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Home Política

Bolsonaro vai pagar preço alto se mexer com Moro

Na avaliação do general, tirar poder do ex-juiz federal seria "erro" do presidente

Por Ricardo Antunes
02/02/2020 - 14:48
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Bolsonaro vai pagar preço alto se mexer com Moro

O general Santos Cruz, em entrevista para o UOL, falou sobre a tentativa de esvaziamento do ministério de Sergio Moro:

“Moro é um ícone. Liderou uma virada contra a corrupção histórica no Brasil. Faz parte da história do Brasil. A Lava Jato, com Moro à frente, se tornou uma coisa que vai ficar para sempre. Separar o ministério aqui ou ali é uma decisão política que pode ter um prejuízo político ou não.

Fritura política está muito associada a covardia. O presidente pode estar querendo fazer isso. Vai pagar preço político. A gente vê aí as reações na mídia e na sociedade. São decisões que, se ele quiser tomar, ele toma e arca com o resultado.”
Ele disse também:

“O ministro Moro veio ao governo com uma expectativa da sociedade. A sociedade o via como líder de um movimento contra a corrupção, não só de uma operação. Ele assumiu o Ministério da Justiça e da Segurança Pública. Outra coisa é que ele é uma pessoa com prestígio fantástico na sociedade. Qualquer modificação nas atribuições vai ter um custo político muito, muito alto. É uma pessoa que inspira seriedade, firmeza. Politicamente, você tem que pensar muito bem, para mexer nisso, você tem que pensar muito bem.”

General Santos Cruz

General Santos Cruz em entrevista para o UOL

Leia também: Bolsonaro fez reunião sem Moro para discutir criação do Mistério da Segurança Pública

Leia a entrevista completa para o UOL

UOL/Folha – O senhor considera ter passado por um processo de fritura antes de ser demitido?
Carlos Alberto Santos Cruz – Fico até constrangido de falar de fritura política. Acho isso um negócio de gente desqualificada na política. Fritura é coisa da escória da política. O político que se comporta fritando outros, o funcionário público, seja ele de qualquer nível, é gente desqualificada.

Mas o senhor considera que sofreu esse processo?
Para mim, nunca me afetou pessoalmente, emocionalmente. Não dou bola para isso. É um processo em que participam pessoas que não têm qualidade nenhuma, moral, profissional.

Para você demitir o ministro, por exemplo, ou qualquer pessoa em função de confiança, é só você conversar com a pessoa. Não é preciso esse processo. Para compensar a covardia de não querer falar com a pessoa, se cria mil situações para constranger a pessoa. Para mim, não cola.

Num episódio recente, Bolsonaro publicamente sugeriu o enfraquecimento de Sergio Moro. Ele estava realizando uma fritura com ministro?
Não. Posso até considerar que ele está fazendo um erro político.

Não estava querendo constrangê-lo com o enfraquecimento das suas atribuições?
Depende do interesse político do presidente, do aconselhamento técnico. O que eu estou falando é esse negócio de fritura de que vocês mencionaram. Isso é uma coisa descabida em termos de administração.

Moro é um ícone. Liderou uma virada contra a corrupção histórica no Brasil. Faz parte da história do Brasil. A Lava Jato, com Moro à frente, se tornou uma coisa que vai ficar para sempre.

Separar o ministério aqui ou ali é uma decisão política que pode ter um prejuízo político ou não. Fritura política está muito associada a covardia.

O presidente pode estar querendo fazer isso. Vai pagar preço político. A gente vê aí as reações na mídia e na sociedade.

São decisões que, se ele quiser tomar, ele toma e arca com o resultado.

Outras matérias relacionadas: Moro tira miliciano ligado a Flávio Bolsonaro de lista de mais procurados

O presidente Jair Bolsonaro e ministro Sergio Moro | por Adriano Machdo/Reuters

O que que aconteceu com Moro, já que o senhor diz que não foi uma fritura?
O ministro Moro veio ao governo com uma expectativa da sociedade. A sociedade o via como líder de um movimento contra a corrupção, não só de uma operação. Ele assumiu o Ministério da Justiça e da Segurança Pública.

Outra coisa é que ele é uma pessoa com prestígio fantástico na sociedade. Qualquer modificação nas atribuições vai ter um custo político muito, muito alto. É uma pessoa que inspira seriedade, firmeza. Politicamente, você tem que pensar muito bem, para mexer nisso, você tem que pensar muito bem.

O senhor se arrepende de ter votado em Bolsonaro?
Não, não me arrependo. Naquele momento, eu não tinha dúvidas de que ele [Bolsonaro] era a melhor opção. E eu, como mais 57 milhões de brasileiros, no meu meio ambiente procurei influir para que ele fosse eleito. Depois aceitei o convite para ser ministro. Não foi por dinheiro, não foi por status de ministro, não foi por nada. Até porque eu tinha outras atividades. Fui lá por um projeto que eu acreditava.

Lá atrás, não tem nada de arrependimento. Daqui para frente, é diferente.

Votaria nele de novo para a reeleição?
Tem que ver qual vai ser o quadro da próxima eleição.

Qual a avaliação que o senhor faz do governo?
Hoje eu torço para que dê certo. Qualquer governo faz coisa boa, coisa ruim, tem coisa que dá certo e coisa que dá errado. Eu vejo o governo como absolutamente normal em termos de resultados. Não é nada espetacular.

Teve um crescimento de PIB, uma redução pequena de desemprego. Os resultados não são fantásticos, são absolutamente normais. A gente vê que tem uma expectativa positiva para a frente, isso é bom em termos emocionais. Vai ter que esperar essa coisa se concretizar ou não.

