estruturado a tentativa de retorno dos socialistas ao Palácio do Campo das Princesas: a partir da divisão de espaços políticos e empregos bancados com recursos públicos, garante-se a manutenção de estruturas de poder vistosas aos aliados.
Segundo documentos da própria Prefeitura, “mesmo com um saldo da operação (de leilão dos precatórios) FUNDEF da ordem de 200 milhões (não utilizados em 2025), e de acordo com as necessidades de financiamento do Município, ainda há a necessidade de captação de recursos para o ano de 2026 da ordem de R$ 556 milhões”. Esse valor é resultado de um déficit do Recifin previsto para somar R$ 440,4 milhões além da necessidade de investimentos de R$ 316,3 milhões.
O ex-prefeito do Recife leiloou ao Itaú Unibanco S.A., em novembro de 2025, R$ 567 milhões dos precatórios dos professores do Recife em troca de receber imediatamente, ainda naquele mês, R$ 443 milhões, ajudando a salvar as contas do exercício passado. Até hoje, nenhum professor ou beneficiário recebeu um real da conta.

O novo prefeito herda uma estrutura com 3,5 mil cargos comissionados (quantidade maior que a do governo estadual) e cerca de 10 mil terceirizados, categoria que teve sua despesa mais que dobrada entre 2020 e 2025 – veja a evolução.
Sem necessidade de submeter a abertura de novas vagas de emprego a projetos de lei enviados à Câmara Municipal, turbinar o número de terceirizados tem sido uma tônica das gestões públicas no País no sentido de aumentar a oferta de empregos garantidos por indicação política. No Recife, essa foi uma das marcas da gestão João Campos.
Enquanto parte dos contratos são efetivamente necessários, e ainda assim são escolhidos por agentes políticos, outros são contratados exclusivamente com intuito de toma lá dá cá político e eleitoral. Apenas na Secretaria de Articulação Política e Social do Recife, por exemplo, existem mais de 600 cargos terceirizados contratados, a maior parte indicada por aliados e pré-candidatos.
GASTOS COM TERCEIRIZADOS – PREFEITURA DO RECIFE
- 2020 R$ 366 milhões
- 2021 R$ 437 milhões
- 2022 R$ 495 milhões
- 2023 R$ 549 milhões
- 2024 R$ 649 milhões
- 2025 R$ 700 milhões*
Fonte: Despesas Totais/Portal da Transparência do Recife (Locação de mão de obra + DEA Locação de Mão de Obra) *estimativo com soma de DEAs ainda em registro
SECURITIZAÇÃO – A partir de análise da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), contratada pela administração municipal, a operação prevista para ser iniciada nos próximos dias deve antecipar o parcelamento da dívida ativa programa para serem paga entre o segundo semestre de 2026 e o primeiro de 2031. O montante é estimado em R$ 534,3 milhões (veja tabela).

O valor é uma estimativa e será confirmado, para mais ou para menos, apenas após o início do processo de securitização. Assinado o contrato com a instituição financeira, a previsão é que a receita seja creditada nas contas da Prefeitura em três meses, por volta de agosto deste ano.
O custo da operação será de até 5% do seu montante total. No total, de acordo com a Fipe, o município do Recife tem R$ 11,8 bilhões de dívida ativa passíveis de cessão, ou seja, aptos para venda ao mercado financeiro. Uma lei municipal foi aprovada no ano passado permitindo as operações em conformidade com lei complementar federal de 2024.
Nos últimos três anos, a Prefeitura fechou as contas com déficits primários crescentes: R$ 403,8 milhões (2023), R$ 474,2 milhões (2024) e R$ 518,8 milhões (2025).












