EXCLUSIVO, Por Ricardo Antunes – Pároco da Igreja das Fronteiras, no Centro do Recife, há 13 anos, o padre Fábio Potiguar encerrou sua missão no local. O episódio foi divulgado em primeira mão por este Portal, que teve acesso à carta de despedida.
Padre Fábio encaminhou o pedido de renúncia ao arcebispo de Olinda e Recife, Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa. A saída teria sido motivada após diversas pressões exercidas pela diretoria do Instituto Dom Helder Câmara (IDHeC), que negou a atitude ao Portal. Mas o pároco, discípulo do arcebispo emérito Dom Helder Câmara, disse ter adoecido em função de tais “constrangimentos”.
Confira abaixo a carta de despedida de Fábio Potiguar, após mais de uma década à frente da Igreja das Fronteiras, local onde Dom Helder residiu de 1968 até sua morte, em 1999. O padre, no entanto, permanecerá atuando na Igreja das Graças, também no Recife.
“PADRE FABIO POTIGUAR ENCERRA MISSÃO NA IGREJA DAS FRONTEIRAS E INICIA NOVO TEMPO
Após anos de presença pastoral, Padre Fabio Potiguar encerra sua missão como capelão da Igreja das Fronteiras, no Recife. Sua passagem por esse chão marcado por Dom Helder Camara não se limitou à celebração de missas. Ali, procurou viver também a dimensão profética do Evangelho: anunciar, consolar, denunciar injustiças, defender a dignidade humana e manter viva a inquietação de uma Igreja próxima dos pobres.
Padre Fabio foi ali um padre profeta — algo cada vez mais raro. Num tempo em que muitas vezes se espera do sacerdote apenas a administração do sagrado e a repetição tranquila dos ritos, sua presença procurou recordar que o altar e a vida não podem ser separados. A Eucaristia celebrada precisa continuar no pobre, no injustiçado, no ferido, no excluído e em todos aqueles cuja voz quase nunca é escutada.
Suas homilias se tornaram uma marca desse ministério. O Evangelho dialogava com a poesia, a literatura e a música. Versos de poetas, trechos de canções e referências à música popular e erudita apareciam não como ornamento, mas como pontes entre a Palavra de Deus e a vida concreta. Era uma pregação que procurava fazer conversar a Bíblia com a beleza, a cultura, a dor, o amor, a esperança e as grandes perguntas humanas.
A homilia, assim, deixava de ser apenas uma explicação de textos religiosos e se transformava em encontro: Evangelho, poesia, música e existência humana sentados à mesma mesa. A Palavra podia chegar acompanhada de um poeta, de uma canção, de uma memória ou de uma imagem capaz de tocar o coração de quem escutava.
Desse mesmo encontro entre fé, arte e cultura nasceu também o Dom Cultural, projeto que aproxima música, poesia, espiritualidade, direitos humanos, cidadania e diferentes expressões artísticas. Uma iniciativa que procura manter viva a inspiração de Dom Helder Camara para o nosso tempo, fazendo da memória não uma peça de museu, mas uma força de consciência, diálogo e transformação.
A profecia, porém, tem seu preço. Ao longo de sua caminhada, Padre Fabio enfrentou constrangimentos dentro e fora dos espaços institucionais, incompreensões, silêncios, resistências e situações difíceis. Mas a experiência profética ensina que nem todo obstáculo é o fim do caminho. Algumas vezes, é justamente o que obriga a abrir as asas.
Como aconteceu com tantos profetas, a palavra nem sempre é acolhida com tranquilidade. Às vezes ela incomoda, desloca, questiona e provoca resistência. É então que ganha força a palavra de Jesus: ‘Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus’ (Mt 5,10). E ainda: ‘Bem-aventurados sois quando vos injuriarem e vos perseguirem […] por causa de mim’ (cf. Mt 5,11-12).
Por isso, até os constrangimentos podem ser atravessados com uma alegria profundamente evangélica: não alegria pelo sofrimento em si, mas a paz de quem sabe que a fidelidade ao Evangelho, à justiça e à dignidade humana pode cobrar um preço.
No lugar de Dom Helder, portanto, Padre Fabio não estava simplesmente celebrando uma missa qualquer. Estava em um chão carregado de memória, de compromisso e de responsabilidade. Ali, cada celebração trazia também a lembrança daquele bispo que fez da Igreja uma presença junto aos pobres, aos perseguidos, aos que lutam pela justiça e pela paz.
Estar naquele espaço significava assumir também a responsabilidade de não transformar Dom Helder apenas em memória afetiva ou figura histórica. Significava procurar manter viva sua inquietação, sua coragem evangélica, sua opção pelos pobres, seu compromisso com os direitos humanos, com a paz, com o diálogo e com uma Igreja pobre e servidora.
Nos próximos meses, Padre Fabio viverá um período especial de formação, estudo, recolhimento e renovação, incluindo a realização de um curso e a preparação de novos caminhos para sua missão sacerdotal. Será também um tempo de silêncio fecundo, aprofundamento e abertura para novas formas de presença.
Mas uma coisa permanece: quem aprende a caminhar nas fronteiras não deixa de ser um homem das fronteiras apenas porque muda de lugar. A ligação com Dom Helder não depende de um endereço. É espiritualidade, compromisso, memória, cultura e profecia.
Padre Fabio segue levando consigo a bacia e a toalha, a paixão pelo Evangelho, o amor à poesia e à música, o compromisso com os direitos humanos, o diálogo, a cultura, a justiça e a paz.
A função muda.
A missão permanece.
A profecia continua.
E, como escreveu Mário Quintana, no Poeminho do Contra:
‘Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!’
Os obstáculos passam.
Os constrangimentos passam.
O passarinho continua voando.”