Politicamente não é bom o ambiente. Um governo tem que promover um ambiente de trabalho onde as pessoas possam esperar com tranquilidade o desenvolvimento da sociedade. Por exemplo, algumas privatizações vão ter resultado daqui um ano, um ano e meio.

Nesse tempo a sociedade tem que esperar num ambiente de paz, não num ambiente de tumulto, no qual todo dia há uma intoxicação enorme de fake news e grupos ideológicos espalhando conflitos. Não se pode viver num estado permanentemente pré-eleitoral.

É isso que nós estamos vivendo?
É, parece que você vai ter eleição na semana que vem. A eleição já foi lá atrás, há um ano e pouco. A própria a população gosta de votar de quatro em quatro anos, não gosta de voltar toda semana. Tem que transmitir tranquilidade para que as pessoas possam esperar aquele tempo de reação, principalmente na parte da economia.

Eu não vejo o militar como solul~çao para tudo
Eu não vejo o militar como solução para tudo | Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

O presidente sempre foi muito combativo e agressivo nas falas dele. O senhor não previa, por exemplo, que esse perfil dificultaria um ambiente de conciliação?
A véspera eleitoral é aquecida mesmo, muito disputada. É uma briga de rua que foi para dentro da internet. O presidente Bolsonaro foi eleito por um pequeno grupo altamente ideológico, que faz um escândalo muito grande, e uma grande massa, que foi movida pelo sentimento anti-PT, contra a corrupção que aconteceu ao longo de muitos anos. Só que após a eleição, todos querem resultados de governo.

O grupo ideológico, que é muito pequeno, continuou com uma influência muito grande. E esse pequeno grupo interno não traz paz ao ao sistema

Esse grupo pode estar até apostando em levar esse conflito até a próxima eleição. E pode ser que não seja a mesma disputa. Quem mantém o perdedor na primeira página da mídia? O PT ou o vencedor?

Quem?
É uma insensatez. A oposição perdeu na figura do PT. Tem que esperar, tem que se reorganizar, tem que mudar o discurso. Eles têm que dar um jeito, se eles quiserem continuar competindo, certo? Mas quem mantém a chama acesa daquele grupo?

O senhor acha que é o presidente Bolsonaro?
Eu acho que é um grupo. Não é só ele. Eu acho que é um grupo exacerbado, ideológico, que mantém o perdedor na mídia. Na realidade, o perdedor está se beneficiando de toda essa de toda essa insensatez.

Quem perdeu perdeu, que vá cuidar da sua vida. Você ganhou? Vá governar. E, depois de dois anos de realizações, se quiser se candidatar de novo, tem várias realizações para apresentar para a reeleição. É isso que eu estou dizendo. É esquecer quem perdeu, governar com tranquilidade, conseguir conseguir resultados e, depois, usar como trunfo os seus resultados, e não a briga ideológica.

Qual é o papel de Olavo de Carvalho nesse grupo ideológico?
Esse cidadão que não mora no Brasil é um fenômeno de influência em algumas pessoas. Não vou chamar de guru.

Ele [Olavo de Carvalho] tem uma influência sobre um grupo específico. E esse grupo se comporta como uma seita

Quem não é da minha seita é meu inimigo. É um raciocínio simplista, binário. O país não pode viver assim.

Os militares foram chamados para resolver queimadas na Amazônia e agora, para resolver filas do INSS. Eles podem atuar nisso?
As Forças Armadas participam em catástrofes no mundo inteiro. Queimadas, grandes incêndios, enchentes, furacões. A participação dos militares na Amazônia está absolutamente dentro da normalidade. O caso do INSS é um caso administrativo que não tem nada a ver com catástrofe.

Dentro do INSS há pessoas que podem resolver a questão. Tem equipe técnica. Eles têm solução para isso

É possível convocar ex-funcionários do INSS, terceirizar, fazer concurso, uma série de coisas. Basicamente, tem que ouvir o INSS. Tem que valorizar o INSS. Chamar militar? Vai ter que treinar os militares. Eles não são treinados para isso. Eu não vejo o militar como solução para tudo.

Quem ganha e quem perde no alinhamento do Brasil com os EUA?
Sempre quem perde é quem que se alinha automaticamente, em qualquer situação. A política americana é baseada nos interesses dos EUA, com razão. Ser alinhado automaticamente não significa que você vai ter peso na condução da política americana. O envolvimento deles tem outra dimensão. Em qualquer alinhamento automático perde é quem se alinha automaticamente.

O presidente disse que os índios têm que “evoluir”. Ele está certo?
Não. Eu acho que nós temos que evoluir na política pública em relação às comunidades indígenas, que precisam ser transformadas em cooperativas produtivas. Elas têm como fazer isso. Eu tive duas oportunidades de ter conversa com comunidades indígenas em Altamira (PA) e lá no alto do Alto Rio Negro. Eles sabem o que querem. Os índios não são ignorantes. Têm índios hoje formados na faculdade em várias especialidades.

O senhor citou o Pará. Na comunidade Apyterewa, em 2017, havia 400 invasores. O governo autorizou fazer a retirada dos invasores. O senhor foi contra, alegando que era época de chuvas. Agora há cerca de 1.500 invasores.
Aquilo ali é caso específico. Quando se faz essa avaliação [de invasão], tem que mover o processo contra aquele que invadiu. Não é só retirar os invasores. Muitos deles se tornaram invasores depois que foi feita a ampliação. Vai tirar de lá e colocar onde? Você tem que fazer outros assentamentos para esse pessoal que saia.

Bolsonaro vai pagar preço alto se mexer com Moro

Fonte: O Antagonista
Tags: Lava JatoSergio Moro
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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