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“Prazo de validade da vitória de Bolsonaro com Lira na Câmara é curtíssimo”, por Igor Gielow

Fatura do centrão pode travar de vez o governo, e risco de impeachment só foi adiado

Por Ricardo Antunes
02/02/2021 - 07:26
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*Por Igor Gielow — Vitórias de Pirro são uma constante na política brasileira desde que ela entrou em modo entrópico, no hoje distante 2013.

 

Nesta segunda (1º), Jair Bolsonaro colheu mais uma dessas, nas quais o preço a pagar é muito maior do que o ganho auferido. O prazo de validade dela é brevíssimo.​

O presidente por certo pode celebrar a vitória expressiva de Arthur Lira (Progressistas-AL), o rei do centrão, para o comando da Câmara dos Deputados. Baleia Rossi, por mais MDB que seja, estaria pressionado para uma posição antagônica ao Planalto.

Maia chora durante eleição na Câmara, que deu vitória ao adversário Arthur Lira (PP)

Bolsonaro também nada tem a reclamar da ascensão do moderado Rodrigo Pacheco (DEM-MG) à chefia do Senado, ainda que nada indique que ele será um carimbador de iniciativas do Planalto.

Ao contrário, seu primeiro discurso foi centrado numa abordagem racional dos problemas centrais do país, tratados de forma caótica pelo Planalto: vacinação e geração de empregos.

O foco mais chamativo, naturalmente, é o triunfo do centrão na Câmara. Afinal de contas, será a mão de Lira que segurará ou não um pedido de impeachment contra Bolsonaro, a obsessão perene do presidente.

Ele tem a que temer. Se em Brasília há um consenso de que os 30% de popularidade do presidente e a ausência de pressão nas ruas pelo desastre da condução da pandemia barram um impedimento agora, há também a certeza de que a situação pode se deteriorar rapidamente.

A ideia de que a eleição de Lira representa um seguro contra impeachment não prospera nem mesmo entre bolsonaristas menos hidrófobos.

Presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP)

A outra função básica do apoio de Bolsonaro ao deputado, a de tentar destravar iniciativas do governo, é ainda menos tangível, até pela pulverização das bancadas.

O centrão tem vários vasos comunicantes com o bolsonarismo, na chamada pauta de costumes, por exemplo. Bolsonaro foi um deputado das franjas do grupo durante três décadas, é bom lembrar.

A pressão por mais gastos federais ante o agravamento da pandemia parece inevitável. Em seu primeiro discurso, Lira já falou “pauta emergencial” contra a pandemia.

O choque entre as demandas do Parlamento e os limites da penúria do Ministério da Economia do questionado Paulo Guedes é uma crise contratada para estourar.

Por fim, o óbvio: a fatura que o centrão irá apresentar em termos de indicação de nomes, ministérios e verbas. Cada votação importante terá um custo talvez impagável —a festa de emendas parlamentares em prol da candidatura Lira terá sido só um aperitivo.

O recuo público de Bolsonaro acerca da recriação de ministérios, deixando como opção ao grupo a polpuda pasta da Cidadania, não foi bem digerido por dirigentes de siglas do centrão. O fatiamento do petroleiro comandado por Guedes também está na mira do grupo.

Centrão é um conjunto de partidos que não possuem uma orientação ideológica específicas mudando de posição por acordos em benefício próprio.

O centrão, como soube Dilma Rousseff (PT) ao achar que havia contratado o seguro contra seu impedimento ao abarcar o grupo em sua base, age de acordo com a disposição de seu hospedeiro no Planalto.

Seu casamento com Bolsonaro, que data de meados do ano passado, agora chega a um novo patamar, ainda que a vitória de Lira seja tão ou mais uma derrota de Rodrigo Maia (DEM-RJ), cuja atitude imperial gerou um mar de ressentimentos no plenário e cobrou a conta de Baleia, seu ungido.

Mas uma coisa o grupo não faz: levar caixões à cova. Se houver uma deterioração da popularidade de Bolsonaro ou se o governo entrar em um modo de enfrentamento com aqueles que eram chamados pelo general Augusto Heleno de ladrões, a maré vira.

Esse ponto ideológico é bastante curioso. Será preciso muito malabarismo dos robôs bolsonaristas nas redes para convencer algum apoiador do presidente de que os políticos que ele demonizava como plataforma de campanha agora são seus melhores amigos.

“Dificuldades do Presidente Jair Bolsonaro não vão desaparecer”, diz Igor Gielow

As dificuldades de Bolsonaro não vão desaparecer. A gestão da pandemia segue sendo seu ponto mais frágil, ainda que a eventual ampliação do programa de vacinação contra a Covid-19 possa acabar revertendo positivamente para o Planalto.

Já o fim do auxílio emergencial em meio à segunda onda do vírus segue sendo uma questão inconclusa, drenando apoio a Bolsonaro.

Tal cenário brumoso não reduz um efeito secundário importante da disputa. A derrota de Maia e a implosão de seu DEM são ótima notícia para Bolsonaro, por tirar musculatura neste momento das articulações em torno da candidatura do governador João Doria (PSDB-SP) ao Planalto.

Há ainda a previsível crise de identidade do PSDB, que namorou abertamente a ideia de ir com Lira. A rapidez de Doria em manter alguma ordem unida será central para suas pretensões, já que o DEM agora deverá rachar e se tornar meio centrão, meio tucano.

Essa fissura visa, nas contas do Planalto, manter a impressão de que o Brasil em 2022 estará dividido entre ele e o candidato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). É um projeto monotemático, e arriscado dado o cenário bem mais complexo colocado para o eleitorado.

Neste ponto, fica a ironia sobre as defecções no PT e outros partidos de esquerda em favor de Lira, que sinalizou a eles ajudar nos exéquias da Operação Lava Jato, objeto de horror do Congresso.

_____________________

*Igor Gielow é colunista da Folha de S. Paulo, onde já foi repórter, correspondente, editor, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasília.

Tags: Arthur LiraCentrãoPP
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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