Por Thomas Traumann, de O Globo – Eleitores que foram beneficiados por programas sociais nos mandatos de Lula 1 e Lula 2 são hoje os mais insatisfeitos com o governo atual. É o que o cientista político Felipe Nunes batizou “paradoxo da mobilidade”, a sensação de frustração que os beneficiados por programas sociais sentem por ter investido tempo e energia para obter um diploma, mas descobrir que o canudo não lhes garantiu um salário melhor.
Nesta edição, conto que, apesar dos ataques do PT, Gabriel Galípolo segue com aval de Lula e como Gilmar Mendes se prepara para combater o discurso pró-impeachment de ministros do STF. Boa leitura.
1. O Paradoxo da Mobilidade
Toda campanha do PT tem uma propaganda mostrando um jovem que se tornou o primeiro de sua família a ter um diploma universitário. O slogan “o filho da faxineira virou doutor” exemplifica os impressionantes resultados dos programas educacionais de expansão do ensino técnico, ProUni, política de cotas e Fies, criados nos governos Lula 1 e 2. Uma pesquisa exclusiva Genial/Quaest indica, no entanto, que o governo Lula 3 está pagando pela desilusão dos doutores filhos de faxineira.
De acordo com a pesquisa, eleitores que ascenderam estão mais insatisfeitos com o governo Lula e com os rumos do país do que aqueles que não tiveram avanço.
— É o paradoxo da mobilidade. Esses eleitores tiveram uma forte ascensão de status, porém não vivenciaram ascensão de classe. Eles se beneficiaram de importantes iniciativas governamentais, mas, ao contrário do que imaginavam, não acharam um lugar no mercado de trabalho. Eles investiram tempo e energia para ter um diploma, mas isso não lhes garantiu um salário melhor, apenas frustração. É verdade que o filho da faxineira virou doutor, mas ele não conseguiu emprego na sua área e sobrevive como motorista de aplicativo — afirma Felipe Nunes, diretor da Quaest.
A pesquisa usou uma premissa conhecida da sociologia, a de que a diferença de educação entre a mãe e seu filho e filha é um indicador de mobilidade social. As escolaridades de mães e filhos foram convertidas para uma escala numérica de 1 (analfabeto) a 10 (ensino superior), na qual o avanço entre as duas gerações seria considerado alto se fosse igual ou maior que 5, médio de 3 a 4, nulo de zero a 2 e negativo se o filho ou filha tivesse estudado menos que a mãe.
A pesquisa mostrou que 22% dos eleitores tiveram mobilidade alta; 24% média, 47% nula e 7% negativa. Isso significa que 46% dos eleitores superaram a escolaridade de suas mães — dado revelador tanto da desigualdade na educação como do esforço das novas gerações em estudar.
Compare as opiniões dos que tiveram mobilidade alta, os mais beneficiados pelas políticas públicas dos governos anteriores, com aqueles que não tiveram ascensão:
Situação econômica é pior que esperava
Mobilidade alta: 47%
Sem mobilidade: 33%
Situação econômica é melhor que esperava
Mobilidade alta: 51%
Sem mobilidade: 66%
Políticas públicas do governo não lhe ajudam em nada
Mobilidade alta: 34%
Sem mobilidade: 33%
Políticas públicas do governo ajudam tanto a você quanto a maioria da população
Mobilidade alta: 29%
Sem mobilidade: 33%
Avaliação negativa do governo Lula
Mobilidade alta: 49%
Sem mobilidade: 41%
Avaliação positiva do governo Lula
Mobilidade alta: 23%
Sem mobilidade: 34%
O Brasil está na direção certa
Mobilidade alta: 29%
Sem mobilidade: 38%
O Brasil está na direção errada
Mobilidade alta: 65%
Sem mobilidade: 55%
Os resultados desta pesquisa são muito ruins para a campanha de reeleição de Lula, porque indicam que a atual crise de popularidade não é um problema de comunicação, um mau humor momentâneo com os preços nos supermercados ou um problema que pode ser resolvido com mais gasto público. A decepção desta geração é estrutural.
