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“Bolsonaro disse ter feito sua parte, mas teve alerta e não evitou crise no AM”, por Amanda Rossi

Por Ricardo Antunes
16/01/2021 - 11:06
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Por Amanda Rossi, do UOL — O Ministério da Saúde do governo de Jair Bolsonaro teve uma semana para agir e evitar o colapso no fornecimento de oxigênio em Manaus, mas tomou medidas de pouco alcance frente ao tamanho da crise.

 

A pasta foi comunicada sobre a situação em 7 de janeiro, no mesmo dia que a Secretaria de Saúde do Amazonas. Uma semana depois, em 14 de janeiro, o oxigênio começou a faltar.

Hoje, o déficit de Manaus chega a 46,5 mil metros cúbicos de oxigênio por dia —ou 4.650 cilindros. Para lidar com essa escassez, o governo federal enviou “nesta semana 5 mil metros cúbicos de oxigênio líquido para auxiliar no combate à covid-19 na região”, informou o Ministério da Saúde. Pode soar muito, mas isso equivale a somente 11% do oxigênio extra que Manaus precisa em um único dia.

“Ministério tem capacidade de atender qualquer demanda que falhe,” disse Pazuello dias antes de colapso.

Quatro dias depois de o Ministério da Saúde ser alertado sobre o problema do oxigênio, o ministro Eduardo Pazuello visitou Manaus e discursou: “É importante que ninguém tenha dúvida de como é o planejamento e quais são as alternativas que nós temos. Sim, o ministério tem e terá capacidade de atender qualquer demanda que falhe em nível menor, município ou estado, ministério está preparado para isso”.

Pazuello, no entanto, não estava se referindo ao oxigênio, mas às seringas usadas na vacinação. Durante a visita, não foi anunciado nenhum plano de suplementação de oxigênio capaz de suprir toda a demanda extra de Manaus. Em vez disso, o Ministério da Saúde fez pressão pelo chamado “tratamento precoce”, composto por medicamentos que não têm comprovação científica.

Já Bolsonaro procurou isentar o governo federal em discurso na sexta-feira (15): “A gente está sempre fazendo o que tem que fazer, né? Problema em Manaus: terrível o problema lá, agora nós fizemos a nossa parte, com recursos, meios”.

“Fizemos nossa parte”, disse presidente Jair Bolsonaro no auge da crise.

Governo falhou?

“A situação em Manaus mostra como temos conduzido as coisas sem nenhuma estratégia, sem olhar para os números. É fundamental haver uma coordenação central pelo Ministério da Saúde”, diz Ederlon Rezende, do conselho consultivo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib).

“A partir do momento que o governo federal é alertado de uma situação como essa, ele é obrigado a agir. Está na Lei Orgânica da Saúde. Nos casos emergenciais, o governo federal tem que complementar, suplementar ou mesmo assumir a frente da situação. Não é o que aconteceu”, comenta Arthur Chioro, professor de medicina na Universidade Federal de São Paulo, ministro da Saúde de 2014 a 2015.

“Eu nunca antes ouvi falar de falta de oxigênio em hospital. É algo tão essencial e básico como eletricidade”, compara o pneumologista Fred Fernandes, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Por isso, um alerta sobre uma possível falta de oxigênio deveria ter acionado uma operação de guerra imediata, para evitar um colapso como o que ocorreu em Manaus. “A falta do oxigênio leva à morte muitas pessoas que poderiam sobreviver. Em outras, causa dano celular agudo”, diz Fernandes.

Órgão ligado ao Ministério da Economia elevou imposto sobre cilindros de oxigênio semanas antes de colapso em Manaus.

Ações do governo federal

A empresa White Martins, principal fornecedora de oxigênio hospitalar do Brasil, tem uma unidade de produção em Manaus. Na primeira onda da pandemia, a oferta local deu conta do consumo. Mas, em 2021, a situação saiu do controle. Por isso, em 7 de janeiro, a empresa comunicou a Secretaria de Saúde do Amazonas sobre a baixa de estoque. A pasta, por sua vez, notificou o Ministério da Saúde no mesmo dia, segundo informou ao UOL.

