Do UOL – O empresário de tecnologia Cleber Ribas de Oliveira tinha um contrato prevendo uma comissão ao grupo de Roberta Luchsinger e Lulinha sobre contratos fechados com o governo, segundo investigação da Polícia Federal.
Mensagens analisadas pela PF, obtidas pelo UOL, mostram que a relação entre Roberta e Cleber começou em 2023. Em 7 de março daquele ano, o empresário e a lobista falaram sobre a possibilidade de assinarem um contrato de intermediação com uma “success fee” (taxa de sucesso) por contratos no governo, cujo valor ainda não estava definido.
Em 24 de maio, Cleber envia a minuta do contrato de intermediação a Roberta, que previa uma comissão por “apresentação das partes para celebração de negócios”. O documento é assinado no dia seguinte.
A previsão inicial era de que o pagamento ocorreria por meio de uma empresa chamada Santos Soluções Empresariais. Depois, porém, pagamentos foram identificados partindo de outros CNPJs.

Ao todo, a PF identificou quase R$ 3 milhões em pagamentos à RL Consultoria —empresa de Roberta— feitos pelo grupo de Ribas, que fornecia serviços de TI, ao longo de três anos:
- Ribas Informática: R$ 1,5 milhão;
- Santos Soluções: R$ 150 mil;
- 3Structure: R$ 1 milhão;
- José Alberto Abdon (sócio da Santos): R$ 300 mil.
A Santos Soluções também vende ao governo. Recebeu R$ 25 mil da União em 2021 e R$ 721 mil em 2023, ano em que passou a pagar a consultoria de Roberta.
Segundo a PF, Fernando Bittar —um dos donos do sítio de Atibaia— e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, eram sócios ocultos de Roberta na RL Consultoria.
Procurada, a defesa de Lulinha disse que relatórios são parte normal do início de investigação. “Eles informam que mensagens são suprimidas e pinçadas, para levantar hipóteses investigativas que ainda serão validadas ou descartadas”.
No pedido que encaminhou ao STF (Supremo Tribunal Federal) para abertura de inquérito sobre os diálogos e repasses, a PF diz que é preciso aprofundar a investigação para esclarecer a que se referem esses pagamentos.
Investigadores veem indícios de utilização de relações pessoais privilegiadas para obter vantagens indevidas em órgãos públicos e favorecimento ilícito a agentes públicos, entre outros crimes.
Cleber disse que “não é possível comentar sobre supostas mensagens sem acesso prévio aos dados brutos da interceptação telemática ou à totalidade das investigações em curso”.
Assinatura do contrato
Em 22 de março de 2023, Luchsinger pediu a Cleber um briefing sobre o que sua empresa fazia, para tentar prospectar contratos com órgãos públicos.
Já em 3 de abril, Roberta tentou marcar um jantar com Cleber, Lulinha e Fernando Bittar. “O Fabio e o Fernando irão. A ideia é aquela: vc contratar eles”, escreveu Roberta a Cleber naquele dia. O jantar acabou sendo adiado.
As conversas continuam nas semanas seguintes, e os dois discutem possibilidades de contratos na estatal Dataprev e nos estados de Tocantins e Maranhão.
“Além da empresa que tá assinando o contrato, outras empresas que a gente poderia indicar para fechar os contratos em cima do relacionamento teriam que comissionar vocês”, diz Cleber em um áudio à lobista.
Os pagamentos começam em junho de 2023. Em mensagens de Roberta a Cleber, ela indica que Lulinha estava usufruindo dos repasses.
“Menino cobrando as passagens”, diz em agosto de 2025, por exemplo, cobrando um pagamento, dias antes de sua empresa receber R$ 168 mil. A PF entende que “menino” era referência a Lulinha, já que há diversas menções nas conversas a passagens aéreas que a lobista pagava a ele.
Como mostrou reportagem do Estadão, a suspeita da PF é que o filho do presidente era destinatário dos pagamentos feitos por Ribas.
Contratos no MDS
Após os pagamentos terem início com um repasse de R$ 150 mil em junho de 2023, Ribas disputa um pregão no Ministério de Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), órgão em que Roberta tinha trânsito, como mostrou o UOL.
Ele saiu vencedor e assinou um contrato de R$ 31 milhões com o órgão em dezembro de 2023. No ano seguinte, Ribas fez duas visitas à pasta.
Ao todo, segundo levantamento do UOL, a empresa de Cleber recebeu R$ 37 milhões do ministério do início de 2024 até hoje. Em 2026, ganhou um novo contrato, de R$ 19,2 milhões.
Sobre as contratações, o MDS disse que “todos os procedimentos foram conduzidos pelas áreas técnicas responsáveis”.
“Os atestados de capacidade técnica apresentados no processo foram analisados e aceitos pelas áreas competentes de acordo com as exigências do instrumento convocatório, não tendo sido identificados, à época da habilitação, elementos que justificassem diligência adicional.”
Articulação sobre Dataprev
No dia 21 de junho de 2023, Roberta mandou a Cleber uma lista de agendas que havia marcado com ele em Brasília: Geap (plano de saúde de servidores públicos), Ministério de Portos e Aeroportos e Correios.
Dataprev, que era uma prioridade para o empresário, estava “a confirmar”. “Fique tranquilo que a expectativa é muito boa”, disse Roberta a Cleber.
“Só você para fazer o que fiz… Vamos aguardar agora à tarde o resultado”, complementa. “Mas eu envolvi o Palácio”, diz. A PF vê possível referência ao Palácio do Planalto na conversa.
Nas mensagens, Cleber cobrou Roberta sucessivas vezes sobre a estatal. Queria vencer um contrato para fornecer serviços de nuvem.
O assunto voltou em 27 de julho. “Aquele contrato que te falei da nuvem [Dataprev] vai sair”, diz o empresário. “Se a gente não atuar vai ficar com a turma do Bozo”, disse, em referência a um grupo de empresários que vinha vencendo as licitações na Dataprev desde o governo Jair Bolsonaro, que Cleber queria desbancar.
Em setembro de 2023, o empresário enviou uma minuta de contrato prevendo uma comissão de 15% do valor de um contrato na Dataprev à RL Consultoria. Naquele momento, porém, eles não se tornam fornecedores da estatal.
A própria Roberta mencionou o tema a um terceiro, em janeiro de 2024, dizendo que estava tentando viabilizar uma ata de preços na Dataprev. Nessa modalidade, a licitação pode ser usada para contratar em outros órgãos também.
Até o momento das mensagens interceptadas pela PF, não havia indícios de que o grupo tinha conseguido vencer a licitação que queria na estatal. A Dataprev informou que não tem contrato com a empresa de Ribas.
Outro lado
Procurada, a defesa de Lulinha disse, por meio de nota, que relatórios levantam “hipóteses investigativas que ainda serão validadas ou descartadas” e, por isso, “são sigilosos e não concluem nem provam nada”. “No processo, os dados completos são verificáveis e a hipótese investigativa terá que enfrentar verificação e validação”, afirmou o advogado Guilherme Suguimori.









