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Pernambuco: a eleição começa em pé de igualdade

Por Redação
31/07/2026 - 08:56
Disputa acirrada entre Raquel Lyra e João Campos para governador

Disputa acirrada entre Raquel Lyra e João Campos para governador

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*Por Bruno Soller – Poucos governadores conseguem transformar um início de mandato marcado por dificuldades em uma trajetória consistente de recuperação política. Em um cenário nacional de crescente desmobilização do eleitorado, a evolução de Raquel Lyra representa um ponto fora da curva. Após assumir o governo convivendo com índices elevados de desaprovação, a governadora protagonizou um processo contínuo de recuperação administrativa e eleitoral. Na série histórica da Real Time Big Data, cresceu 20 pontos percentuais em um ano, chegando ao início da campanha em condições de disputar em pé de igualdade com João Campos, ex-prefeito do Recife e um dos mais bem avaliados do país.

Esse equilíbrio aparece de maneira ainda mais evidente quando se observa o potencial eleitoral dos candidatos. Diferentemente do que costuma ocorrer em disputas polarizadas, nas quais a aprovação de um candidato normalmente vem acompanhada da rejeição ao adversário, Pernambuco apresenta uma dinâmica distinta. Raquel Lyra possui 62% de potencial de voto, enquanto João Campos registra 61%, praticamente um empate técnico na capacidade de atrair o eleitorado. Mais do que uma eleição marcada pela rejeição, o estado vive uma disputa em que ambos são vistos como alternativas viáveis por uma parcela expressiva da população.

A consolidação desse voto, porém, ainda está longe de acontecer. Quando se pergunta sobre a certeza da escolha, o empate se repete. 24% dos eleitores afirmam que certamente votarão em Raquel Lyra e outros 24% dizem ter o voto definitivamente em João Campos. Na prática, isso significa que 52% do eleitorado permanece em disputa. Há, inclusive, uma intersecção bastante relevante: cerca de um terço dos pernambucanos admite votar tanto em Raquel quanto em João. É justamente nesse espaço compartilhado que a eleição será decidida.

O perfil desse eleitor também ajuda a compreender os caminhos da campanha. Trata-se, majoritariamente, do eleitor de menor renda, com rendimento de até dois salários mínimos, residente no interior do estado e com menor escolaridade. É um segmento menos movido por identidades políticas rígidas e mais sensível à percepção de resultados concretos, identificação pessoal e confiança.

É nesse público que os dois candidatos disputarão narrativas bastante distintas. Raquel Lyra buscará consolidar a imagem construída ao longo de sua recuperação administrativa: a de uma gestora firme, capaz de reorganizar o Estado e entregar obras estruturantes. A força da máquina pública, a agenda de infraestrutura e o simbolismo de uma mulher em posição de liderança serão ativos centrais de sua campanha.

João Campos, por sua vez, aposta em um patrimônio de natureza diferente. Além da elevada aprovação obtida na Prefeitura do Recife, carrega consigo a força simbólica de um campo político profundamente enraizado em Pernambuco. Lula, Eduardo Campos e Miguel Arraes funcionam como pilares de uma narrativa que conecta sua candidatura à ideia de inclusão social e esperança. Mais do que apresentar um projeto administrativo, João representa uma tradição política que ainda possui forte capacidade de mobilização entre o eleitorado popular.

Outro aspecto relevante é a evidente tentativa de Raquel Lyra de impedir a nacionalização da disputa. Sua base reúne apoios presidenciais de diferentes campos ideológicos — Ronaldo Caiado, candidato de seu partido; Flávio Bolsonaro, do PL; Romeu Zema, do Novo; e até uma conexão indireta com Lula, por meio da candidatura ao Senado de Túlio Gadelha. Essa composição heterogênea demonstra que a estratégia da governadora será concentrar o debate na realidade pernambucana, evitando transformar a eleição estadual em um plebiscito sobre a disputa presidencial.

Por fim, existe um fator que ainda pode alterar esse tabuleiro. Caso a candidatura presidencial de Renan Santos mantenha sua trajetória de crescimento, seu desempenho poderá impulsionar nomes do Missão nos estados. Em Pernambuco, Renan Hallais, de 35 anos, tenta ocupar esse espaço como representante de uma nova direita, com discurso disruptivo e forte diálogo com o eleitor jovem. Embora ainda não dispute o protagonismo da eleição, pode retirar votos importantes desse campo mais alinhado com Raquel . Na outra ponta, Ivan Moraes, do PSOL, tende a consolidar o voto da esquerda mais ideológica, que pode prejudicar João. Em uma eleição tão equilibrada, movimentos aparentemente marginais podem produzir efeitos decisivos no resultado final e definir os próximos quatro anos dos pernambucanos.


*Bruno Soller é estrategista eleitoral. Especializado em pesquisas de opinião pública, é graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, com especialização em Comunicação Política pela George Washington University. Trabalhou no governo federal, Câmara dos Deputados e Comissão Europeia.

Tags: Eleições 2026OpiniãoPernambuco
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