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A Cinderela que virou ícone do Carnaval pernambucano

Por Ricardo Antunes
24/02/2023 - 13:55
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Por Mateus Araújo, do TAB — Daqui a uns meses, quando os brasileiros começarem novamente a contar os dias para o Carnaval, é bem provável que se veja circular pela internet um vídeo de Engraçadinha Araújo.

As cenas têm, pelo menos, uma década, mas cativam qualquer folião ansioso pela festa: uma apresentadora de telejornal, ao finalizar o noticiário, se despede do público dançando frevo. Ela mostra, didaticamente, os passos do ritmo mais famoso de Pernambuco, que aumenta de cadência e muda de gestos de acordo com os tipos de agremiações e onde elas desfilam: os de bloco são mais lentos; os de rua, mais acelerados.

Jeison Wallace se preparando para interpretar Cinderela.

O “show” de Engraçadinha é uma esquete. E ela é, na verdade, uma personagem humorística famosa entre os pernambucanos por parodiar a jornalista e apresentadora local Graça Araújo, morta em 2018 em decorrência de um acidente vascular cerebral.

Por trás da interpretação, entretanto, está um dos mais conhecidos atores recifenses, que há três décadas se transformou em um símbolo do Carnaval (bem antes de Engraçadinha viralizar): o ator e humorista Jeison Wallace, 60, é mesmo conhecido na sua terra natal como Cinderela, a empregada doméstica que saiu do teatro para virar estrela na televisão, ganhou seu próprio programa, “O Papeiro da Cinderela”, mantendo-se vice-líder de audiência desde então.

Cinéfilo ou não todo recifense reconhece esse momento pic.twitter.com/unah40dIZv

— Hipster Recifense (@hipsterrecifens) January 16, 2023

Do palco para a TV

Cinderela deu fama e carreira a Jeison nos anos 1990. A personagem, que vive na periferia, sabe de todos os bordões das favelas, das músicas e das dificuldades que os moradores dali conhecem bem. Faz piada da própria vida e da dos outros. Transformou-se, ao longo dos anos, numa figura reconhecida e carismática dos recifenses — sobretudo da população de classe B e C, seu público fiel nas tardes de segunda a sexta-feira.

Recifense, criado no bairro de Afogados, Jeison é um dos dez filhos de uma família pobre da periferia da cidade. Sua paixão pelo teatro começou cedo, quando, ainda criança, sonhava em cantar e atuar. Aos 16 anos, trabalhando como office boy de uma corretora, viu no jornal o anúncio de um curso para iniciação teatral. “Fui lá e me inscrevi. Você não aprendia nada, só o básico. Mas dali fui chamado pra fazer peças, conhecer gente, e assim comecei.”

Das aulas de teatro, Jeison passou a integrar elencos de espetáculos infantis, e, à noite, se apresentava em boates gays, palco garantido para as transformistas da cidade, uma característica da noite LGBTQIA+ cujo auge foi no período entre o fim da ditadura militar e a reabertura política do país. “Muita gente dublava. Tinha quem imitasse Maria Bethânia, quem imitasse Gal Costa. Eu preferia fazer número com texto.” Em 1990, ele estreou “A Bicha Borralheira”, esquete escrita pelo também ator Henrique Celibi, que fazia paródia com a trama de Cinderela.

“Aquilo começou a fazer muito sucesso. As pessoas iam para beber e usar outras coisas, mas paravam para assistir à apresentação”, brinca o ator. “Dali decidimos montar a peça em um teatro, e fomos procurar o Valdemar de Oliveira, no centro. Disseram que o teatro só estava disponível à meia-noite das sextas-feiras. Achamos a proposta interessante e começamos a temporada.”

“Cinderela – A História que sua Mãe não Contou”, como foi batizada a montagem, caiu no gosto popular. Nela, o clássico conto de fadas passou a ser ambientado na favela recifense, com personagens gays e travestis. O humor escrachado e o vocabulário popular chamaram a atenção do público.

O ator Jeison Wallace, 60 anos.

‘Oxe, mainha’

Cindy, como também é chamada a personagem, lançou o bordão “Oxe, Mainha” — uma reclamação, chateada. Jeison também já gravou CDs de frevo (com letras autorais, cheias de trocadilhos) e participou de filmes como “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis”, e “Lucicreide vai à Marte”, de Fabiana Karla. No início do ano, gravou a segunda temporada da série “Lama dos Dias”, de Hilton Lacerda, sobre a época do movimento manguebeat. “Eu interpreto o dono de uma boate gay que fazia apresentações de transformista”, diz.

A fama deixou a agenda de Jeison lotada. “De manhã tem gravação, à tarde tem ao vivo. Hoje estou só com o café da manhã”, contava ele, às 17h de uma quinta-feira antes do Carnaval. Por onde passa, a personagem é interrompida por fãs, que querem fazer alguma gracinha — e quase sempre uma resposta “afiada“, com duplo sentido.

Naqueles dias, Jeison se preparava para mais uma maratona de cobertura: no Galo da Madrugada e nas ladeiras de Olinda, ele circulava fazendo brincadeiras e piadas, ao vivo, na TV Jornal. Uma festa especial, frisava, que comemorou a volta da folia às ruas do Brasil e uma homenagem que ele recebeu como tema da transmissão oficial do canal onde trabalha. “Isso me emociona muito”, dizia o ator, antes de retomar para mais uma dia de gravação.

Veja também

https://ricardoantunes.com.br/tentativa-de-chacina-deixa-2-mortos-e-um-adolescente-ferido-em-cachoeirinha-pe/

 

Tags: Carnaval
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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