Por Ricardo Novelino – O Diário Oficial de Pernambuco desta quinta (31) traz, entre os atos de Raquel Lyra (PSDB), a exoneração da agora ex-secretária de Defesa Social Carla Patrícia Cintra Barros da Cunha. Em menos de duas linhas, o governo informou que a delegada da Polícia Federal saiu “a pedido” depois de apenas oito meses na pasta. Também confirmou um interino para a pasta.
Em notas publicadas em redes sociais, ela e a governadora trataram o caso com uma “certa tranquilidade” que prece não combinar bem com a realidade. Nos corredores do Palácio do Campo das Princesas, sede do executivo estadual, dizem que, na verdade, havia “insatisfação” dos dois lados.
“Hoje, exclusivamente por questões pessoais, tomo mais uma decisão difícil que é deixar a secretaria. Agradeço à governadora Raquel Lyra por me confiar tão importante missão e sigo torcendo para que a equipe continue se dedicando ao povo pernambucano”, afirmou a secretária demissionária, em sua nota.
“Agradeço à Carla Patrícia por ter se dedicado à missão de comandar até hoje a Secretaria de Defesa Social. O combate à criminalidade e à violência são prioridades do nosso governo”, escreveu a governadora, após a saída da amiga.
As notas tentam não transparecer, mas foi mais um caso que apontou para o “desmoronamento precoce” da administração, que perdeu outros secretários importantes nos últimos dias e está com cara de “fim de feira”.

De julho para cá, Raquel deu adeus a Silvério Pessoa (Cultura), Regina Célia Barbosa (Mulher), Aloisio Ferraz (Desenvolvimento Agrário, Agricultura, Pecuária e Pesca) e Evandro Avelar (Mobilidade e Infraestrutura). Ainda pode ficar sem Almir Cirilo (Recurso Hídricos) e Ivaneide Datas (Educação), os próximos que estariam na fila no Departamento Pessoal.
Carla Patrícia chegou ao governo, no primeiro dia de gestão, com o cartaz de ser a “primeira mulher a comandar a SDS na história de Pernambuco”. Também carregava a missão de “passar uma borracha” no Pacto pela Vida, programa de segurança desenvolvido durante 16 anos pelas gestões de Eduardo Campos, João Lyra (pai de Raquel) e Paulo Câmara, todos do PSB.
O governo do PSDB queria usar o capital político, condizente com gestões recém-eleitas, para apontar os erros do pacto, jogar no lixo a “herança maldita dos socialistas” e valorizar um novo modelo de fazer segurança pública. Só que oito meses se passaram e nada disso aconteceu.

Seja por dificuldades na gestão ou por barreiras impostas pelo ritmo lento na tomada de decisões, como se viu lá pelos lados do Palácio, nos últimos meses.
Gente que conhece os bastidores do governo diz que Carla Patrícia não estava nada satisfeita com as “fofocas” palacianas que apontavam falhas dela na condução da Defesa Social, uma das pastas mais visadas do governo. A decisão de “pedir o boné” teria sido sacramentada quando as críticas aumentaram diante de alguns fatos recentes.
É preciso dizer que, se Carla Patrícia não ficou satisfeita com as críticas palacianas, o governo também não pode dizer que ficou “feliz” com os primeiros meses da SDS, sob a batuta da delegada federal.
Violência
De fato, a violência aumentou em Pernambuco, tirando a força do discurso da governadora contra os antecessores do PSB. Além disso, o programa “Juntos pela Segurança”, lançado no início de agosto, deu mostras de que vai demorar muito para virar realidade, quase um mês depois de ganhar vida.
Para quem acompanhas as estatísticas de violência, os últimos dias foram bem difíceis, Em julho, houve 309 pessoas assassinatos em Pernambuco. Isso significa um aumento de 26% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando 244 ocorrências foram registradas.

Na Região Metropolitana do Recife, o aumento de crimes contra a vida foi bem acima da média do estado. Ao todo, em julho, 143 pessoas foram mortas. No mesmo período do ano passado, foram 98. O crescimento chegou a 45,9%. No acumulado dos sete primeiros meses do ano, Pernambuco teve 2.101 mortes. Três a menos do que no mesmo período de 2022.
Enquanto isso, o governo perde o bonde da história e coloca em “banho-maria” em ações mais concretas para reduzir a criminalidade. O “Juntos pela Segurança”, o esperado programa de Raquel Lyra foi propagado com pompas e circunstâncias, em uma festa marcada por aplausos e esperança, mas ninguém sabe quando e como ele será coloca do em prática.
Um das críticas é o fato de o governo não estabelecer um parâmetro de redução da criminalidade. No Pacto Pela Vida, havia uma determinação de as forças de segurança atuarem para diminuir em 12%, a cada ano, os índices de assassinatos. Isso aconteceu apenas duas vezes em 16 anos dos governos do PSB.
O “fracasso” dos socialistas nessa área crucial para a gestão pública levou a própria Carla Patrícia a fazer comparações, em uma entrevista à TV Globo, no começo deste mês.
“O que a gente anunciou foi uma política e isso […] é algo inovador no nosso estado. É muito mais amplo e muito mais profundo do que um programa. Um programa a gente já teve e viu, durante 16 anos, que a meta nunca foi atingida. Isso fez com que fosse necessário um aprofundamento […] nas causas da violência e isso demanda tempo”, declarou, ao falar sobre o “Juntos pela Segurança”.
Pois bem. O tempo de resposta ao aumento da criminalidade é alvo prioritário dos que opositores. Eles apontaram o dedo para o fato de o governo ter priorizado consultas públicas em vez de “colocar um plano nas ruas” o mais rápido possível.
E agora?
Em tempo. O Diário Oficial de Pernambuco também informa, em breves linhas, que a SDS ficará interinamente com o secretário-executivo Alexandre Luiz Rollo Alves. Nos corredores, já dizem que a torcida é para a governadora nomear o quanto antes um nome de peso para pasta e colocar a tropa da segurança nas ruas do estado, “de uma vez por todas”.
Também são notórias as críticas nas rodas de conversas no Recife e em Brasília sobre a “pouca habilidade” que governadora tem para fazer política. Isso teria sido uma das causas da saída de Evandro Avelar, nome forte do início da gestão. Um dos quadros mais competentes do estado, Evandro foi secretário na administração do pai de Raquel, João Lyra, durante nove meses. Para políticos e empresários, isso tem que mudar.