O crescimento da demanda de oxigênio no Amazonas explodiu em poucos dias. No segundo semestre de 2020, era de cerca de 15 metros cúbicos por dia. Já nos últimos dias de 2020, igualou a capacidade máxima de produção da White Martins no Estado —30 mil metros cúbicos. Até 8 de janeiro, dobrou. E, atualmente, está em 76,5 mil metros cúbicos diários, “com indicação de demanda crescente”, diz o governo estadual.

O oxigênio fornecido pelo governo federal para o Amazonas até o momento não é suficiente para suprir a demanda extra de um dia sequer. O auxílio está muito mais no âmbito das Forças Armadas do que do Ministério da Saúde.

A primeira medida de reforço com participação federal foi o envio de 350 cilindros de oxigênio em aviões das Forças Aéreas Brasileira (FAB), entre 8 e 10 de janeiro.

Avião militar C-130, da FAB, com cilindros de oxigênio para tratamento de pacientes de covid-19 em Manaus | Foto: Divulgação.

“A solicitação foi feita pelo governador [de Amazonas] Wilson Lima para o Exército, que prontamente entendeu a necessidade e urgência e pediu a colaboração da FAB para realizar o transporte da carga da empresa White Martins que se encontra em Belém do Pará”, disse o coronel Francisco Máximo, do Subcomando de Ações da Defesa Civil, em comunicado do governo de Amazonas.

Já em 11 de janeiro, o governo do Amazonas comunicou que recebeu 373 bombas de infusão do Ministério da Saúde. “Para a gente, é de grande valia, porque cada paciente precisa de, pelo menos, cinco equipamentos como esse”, disse a diretora do Hospital Nilton Lin, Alessandra Santos, em comunicado do governo estadual. Dessa forma, a doação do Ministério da Saúde pode atender cerca de 70 pacientes. Há cerca de 2.700 pacientes internados com suspeita ou confirmação de covid-19 no Amazonas.

No dia 12 de janeiro, o governo do Estado informou que recebeu mais 200 cilindros em avião da FAB. E acrescentou que buscava a aquisição de dez miniusinas de oxigênio, em conjunto com o governo federal. Os equipamentos poderiam dar mais autonomia para os hospitais. A ação foi assumida pelo Ministério da Saúde, mas até agora não foi concluída.

O policial Rodrigo Pinto, 29, sobre pilha de cilindros que ele e seu grupo de amigos pretende reabastecer e doar para unidade pública de saúde em Manaus – Dhiego Maia

Alternativas

A distância de Manaus de outras cidades do país, apontada por políticos como um fator de dificuldade logística, não é considerada por especialistas como um problema incontornável. Afinal, houve uma semana para enfrentar a situação. Além disso, Manaus é sede de uma Zona Franca e tem diversas conexões com o restante do país.

Sem contar que o envio de oxigênio de outros estados não era a única alternativa. “Várias opções poderiam ter sido implementadas uma semana atrás, quando a empresa sinalizou que não estava dando conta. Existem muitas formas de oferecer oxigênio”, explica o pneumologista Fred Fernandes.

“Além do oxigênio hospitalar, em uma situação de catástrofe como essa, poderia ser requisitado o oxigênio usado nas indústrias”, exemplifica Fernandes. Essa medida só foi tomada na última quinta-feira, dia em que o insumo faltou nos hospitais de Manaus. Tiveram que atender ao pedido empresas como LG, Electrolux, Samsung e Caloi.

Outra medida apontada por Fernandes é o uso de concentradores de oxigênio em casos leves ou moderados de covid-19. A Secretaria de Saúde do Amazonas e o Ministério da Saúde não anunciaram medidas envolvendo esse equipamento.

O oxigênio é algo tão elementar que, sem ele, nem os respiradores —que o país correu para conseguir ter em maiores quantidades na primeira fase da pandemia— podem funcionar. “Não adianta ter respirador se não tiver oxigênio”, diz Fernandes. Essa é a situação de Manaus.

Tags: AmazonasCoronavírusCovid-19Eduardo Pazuello
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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