De O Globo – Ao fazer um balanço do carnaval soteropolitano na quarta-feira, o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União), classificou a festa como a “melhor de todos os tempos”. Se a fala é reforçada pelo gigantismo dos números, com 12 milhões de visitantes pelas ruas da capital baiana, a folia, porém, também ficou marcada por uma série de polêmicas. Os últimos dias registraram bate-boca público entre artistas, com direito a alfinetadas de cima dos trios elétricos, e críticas ao que é classificado como uma elitização de um dos mais famosos — e populares — carnavais do país. Até a ordem das apresentações nos tradicionais circuitos da cidade foi parar na Justiça.
Sob justificativa ao estilo “antiguidade é posto”, os organizadores do bloco comandado por Daniela Mercury acionaram os tribunais para que o cortejo da cantora, o Bloco Crocodilo, abrisse os trabalhos no circuito Barra-Ondina (Dodô), que percorre a orla de Salvador. Na quinta-feira anterior à festa, a Justiça reconheceu a preferência da artista na ordem de saída.
“Narra a impetrante que o Bloco Crocodilo possui histórico consolidado de desfiles no Circuito Barra-Ondina desde o ano de 1996, quando teria inaugurado oficialmente o referido circuito de forma contínua e ininterrupta, distinguindo-se de desfiles esporádicos ou experimentais realizados por outras entidades nos anos de 1994 e 1995”, frisou o juiz Murillo David Brito ao conceder a liminar.
Dois dias depois, contudo, o desembargador Rolemberg Costa derrubou a decisão anterior. O magistrado ponderou que não havia comprovação de direito automático à posição inicial e que uma mudança às vésperas do evento poderia causar impactos logísticos relevantes.
Em entrevista, Daniela criticou a gestão municipal pela ordem dos desfiles. Malu Verçosa, empresária e mulher da artista, frisou que o bloco é “cada vez empurrado para mais tarde”, sem que haja critérios claros, o que poderia indicar interesses midiáticos e de retorno financeiro envolvidos.
— A gente foi avisando (à prefeitura) que não estava bom, que não era o que a gente queria, que não era respeitoso, não era justo. Mas os ouvidos de mercador continuaram — disse Daniela. — Temos uma história linda, muito clara, toda noticiada, documentada. A única que ficou de lá até aqui desfilando, 30 anos, apesar de tudo, fui eu. Então, por que a turma está antes de mim?
Na mesma linha, o cantor e instrumentista Armandinho Macêdo, outro pioneiro da festa, afirmou, na segunda de carnaval, que alguns empresários se consideram os “donos da fila” e “alugam” as vagas a quem “tem mais dinheiro”.
— Essa fila precisa ser remanejada, precisa ser reestruturada, porque tem entidades do carnaval que têm mais direitos a esse espaço — cobrou.
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Abadás e ‘pipocas’
No carnaval de Salvador, a maior parte dos principais blocos oferece espaços pagos, separados por cordas e mais próximos ao trio, no qual os participantes usam abadás personalizados. Enquanto isso, quem acompanha o cortejo fora do espaço delimitado, de graça, é chamado de “pipoca” — alguns artistas, como a própria Daniela Mercury, são famosos por arrastar multidões desse tipo de folião.
O circuito Barra-Ondina, que motivou o pedido da cantora à Justiça, é considerado o mais turístico, enquanto o de Campo Grande tem um apelo mais tradicional e popular. Já o Pelourinho reúne, majoritariamente, manifestações culturais e blocos afro (veja mais no mapa ao lado).
Outro ícone da folia soteropolitana, o cantor Bell Marques, à frente do bloco Camaleão, reclamou da dificuldade em seguir com o trio no Barra-Ondina, que enfrentou retenções no domingo. A causa foi uma falha nos pneus do veículo anterior, que levava o Olodum. Aos presentes, o ex-vocalista do Chiclete com Banana expôs que o problema é recorrente e chiou abertamente.
— A parada nossa aqui é porque tem algum problema aí na frente com o caminhão do Olodum. Todos os anos temos o mesmo problema. Eu não vou seguir o caminho deles, porque senão eu não consigo fazer nada com o Camaleão. Eles têm um tipo de ritmo, uma forma de tocar que eu não posso seguir — afirmou.
Durante o desfile, Bell questionou ainda a falta de espaço para o público, dessa vez em consonância com o Olodum, que fez a mesma queixa. Segundo o grupo, além da questão envolvendo os pneus, a paralisação ocorreu também a pedido da Polícia Militar, com o objetivo de preservar a segurança diante da grande concentração de pessoas.
Bell passou de crítico a “alvo” no dia seguinte, desta vez em embate com o Afoxé Filhos de Gandhy. O grupo musical alegou ter feito um acordo com o artista para que seu bloco saísse às 16h, o que não teria sido cumprido. O Filhos de Gandhy cobrou “respeito” e pediu para “não darem carteirada”, enquanto Bell argumentou que seu trio é “um dos que menos atrasa no carnaval”.
— Aqui deixo meu respeito a ele (Bell), que é um cara que chegou e imprimiu uma personalidade ao carnaval. Então, se ele vier chegando e precisar dar vasão, eu levo o trio para a frente e a gente para — avisou Ivete Sangalo, que também passou pelo Barra-Ondina, a quem seguia seu bloco Coruja.
Antes disso, quem se manifestou foi Anitta. De cima do trio, ela ouviu foliões reclamarem que o bloco parou em um ponto já muito aglomerado. “Estou tentando andar, gente, mas tem outro trio aqui na frente. Não consigo criar asa, não”, respondeu a artista. Mais tarde, nas redes sociais, ela reconheceu que “chegou ontem” ao carnaval baiano, mas sugeriu um tempo mais espaçado entre as apresentações.
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Busca de equilíbrio
À TV Bahia, afiliada da Rede Globo no estado, o prefeito Bruno Reis admitiu que é preciso “buscar equilíbrio” nos trajetos da festa. Até na quarta-feira, nas contas da gestão municipal, 684 trios elétricos passaram por Salvador, totalizando quase 1.600 horas de apresentações. Só no domingo, o dia mais cheio da festa, cerca de 2 milhões de pessoas passaram pelos circuitos Barra-Ondina, Campo Grande e Pelourinho.
— Antes de se pensar um novo circuito, porque demanda mais serviços, mais investimentos públicos e contratação de mais atrações, é preciso buscar esse equilíbrio — ponderou Reis, que minimizou os contratempos em coletiva de imprensa. — Tem coisas que a gente não controla. No bloco do Bell, teve que ser trocado o “cavalinho” do trio. Isso independente de investimento e de antecipar os problemas, são situações normais em um evento desta magnitude.
Procurada pelo GLOBO, a prefeitura não enviou esclarecimentos adicionais sobre as queixas dos artistas. Em comunicados divulgados em seu site, a gestão de Bruno Reis defende que “diagnosticou e atacou problemas antigos” do carnaval neste ano, além de ter fortalecido o circuito Campo Grande, no centro da capital. A medida, segundo a administração, diminuiu a sobrecarga do Barra-Ondina, e o número de pessoas que curtiram a festa em cada bloco foi “muito próximo e equilibrado”.












