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Home Política

Antropóloga diz que discurso social de Bolsonaro tende a desbotar ‘memória do lulismo’

Na visão da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, Bolsonaro caminha para fortalecer suas chances de reeleição, ao ter o apoio das massas via programas sociais e das elites, com a agenda liberal de Paulo Guedes.

Por Ricardo Antunes
15/08/2020 - 05:34
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Da BBC News Brasil — O avanço de Jair Bolsonaro sobre a área social, foco dos governos petistas, com o lançamento de um novo programa de transferência de renda, tende a desidratar ainda mais a “memória do lulismo” entre as camadas mais pobres da população ao mesmo tempo em que dá musculatura à sua reeleição.

 

Essa é a opinião da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora do Departamento de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Bath, no Reino Unido, e autora do livro Amanhã vai ser maior (Editora Planeta, 192 pp, 2019), em que investiga o período que vai das Jornadas de Junho de 2013 até a vitória de Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018.

Pinheiro-Machado é um estudiosa do bolsonarismo e vem pesquisando, desde as últimas eleições, como moradores de periferias do Sudeste e Sul do Brasil, antes eleitores do PT, se converteram a apoiadores de Bolsonaro.

Segundo ela, há um tripé que sustenta o bolsonarismo, formado por “punitivismo, família e assistência social”.

Há um tripé que sustenta o bolsonarismo, formado por “punitivismo, família e assistência social”, diz a pesquisadora.

“O punitivismo se refere à abordagem de Bolsonaro sobre segurança pública. Já a família são os valores e costumes conservadores, que se aliam à base religiosa. Por fim, a assistência social se manifesta nas políticas de transferência de renda”, diz ela à BBC News Brasil.

Pinheiro-Machado acrescenta que o último eixo, o da assistência social, que nunca foi o forte do atual governo, ganha força agora, com a concessão do auxílio emergencial e o lançamento do plano Renda Brasil.

“O lulismo já havia perdendo memória nas camadas mais pobres da população e isso deve se acentuar ainda mais agora”, assinala ela.

“O dinheiro do auxílio emergencial, por exemplo, já muda a vida de muitas pessoas – e dinheiro significa autonomia”, acrescenta.

Ela ressalva, no entanto, que esse fenômeno é regionalizado e não pode ser observado de forma homogênea entre todas as periferias do Brasil. As zonas mais carentes do Nordeste, onde o lulismo é mais forte, precisam ser acompanhadas com mais atenção, acrescenta.

Contexto da pandemia

Anunciado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, em junho, o Renda Brasil é um programa de renda mínima permanente, com a unificação de vários programas sociais, incluindo o Bolsa Família.

Desde prisão de Fabrício Queiroz, Bolsonaro tem adotado um tom diferente.

De acordo com Guedes, devem ser incluídos no programa os 38 milhões de beneficiários do auxílio emergencial, de três parcelas de R$ 600, pago em razão da pandemia de covid-19.

“Aprendemos durante toda essa crise que havia 38 milhões de brasileiros invisíveis e que também merecem ser incluídos no mercado de trabalho”, disse ele na ocasião, durante reunião ministerial coordenada por Bolsonaro.

A mais nova pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada na sexta-feira (14/08), sustenta a análise de Pinheiro-Machado. A sondagem mostra que a aprovação a Bolsonaro subiu e é a melhor desde o início do mandato.

Segundo o levantamento, 37% dos brasileiros consideram o governo ótimo ou bom, frente a 32% do anterior, realizado em 23 e 24 de junho.

A correlação com a distribuição do auxílio de R$ 600 é sugerida, ainda que não direta.

Houve uma queda ainda maior na rejeição ao governo. Anteriormente, consideravam ruim e péssimo 44% dos entrevistados. Agora, são 34%. Já 27% consideram o governo regular, ante 23% em junho.

Foram entrevistadas 2.065 pessoas por telefone nos dias 11 e 12 de agosto. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou menos.

Mas mesmo no Nordeste, um reduto oposicionista, a rejeição a Bolsonaro caiu de 52% para 35%. Ali, ele tem sua pior avaliação: somente 33% consideram seu governo ótimo e bom, alta de seis pontos em relação a junho.

A correlação com a distribuição do auxílio de R$ 600 é sugerida, ainda que não direta.

No Nordeste, onde vive quase um terço da população brasileira, 45% dos moradores recorreram ao benefício.

Mudança de tom

Pinheiro-Machado também faz coro com outros especialistas de que Bolsonaro “mudou de tom” recentemente.

Desde a prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor de seu filho Flávio Bolsonaro, investigado no caso das “rachadinhas” e elo entre o gabinete do hoje senador e milícias no Rio de Janeiro, o presidente vem diminuindo as aparições públicas e incitando menos os apoiadores radicais.

Além disso, também vem estreitando laços com os partidos do chamado “centrão”, distribuindo cargos e verbas em troca de apoio.

Reeleição

Manejo da pandemia pode prejudicar planos de reeleição de Bolsonaro.

Na visão de Pinheiro-Machado, Bolsonaro caminha para fortalecer suas chances de reeleição, ao ter o apoio das massas via programas sociais e das elites, com a agenda liberal de Paulo Guedes.

Porém, o manejo da pandemia de coronavírus pode frustrar seus planos, ressalva.

“Tudo vai depender de como será a gestão da crise daqui para frente. Se continuar morrendo muita gente, aos milhares, isso pode se tornar um calcanhar de Aquiles para Bolsonaro e prejudicar sua reeleição”, conclui.

Tags: Auxílio EmergencialEleiçõesJair Bolsonaro
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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