Por Malu Gaspar ,de O Globo – O escritório de advocacia do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), fechou um contrato de R$ 38 milhões de venda de honorários de precatórios a um fundo ligado à Reag, gestora investigada pela Polícia Federal (PF) por fazer parte no esquema de desvio de recursos pelo Banco Master. O contrato foi fechado em maio de 2024, quando o BRB já vinha adquirindo carteiras da instituição de Daniel Vorcaro.
Como mostrou O GLOBO, a PF e o Ministério Público Federal (MPF) apontaram a Reag como uma estrutura central do esquema de fraudes do Master. A gestora integra a complexa teia de fundos por onde o dinheiro captado pelo banco em transações irregulares era distribuído, dificultando a rastreabilidade e o destinatário final dos valores.
Em março de 2025, o diretor do fundo que fechou o contrato com o escritório de Ibaneis é o mesmo representante do grupo que participou e votou em assembleias de acionistas do BRB como representante do Borneo, outro fundo investigado pela PF por ter sido usado em uma operação do Master e da Reag para comprar 25% do controle do BRB abaixo do preço do mercado, enquanto negociavam carteiras fraudulentas do Master.
Segundo a PF, o Borneo havia alcançado em junho participação de 4,5% do capital total do BRB e mais de 12% das ações preferenciais. As ações estão bloqueadas pela Justiça.
Em 29 de maio de 2024, o Ibaneis Advocacia e Consultoria vendeu ao fundo Reag Legal Claims os direitos creditórios sobre honorários advocatícios no valor nominal de R$ 38 milhões, com data-base de dezembro de 2021. Hoje o fundo se chama Pedra Azul.
Precatórios são ordens de pagamento determinadas pela Justiça a municípios, estados ou da União que costumam demorar anos para serem liberados, por dependerem de condenação judicial em última instância.
Nessa modalidade de negócios, o comprador adquire o direito de receber os honorários, que em geral cabe a quem ajuizou a ação e corresponde a fatias maiores do que as do mercado, já que precatórios são títulos de difícil recebimento.

No caso da Pedra Azul, a dívida total era de R$ 381,2 milhões. Não há registro de que o fundo já tenha recebido os honorários.
A equipe da coluna teve acesso ao termo de cessão dos honorários assinado entre Luzineide Getro de Carvalho, gerente administrativa do escritório do governador, e o diretor da Reag Ramon Pessoa Dantas.
Também participou do negócio o escritório Engels Augusto Muniz Sociedade Individual de Advocacia, próximo do grupo político de Ibaneis. O diretor do Reag Legal Claims é Marcos Ferreira Costa, que desde o ano passado é representante da Reag e do Borneo, que vota nas assembleias de acionistas do banco. Ele também aparece na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como responsável pela Reag DTVM, liquidada pelo Banco Central (BC).
A Reag foi liquidada pelo BC em janeiro, dois meses após o regulador tomar a mesma decisão em relação ao banco de Vorcaro. Segundo o BC, a medida foi tomada “por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes” do sistema financeiro nacional. A gestora ainda é alvo de outra frente de investigações da PF, a Operação Carbono Oculto, que apura a lavagem de dinheiro de facções criminosas no mercado de combustíveis e em instituições financeiras.
A Polícia Federal também descobriu outra conexão entre a Reag e o escândalo do Master: após a liquidação do banco em novembro passado, Vorcaro escondeu R$ 2,2 bilhões que deveriam ser preservados para o pagamento de credores pelo liquidante indicado pelo BC em uma conta em nome de seu pai, Henrique Vorcaro, na gestora.
Em nota assinada por seis advogados, a defesa de Ibaneis Rocha afirmou que o governador está afastado do escritório de 2018 e “não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos após seu afastamento” e que ele “nunca participou de quaisquer negociações” com Costa ou com a Reag.












