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“Cafona mesmo é ser chato!”, dizia Danuza Leão

Por Ricardo Antunes
23/06/2022 - 22:04
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Por Joaquim Ferreira dos Santo — É irônico que o Brasil tenha perdido Danuza Leão, autora do mais famoso manual de comportamento nacional, o “Na sala com Danuza”, no mesmo instante que o país vive a tragédia de uma barbárie civilizatória. Poucos ainda palitam os dentes à mesa, como era problema em 1991. De resto, a grosseria dos maus modos avacalhou todas as salas federativas, virou prática de estado e discurso institucional. Esta semana, perguntado se estava cansado, sua excelência o presidente da república pôs em prática mais uma vez a sua etiqueta de homem das casernas, e declarou à imprensa que “não, estou é brocha, mesmo”.

A falta de educação está no poder, a República das Bananas foi substituída pela República da Cafajestagem, e é ainda mais doloroso, em meio a essa vulgaridade comportamental, sepultar Danuza Leão. Ela foi um ícone da elegância e dos bons princípios da etiqueta, aquela delicadeza praticada não pelo prezo à futilidade, mas em respeito ao próximo e às regras de civilidade.

“Na sala com Danuza”, mais de 200 mil livros vendidos, poderia ser distribuído como material paradidático nas escolas pelo Ministério da Educação, mas, como se viu no noticiário desta semana, o órgão tem outras preocupações e uma etiqueta de negócios agora em investigação pela Polícia Federal.

Foi num banquete que Danuza Leão me disse a etiqueta definitiva: 'Cafona mesmo é ser chato!'
Danuza Leão posa para fotos em seu novo apartamento em Ipanema

 

Em 1951, quando Danuza Leão entrou em cena, o cangaço era de outro nível. Ela acabara de fazer 18 anos. Participou de um desfile num castelo francês montada num cavalo e, para agradar o paraibano Assis Chateaubriand, financiador do evento, estava vestida como a cangaceira Maria Bonita. A década de 1950 teria outra mulher ícone, a baiana Martha Rocha. Com suculentas duas polegadas a mais, fazia o tipo Velha República. Danuza era o Brasil moderno. Magra como as colunas do Niemeyer no Alvorada, um nariz anguloso como a poesia concreta dos paulistas e um pescoço internacional de matar de inveja todas as girafas do Modigliani.

No final da década, a Maria Bonita já vestia os melhores costureiros franceses e estava casada com o tycoon da imprensa, Samuel Wainer. Danuza foi muitas outras depois, todas mulheres de sucesso e, independente, pouco interessadas no que pudessem pensar de suas atitudes. Quando a grana ficou curta, topou ser jurada do popularesco Flávio Cavalcanti. Em seguida empregou-se como directrice de boate em Ipanema, uma passarela noturna pouco recomendada para quem começara a caminhada na passarela de Jacques Fath.

Superou tragédias pessoais (o suicídio do pai, o câncer da irmã Nara, a morte do filho Samuca) e foi em frente, movida por seus desejos. Quando o tycoon bonitão Wainer passou a dar mais atenção ao jornal do que a ela, a sofisticada Danuza deixou-se levar apaixonada pelo empregado dele, o colunista feio pobretão Antônio Maria. Ninguém entendeu. Muitos anos depois, em três palavras, Danuza me deu uma aula de sensibilidade feminina e explicou o que a seduziu no adiposo autor de “Ninguém me ama”: “Ele me ouvia”.

Danuza clicada na década de 70  — Foto: Marisa Alvarez Lima
Danuza clicada na década de 70

Ex-modelo, Danuza levou a vida sem pose artificial, apenas com aquela que lhe era de origem divina e aperfeiçoou prestando a atenção nos bons exemplos. Não tinha culpa se a passagem do tempo foi construindo ao seu redor uma referência de glamour, de uma elegância que até podia falar francês, mas sem caretice, sempre atualizada com os novos prazeres da existência. Num dos capítulos de “Na sala”, ela explica como proceder educadamente se na festa avançadinha, típica dos anos 90, aparecer em meio às bandejas de canapés uma outra com uma carreira de cocaína.

Em Paris ou numa feijoada

Acima de tudo, Danuza Leão tinha humor e se divertia com o excesso de etiquetas formadas sobre tudo. Nós estivemos à mesa apenas duas vezes, e eu espero não ter cometido alguma gafe. Foram encontros em torno de cardápios absurdamente conflitantes — tão Danuza! — e eu não me lembro se foi no jantar ao escargot no La Coupole, em Paris, durante a Copa do Mundo de 94, ou já neste século, às voltas com carnes e caroços num almoço da Casa da Feijoada, em Ipanema. Foi num desses banquetes que Danuza me disse a etiqueta definitiva: “Cafona mesmo é ser chato!”

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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