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Uma lágrima para Mendonça. O genial jogador do Botafogo que driblou a lógica em tempos de jejum.

Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 18:03
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Por Thales Machado colunista do O Globo

É curioso que, quando nos referimos a uma equipe que ficou anos sem ser campeã, utilizamos a palavra “jejum”. Há algo de poético nisso. Não falamos, por exemplo, em abstinência de conquistas, afinal, a palavra carrega um sentimento de desespero, de angústia, sentimentos talvez compatíveis com o torcedor do Botafogo nos 21 anos sem taças.

Jejum é mais brando, tem um tom religioso.

Quem jejua, muitas vezes, o faz por uma causa, uma paixão. E paixão é o único alimento para um time de futebol em um período onde a glória é escassa.



O ex-meia Mendonça, nesse sentido, foi devorado pelo torcedor botafoguense morto de fome durante os 21 anos de jejum de conquistas (1968 a 1989). Durante e depois de sua passagem pelo Botafogo, entre 1975 e 1982, foi um herói para a resistência alvinegra: se desacostumar-se com o período de fartura dos tempos de Nilton Santos, Garrincha e Jairzinho era difícil, a habilidade e a elegância em campo do camisa 8 tapeavam a fome que só viria a crescer.

Em sete anos de Botafogo, Mendonça só ganhou um Torneio Início, em 1977. No seu penúltimo ano, porém, contra o inesquecível Flamengo de 1981, pelas quartas de final do Brasileiro, recebeu um lançamento no começo da área, dominou no peito com destreza e, com dois toques de artesão da bola, fintou o infintável Júnior, um dos maiores jogadores da época.

Com a frieza de monge, fez o que nem precisava mais, o gol que colocou 3 a 1 no placar e eliminou o grande rival alvinegro em seu ano mais vitorioso.

Time do Botafogo antes da vitória por 3 a 1 sobre o Flamengo, nas quartas do Brasileiro Foto: Jorge Marinho / Agência O Globo

Foi o maior prato de comida que o botafoguense sorrateiramente recebeu em jejum. O drible ganhou nome, “Baila Comigo”, e fez dançar de alegria uma torcida que já não ganhava nada há onze anos e ficaria ainda uma década sem gritar “é campeão”, tendo o lance na memória – em época sem título e sem YouTube – como troféu.

Na polêmica semifinal daquele ano, o Botafogo foi eliminado para o São Paulo. Já longe do auge, Mendonça jogou em outros 12 clubes brasileiros e nunca foi campeão. Até quando o Palmeiras foi à final do Paulista contra a Inter de Limeira, em 1986, ele deu um jeito de estar de verde em campo e a taça foi para o interior. Seu destino brilhante não previa, porém, subir no degrau mais alto do pódio.

O perfil do jogador na Wikipédia não tem a aba “títulos”, mas conta em mais de um parágrafo sobre o drible em Júnior. Campeão qualquer um é, gol de placa no Maracanã não é todo mundo que faz.



Mendonça, ídolo de tempos em que até os times perdedores não precisavam mandar seus craques à Europa, morreu na manhã desta sexta, aos 63 anos, depois de dois meses internado após cair de uma escada em uma estação de trem, como numa peça do destino mostrando que subir demais não era para ele. Deixa amigos, parentes e duas perdas: quando fez o gol contra o Flamengo, ganhou uma placa no Maracanã, que misteriosamente sumiu.

Já em 2008, teve os pés eternizados na calçada da fama do estádio, mas a homenagem também desapareceu nas reformas dos anos seguintes. Histórias de um homem condenado a não deixar troféus para trás.

Mas se em 1989, quando o Botafogo conquistou o Carioca e deu fim ao jejum de 21 anos sem títulos, Mendonça não estava em campo, muitos que estavam nas arquibancadas ainda resistiam sem morrer de fome por sua causa. Mendonça é um homem condenado a ser memória boa de tempos difíceis. E são essas as que marcam mais.

Tags: Luto
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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