*Por Fabiano Lana, do Estadão – Minoritário no Congresso, o governo Lula nunca escondeu propriamente que vivia numa espécie de aliança informal com o Supremo Tribunal Federal. Havia sempre uma certa segurança de que o STF estaria do seu lado em caso de derrotas no Parlamento ou em situações controversas na sociedade. Hoje mesmo, o ministro Flávio Dino invalidou a quebra de sigilo do filho de Lula, ocorrida na CPI do INSS no final do mês passado. Mas essa estratégia entre os dois Poderes contra deputados e senadores, neste momento, possui um ônus fatal. A crise total enfrentada pelo Supremo draga o Palácio do Planalto para o mesmo pântano.
O ministro Alexandre de Moraes, neste momento, está sob os escombros do escândalo do Banco Master. A coluna de Malu Gaspar, em O Globo, diz que ele teria recebido mensagens desesperadas do banqueiro e mafioso Daniel Vorcaro no dia da primeira prisão, em novembro do ano passado. Teria respondeu por meio de áudios de audição única. Ele nega. Outro ministro, Gilmar Mendes, anulou a quebra de sigilo da empresa da família do colega Dias Toffoli, ocorrida na CPI do crime organizado.
Tudo isso pesa contra Lula. Governistas deram aval à versão de que Alexandre de Moraes era um herói brasileiro. Nunca condenaram, por exemplo, os abusos dos inquéritos do fim do mundo conduzidos há sete anos pelo magistrado – que praticamente reinstituiu a censura no Brasil. Em dezembro de 2023, Moraes foi recebido pela militância petista, no Palácio do Planalto, aos gritos de “Xandão” e “Sem Anistia”, em uma solenidade que lançou um programa para a população em situação de rua.

O plano do governo atingiu uma espécie de auge com a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, em setembro de 2025. O Supremo havia se tornado o grande salvador da democracia, também pela narrativa oficial. Seus 11 integrantes pareciam intocáveis e talvez fosse assim, até hoje, se não existisse um obscuro banqueiro de Belo Horizonte que aparentemente resolveu subornar o máximo de poderosos possível para salvar sua instituição prestes a quebrar por fraudes múltiplas.
Hoje, apontam-se os culpados e cúmplices responsáveis pelo maior escândalo financeiro da história do Brasil. Esquerdistas apontam para direitistas e empresários. Direitistas para esquerdistas e o Supremo. Jornalistas mais independentes para jornalistas cooptados. Governistas para oposição, oposição para governistas. Empresários para funcionários públicos. Todos atiram contra todos. É uma cena que lembra a cena ápice do filme Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino, em que praticamente todos morrem no final. Nessa analogia, governo e Supremo estão abraçados na mesma linha de tiro.
Fabiano Lana é formado em Comunicação Social pela UFMG e em Filosofia pela UnB, onde também tem mestrado na área. Foi repórter do Jornal do Brasil, entre outros veículos.