O PT viveu um momento comparável em 2013, quando um protesto da esquerda radical contra o aumento do preço das passagens de ônibus se transformou em gigantescas manifestações populares. À época, o marqueteiro João Santana concluiu que o brasileiro médio estava satisfeito com os bens de consumo que havia comprado nos governos do PT, mas irritado com os serviços básicos de saúde, transporte e educação. Havia um evidente sentimento de fadiga de material depois de três governos petistas, e a solução de Santana foi fazer a própria campanha da reeleição de Dilma Rousseff se dizer a favor das mudanças. O slogan da campanha foi “mais mudanças, mais futuro”. Deu certo inicialmente, Dilma conseguiu se reeleger, mas a frustração popular foi canalizada para a campanha do impeachment.
Lula tem hoje um desafio similar, mas, depois de 18 anos de governos do PT, não pode se dizer o candidato antissistema. A sua campanha terá de entender a desilusão do primeiro doutor da família da faxineira.
2. Lula bateu no piso. Bolsonaro está perto do teto
As pesquisas de abril devem ser vistas como um grid de largada. Daqui até o início da Copa do Mundo, em 11 de junho, há pouca margem para mudanças no quadro em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro empatam na margem de erro, tanto no primeiro quanto no segundo turno, e os demais candidatos somam intenção de votos suficiente para impedir qualquer vitória no primeiro turno, mas são coadjuvantes da disputa. Na sondagem Genial/Quaest, Lula bateu no fundo do poço e Bolsonaro está perto de chegar ao seu teto.
Embora a curva comparando esta pesquisa com as anteriores seja favorável a Flávio Bolsonaro, os dados completos mostram que ele tem pouco a crescer nas simulações de segundo turno. De acordo com a pesquisa, 43% dos eleitores dizem que poderiam votar em Lula e 39% em Bolsonaro. É um dado equivalente na margem de erro aos 40% de Lula contra 42% de Bolsonaro na simulação de segundo turno. Há, ao menos por enquanto, pouco espaço para esse empate se alterar. Segundo a Genial/Quaest, 55% dos eleitores rejeitam Lula e 52% rejeitam Bolsonaro.
Outra indicação do teto e do piso de Lula e Bolsonaro está na resposta à pergunta sobre qual o maior medo do eleitor: 43% temem a volta da família Bolsonaro ao poder, 42% um governo Lula 4 e 6% odeiam as duas possibilidades.
Flávio Bolsonaro, no entanto, está ganhando tração junto aos eleitores independentes, os que dizem não seguir nem o lulismo, nem o bolsonarismo. Em dezembro, Bolsonaro tinha 23% dos votos dos independentes, contra 37% de Lula. Em abril, o jogo virou para 33% a 26%. É notável a porcentagem de independentes que rejeitam os dois lados: 36% dizem que se este for o cardápio do segundo turno, preferem não votar.
3. Na mão de Alcolumbre
Jair Bolsonaro foi eleito em 2018 dizendo que não seria candidato à reeleição. Foi. Lula foi eleito em 2022 dizendo a mesma coisa. Será. Agora, Flávio Bolsonaro, para conseguir o apoio de Tarcísio de Freitas, apresentou um projeto para acabar com a reeleição. O texto está parado aguardando despacho do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Até agora, Bolsonaro não fez apelo para o projeto seguir adiante.
4. Juntando os cacos
Depois de meses, Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab voltaram a conversar. Estavam amuados desde dezembro, quando Kassab disse que o governador não deveria ter sido “submisso” e se lançado a presidente mesmo sem o apoio de Jair Bolsonaro.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em audiência no Senado. Foto: Saulo Cruz/Agência Senado
5. Você não gosta de mim…
Em depoimento ao Senado, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse que pediu “apoio de início, ajuda e agora peço socorro” para a aprovação do projeto que dá autonomia financeira ao BC. Num governo do PT, ele pode esquecer. O ressentimento do PT com Galípolo por não ter culpado o seu antecessor Roberto Campos Neto pelo escândalo Master virou uma crise maior do que as queixas usuais sobre os juros altos.
