Do JC – Antes de ser espetáculo, o maracatu de baque solto foi encontro. Nos engenhos da Zona da Mata, trabalhadores transformaram a dureza do cotidiano em música e a rivalidade em poesia. Hoje, a tradição atravessa Pernambuco, alcança a Região Metropolitana e reúne mais de 100 grupos em atividade — levando ao Carnaval uma festa que é também memória.
Chamado também de maracatu rural – quando estava restrito ao interior -, o baque solto carrega matrizes diversas. Há influências indígenas, africanas e ibéricas. Dessa mistura nasceu uma das expressões culturais mais singulares do Estado.
É uma manifestação que combina música, poesia improvisada, teatralidade e artesanato. Cada gola é bordada lantejoula a lantejoula, num trabalho minucioso que transforma tecido em arte. O que reluz no Carnaval começa muito antes, nas mãos de quem borda, costura, ensaia, compõe e ensina.
No início do século passado, os encontros entre maracatus eram tensos. Havia disputas acirradas, confrontos físicos e até presença da polícia. Era, literalmente, uma guerra entre grupos. Com o tempo, as regras mudaram. A violência cedeu espaço às sambadas — duelos de versos improvisados — e o confronto se transformou em celebração cultural.
Hoje, o cortejo é um teatro popular em movimento. O caboclo de lança é o símbolo mais reconhecido, com sua gola bordada, cabeleira de tiras reluzentes e a lança enfeitada que abre caminho na multidão. Mas ele não está sozinho. Desfilam o mestre do apito, que comanda o ritmo e improvisa poesia; o rei e a rainha; a dama do paço; o arreiamá; as baianas e outros personagens que dão forma a essa dramaturgia coletiva.
No centro de tudo está o terno, a banda musical do maracatu. Formado por percussão e instrumentos de sopro, ele sustenta a sonoridade vibrante que distingue o baque solto. O apito chama, o metal responde, o couro marca o compasso.

Entre festa e responsabilidade
Por trás da explosão de cores há trabalho o ano inteiro. “O mais difícil hoje é incentivar os nossos mestres mais velhos, porque eles têm muito a nos ensinar. Não é só a dança, não é só o tocar e o cantar. Existe a história de resistência, existem os rituais que sempre foram feitos para proteger essa cultura do terreiro e da cultura popular”, afirma Manoelzinho Salustiano, presidente da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco.
Para ele, preservar o maracatu é também preservar a escuta. “O que falta hoje é uma valorização maior dos mestres mais velhos, uma forma de a gente poder escutá-los mais, para que a história não morra. Porque, se a gente pensa só na festa, a gente está começando pelo final”, alerta.
Há ainda o desafio financeiro. Mestre de apito do Maracatu Estrela Dourada de Buenos Aires há 14 anos e no Baque Solto desde 1993, Barachinha resume a dificuldade com franqueza:
“É muito difícil manter o maracatu de baque solto por conta da falta de recurso financeiro. Isso pesa muito. A gente só vê barreiras. O que mais pesa é a falta de recurso financeiro.”
As fantasias são luxuosas, mas feitas de esforço coletivo. Bordado, instrumento, transporte, ensaio — tudo exige investimento constante.
Em 2014, o maracatu de baque solto foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O título deu visibilidade e reafirmou a importância histórica da manifestação. Mas, para quem vive o cotidiano do terreiro, o reconhecimento precisa se traduzir em ações concretas.
“Vale a pena ter esse reconhecimento, mas ainda há muitas coisas a serem feitas. Deveria existir mais ações, principalmente nessa questão de escutar os mestres, que têm muita história para ser falada ainda”, diz Manoelzinho.
Barachinha concorda. “O reconhecimento trouxe algumas mudanças, mas está muito longe do que a gente sonha. Pela garra que a gente tem para manter o maracatu, mesmo com pouco apoio, ainda está distante do que a gente espera”, pontua.
Juventude e continuidade
Se a tradição precisa de memória, também precisa de renovação. “Um terreiro de maracatu de baque solto é uma escola. Se a gente não pegar as crianças para ensinar, a gente perde a cultura”, afirma Manoelzinho.
O trabalho de formação, iniciado há décadas pela associação e pelos próprios donos de maracatu, vem dando frutos. “Com certeza, o jovem no maracatu fez renascer uma esperança de essa cultura ir muito mais longe. Eles estão somando muito. Através do jovem, as coisas estão melhorando, estão andando mais”, diz Barachinha.
Hoje, jovens ocupam todos os espaços: vestem-se de caboclo, integram o terno, assumem o apito. A tradição segue firme porque aprendeu a se renovar.
No Carnaval, o baque solto é alegria que se espalha pelas ruas. No restante do ano, é ensaio, bordado paciente e resistência silenciosa. Da Mata à metrópole, o apito continua chamando — e Pernambuco continua respondendo.












