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Endeusamento de Lula pode eleger Bolsonaro

Por Ricardo Antunes
05/10/2022 - 11:02
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*Por Elio Gaspari — Quem viu o último grande evento da campanha de Lula, no dia 26 de setembro, podia achar que estava na cerimônia de entrega do Oscar, com um só vencedor, Luiz Inácio Lula da Silva. Sentia-se no ar uma opção preferencial pelas celebridades. O evento destinava-se mais a deificar Lula que a permitir uma coligação de vontades que derrotasse Bolsonaro.

Contados os votos, Lula prevaleceu, mas não conseguiu fechar a eleição no primeiro turno. Olhando para o mapa, vê-se que os candidatos apoiados por Bolsonaro ficaram na frente em todos os estados do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo. O mapa de 2022 guarda semelhanças com o do vendaval de 1974, quando o MDB elegeu todos os senadores do Rio Grande do Sul até a muralha da Bahia. (A semelhança é grosseira por parcial, porque desta vez as eleições no Rio Grande do Sul e em São Paulo decidem-se no segundo turno.)

Em 1974, o favoritismo dos candidatos da ditadura era tamanho que Ulysses Guimarães em São Paulo e Tancredo Neves em Minas Gerais preferiram ficar no conforto de sua cadeiras de deputado. Elegeram-se os pouco conhecidos prefeitos de Campinas e Juiz de Fora, Orestes Quércia e Itamar Franco.

Em 1974, dizia-se no Palácio do Planalto que Nestor Jost, candidato do governo no Rio Grande do Sul, devia ficar quieto, pois ganharia uma cadeira de senador. Ilusão, ela foi para o emedebista Paulo Brossard. Em 2022, o comissariado petista selou sua aliança com o ex-governador Márcio França dando-lhe a cadeira de senador e entregando à sua mulher a vice na chapa de Fernando Haddad. Contados os votos, França foi para casa, o astronauta de Bolsonaro elegeu-se senador, e Haddad lutará no segundo turno.

A eleição do astronauta Marcos Pontes em São Paulo traz outro sinal: 2022 não é um replay de 2018, porque ele não é o Major Olímpio, que tomou a cadeira de Eduardo Suplicy. É verdade que, em 2022, o boiadeiro Ricardo Salles conseguiu se eleger para a Câmara, mas seu bolsonarismo, mesmo sendo radical, é recente. Quem o trouxe para a política de São Paulo foi Geraldo Alckmin. Entre 2018 e 2022, o deputado federal Eduardo Bolsonaro perdeu 1 milhão de votos.

Alguns ventos de 2018 fizeram-se sentir, mas a força que os move está, de certa forma, ligada ao antipetismo. O ex-juiz Sergio Moro elegeu-se senador pelo Paraná, e sua mulher deputada por São Paulo.

O comissariado e, sobretudo, Lula subestimaram o vigor desse sentimento. São muitos os eleitores que apreciaram a entrada de Geraldo Alckmin na chapa de Lula, mas não o acompanharam no mea-culpa de dizer-se iludido por ter condenado práticas dos governos petistas. Juscelino Kubitschek, um político que amava a vida, ensinava que não tinha compromisso com o erro.

Errou bastante, mas acertou muito mais. Lula e seus comissários, com um notável acervo de acertos, tropeçam nas bolas de ferro dos próprios erros. A eleição de domingo mostrou que a tentativa de deificação de Lula pode ter um preço: a reeleição de Jair Bolsonaro.

Quando Lula diz que o segundo turno é uma simples prorrogação de um jogo ganho, ele pode estar cometendo o último erro de uma campanha que começou bem e se perde num terrível instante, parecido com aquele em que a defesa da seleção brasileira de 1950 achou que o ponta-direita uruguaio Alcides Ghiggia recebeu a bola e centraria. Ele avançou e fez 2 x 1.

_____________________________________________________________

*Elio Gaspari é jornalista e escritor ítalo-brasileiro. Em 2016, foi homenageado com um Prêmio Vladimir Herzog.

 

Tags: 2º turnoEleições 2022Jair Bolsonaro
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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