…mas o seu chefe gosta
Apesar do PT, Galípolo tem o aval do presidente Lula para indicar quem quiser para as duas diretorias vagas do Banco Central.
6. ‘Adoro ser desafiado’
Deve ser interpretada como um tiro de advertência a resposta do decano do STF, Gilmar Mendes, ao senador Alessandro Vieira, que o indiciou na fracassada CPI do Crime Organizado. “Eu, como sabem, adoro ser desafiado. Lá no meu Mato Grosso, as pessoas dizem: ‘Não me convide para dançar porque eu posso aceitar’. Adoro ser desafiado. Me divirto com isso. Mas outros se acoelham, têm medo. E assombração, também dizemos no interior, aparece para quem acredita nisso. É preciso que a gente esteja atento, inclusive para dizer para aqueles que têm medo de assombração, que eles não existem, que são fantasmas, que não amedrontam, que são fantoches”, afirmou o ministro Gilmar Mendes.
A reação da ala STF liderada por Gilmar inclui não apenas proteger os ministros indiretamente envolvidos no escândalo Master (Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kássio Nunes Marques), mas também combater os candidatos que fizerem do impeachment sua bandeira eleitoral. Nas conversas com colegas, Gilmar tem dito que se o STF não rebater com todo seu poder o discurso sobre reforma no Judiciário, todos os ministros vão acabar sofrendo impeachment a partir do ano que vem, com a nova configuração do Senado. “Não vão parar em um ou dois”, previu.
7. Fique atento
O Irã rejeitou participar de uma segunda rodada de negociação com os EUA, prevista para hoje no Paquistão, alegando “exigências irracionais” do governo Trump. A frágil trégua no conflito do Oriente Médio se encerra na quarta-feira (22).
O presidente Lula visita hoje a Feira Industrial de Hannover, a maior do setor no mundo e que este ano homenageia o Brasil. Depois, o presidente participa de um fórum empresarial.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, se encontra nos EUA com o deputado cassado Eduardo Bolsonaro para pedir que aceite o deputado estadual André do Prado como candidato ao Senado.
O feriado de Tiradentes esvazia Brasília. O Senado não terá sessões de votação e a Câmara só terá sessões para contar o prazo da análise da PEC que acaba com a jornada 6×1. Hugo Motta anuncia um novo relator para a proposta.
Entre a quarta e a sexta-feira (24), a Segunda Turma do Supremo examina em plenário virtual a decisão de André Mendonça de mandar prender o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. Na cadeia, aumentam as chances de Costa se tornar mais um delator do esquema Master.
Na quarta-feira, a Procuradoria-Geral da República responde se aceita o acordo de delação firmado entre o lobista Maurício Camisotti, preso na operação das fraudes do INSS, e a Polícia Federal. A PGR sempre encrenca com acordos isolados da PF, mas uma rejeição deste caso será vista como um teste para um freio institucional para um caso que, segundo a oposição, pode chegar ao filho mais velho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva.
Com Lula e o ministro Dario Durigan de volta ao Brasil, é provável que seja anunciado o projeto de refinanciamento das dívidas bancárias, que pode beneficiar 30 milhões de pessoas.
Além do pacote dos endividados, o presidente Lula tem pressa em anunciar o fim da “taxa das blusinhas”.
A se ver se o Tribunal Superior Eleitoral vai publicar o acórdão do julgamento que declarou a inelegibilidade do ex-governador do Rio, Cláudio Castro. Sem o acórdão, não há decisão sobre como será o mandato tampão no governo fluminense.









