Por Paula Cordeiro – Agricultores de Floresta, no Sertão de Pernambuco, enfrentam o risco de perder plantações, criações de animais e atividades de pesca devido à redução do volume da Barragem Barra do Juá, reservatório utilizado para abastecer comunidades e produtores da região. Segundo os agricultores, o reservatório, que tem capacidade para 71 milhões de metros cúbicos, está atualmente com pouco mais de 5 milhões de m³ e já atingiu o chamado volume morto.
A situação afeta principalmente produtores que dependem das liberações periódicas de água para o Riacho do Navio, que percorre cerca de 70 quilômetros pelo município. De acordo com o agricultor Magno, morador da região, a última liberação ocorreu em julho e, neste momento, não há condições de manter o fluxo de água como vinha sendo feito.
“Já soltavam só uma vez por mês. Quando chegava ao final do percurso, eles fechavam, e cada um ligava suas bombas para abastecer suas atividades. Todo mês, esperavam a liberação. E agora, no mês de julho, foi a última”, relatou.
Cada liberação para o Riacho do Navio utiliza, segundo os agricultores, cerca de 2 milhões de metros cúbicos de água. Com o baixo nível do Juá, a água já não alcançaria adequadamente a estrutura responsável pela liberação.
A preocupação também envolve a Barragem do Muquém, construída no contexto das obras da transposição do Rio São Francisco. Segundo os agricultores, o reservatório passou a receber a água de riachos que anteriormente contribuíam para o abastecimento da Barra do Juá. A expectativa era de que, por meio de liberações, a água também chegasse ao Riacho do Navio e garantisse a continuidade das atividades produtivas na região.

A imagem acima mostra a Barragem do Muquém com a comporta aberta. Os agricultores, no entanto, afirmam que a vazão liberada é insuficiente para atender à demanda. Entre o Muquém e a Barra do Juá, há cerca de 11 quilômetros de percurso, trecho em que, segundo eles, parte da água acaba se perdendo, principalmente devido às altas temperaturas e à evaporação.
Agricultura em risco
O problema atinge produtores de melão, tomate, melancia, abóbora e cebola, além de criadores de animais. Segundo Magno, mais de 150 agricultores utilizam a água do Riacho do Navio em suas atividades.
Um dos casos envolve uma plantação de tomate de aproximadamente 20 hectares. O agricultor responsável cultiva 13 hectares e arrenda outros sete. O investimento estimado para a produção varia entre R$ 40 mil e R$ 50 mil por hectare, o que coloca o custo total da plantação entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão.

Vídeos enviados pelos agricultores mostram a plantação e servem como exemplo da dimensão do prejuízo que pode ocorrer caso o fornecimento de água seja interrompido. “É só uma amostra de como está a situação de um dos agricultores”, afirmou Magno. Segundo ele, além dos grandes produtores, também há famílias que dependem de pequenas plantações para a agricultura familiar.
Peixes mortos
A redução do volume de água também preocupa quem vive da pesca na região da Barragem Barra do Juá. De acordo com os agricultores, peixes estão morrendo no reservatório em razão das condições atuais.

Vídeos registrados na região mostram peixes mortos às margens da barragem. Segundo Magno, cerca de 800 pessoas que vivem no entorno do reservatório dependem de atividades relacionadas à pesca e à agricultura. “Tem que atender a esses públicos: o pessoal da pesca, o pessoal que planta, o pessoal que cria”, defendeu.
Água da transposição
Os agricultores também questionam o fato de a água retirada da região de Floresta seguir pelo projeto de transposição do Rio São Francisco em direção à Paraíba, enquanto produtores locais enfrentam dificuldades para utilizar a água que passa pelo município.
Magno afirma que não é contrário ao abastecimento de outras regiões, mas defende que a população que vive próxima aos reservatórios também seja beneficiada. “Enquanto a transposição leva a água para a Paraíba, enquanto lá eles podem plantar, (…) a gente queria que o município também se favorecesse da própria água que sai daqui”, disse.
Os agricultores reivindicam que o governo federal, a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional discutam uma alternativa para aumentar a vazão liberada, de forma a atender tanto as comunidades que dependem da pesca quanto os produtores rurais.
A situação, segundo os agricultores, exige uma solução antes que o baixo nível do Juá provoque perdas ainda maiores nas plantações, na criação de animais e na atividade pesqueira da região.
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