Por Fabio Serapião, do UOL — Uma escuta da Polícia Federal mostra empresários que forneciam medicamentos para cidades do Rio Grande do Norte detalhando como se dava a “matemática da propina” em Mossoró.
O prefeito de Mossoró (RN), Allyson Bezerra (União), foi um dos alvos da operação Mederi, deflagrada pela PF na terça-feira. Ele é pré-candidato ao governo do estado e lidera as pesquisas de intenção de voto.
A PF usou uma escuta ambiental instalada no escritório da Dismed, uma das empresas investigadas, para avançar na apuração e realizar buscas contra o prefeito.
Nas conversas gravadas, o empresário Oseas Monthalggan Fernandes Costa, sócio da Dismed, fala com um interlocutor sobre a “matemática de Mossoró”.
Após Oseas afirmar que existe na cidade uma ordem de compra de medicamento no valor R$ 400 mil, o interlocutor explica como era feita a divisão dos valores na cidade.
“Desses 400 [mil] ele entrega 200 [mil]. Dos 200, ele vai e pega 30%, 60, então aqui ele comeu 60 [mil]”, diz o empresário.
Em seguida, Oseas continua a explicação e cita o prefeito Bezerra.
“Fica 140 [mil] pra ele entregar 100%. Dos 140 [mil] ele ganha 70 [mil]. 70 com 60 [mil] é meu, R$ 130 mil. Só que dos 130 nós temos que pagar R$ 100 mil a Allyson e a Fátima, que é 10% de Fátima e 15% de Allyson. Só ficou R$ 30 mil para a empresa”, afirma Oseas na conversa.

A PF não identificou quem seria Fátima citada na conversa, mas as apurações apontam para uma funcionária da administração de Mossoró.
A Dismed, entre 2021 e 2025, recebeu cerca de R$ 13,5 milhões da prefeitura de Mossoró relacionados à venda de medicamentos.
“O volume de recursos públicos envolvidos, somado ao volume de dinheiro em espécie sacado pelas empresas, por si só, já constituiria circunstância digna de suspeita acerca da licitude da relação mantida com o ente municipal”, afirma a PF ao pedir busca contra Bezerra.
Para a PF, a suspeita do pagamento de propina exposta nas escutas é reforçada pela proximidade entre o empresário e o prefeito. A polícia cita em seu relatório que os dois mantêm uma “proximidade política” e usa como exemplo uma foto dos dois publicada nas redes sociais.
O nome do prefeito de Mossoró é citado em vários momentos das escutas feitas pela PF.
“Durante a captação ambiental, seu nome foi mencionado pelos sócios Oseas e Moabe acerca de esquemas de pagamentos de propina envolvendo contratos com a prefeitura de Mossoró”, diz a PF.
Bezerra gravou um vídeo falando sobre a operação (veja abaixo), alegando inocência e citando que a ação é referente a fatos de 2023. “Agora, ano eleitoral e em que o nome da gente aparece na primeira posição, nosso nome foi citado e houve essa investigação. Vou enfrentar com muita fé, coragem e integridade de entregar tudo o que me for solicitado. Faço questão de que toda investigação seja conduzida com total rigor da lei. Confio na Justiça”, disse.
Em nota, a defesa da Dismed e de Oseas diz que está “confiante de que o esclarecimento técnico e documental demonstrará a inexistência de qualquer conduta criminosa”.

Sobre os diálogos que constam na apuração, a defesa diz que “aguarda o acesso integral aos autos, a fim de proceder à análise técnica do conteúdo, de sua existência, contexto e legalidade, observando-se rigorosamente as garantias constitucionais”.
“A Dismed atua há 18 anos de forma contínua e regular no comércio atacadista de medicamentos, exercendo atividade lícita, fiscalizada e amplamente reconhecida no mercado, sem histórico de irregularidades”, diz a defesa.
Sobre o dinheiro achado na sede da empresa, a Dismed diz que os R$ 52 mil “decorrem de atividade comercial lícita, são plenamente compatíveis com o ramo farmacêutico e não configuram qualquer ilícito, sendo pacífico o entendimento de que a manutenção de numerário em residência, por si só, não constitui crime”.











