Do UOL – A policial militar Gisele Alves foi imobilizada por trás e baleada. Laudo citado na decisão que prendeu o tenente-coronel Geraldo Rosa Neto por suspeita de feminicídio, violência doméstica e fraude processual mostrou que havia manchas de sangue espalhadas por outros cômodos do apartamento onde ela morava com o marido.
Laudo toxicológico mostra que não houve consumo de drogas ou bebidas alcoólicas. A PM foi encontrada com um tiro na cabeça no imóvel onde morava com o marido e socorrida ao hospital, onde morreu.
A perícia concluiu que Gisele foi segurada pelo rosto e baleada. O agressor teria usado a mão esquerda para imobilizá-la, enquanto direcionava a arma — uma pistola Glock calibre .40 pertencente ao oficial — contra a têmpora direita de Gisele. O trajeto do projétil foi ascendente e da direita para a esquerda.
Ministério Público se manifestou a favor do pedido de prisão do tenente-coronel após polícia concluir a investigação. A Justiça Militar acatou a denúncia do MP. “Em manifestação desta terça, os promotores Giovana Ortolano Guerreiro, Marcel Del Bianco Cestaro e Vanessa Damasceno consideraram a presença de requisitos legais e fundamentos fáticos amparando o requerimento de prisão feito pela Polícia Judiciária Militar.”

“O mosaico probatório indica que Gisele foi abordada por trás. O laudo necroscópico registrou ‘estigmas digitais’ (marcas de dedos) na mandíbula e ‘estigma ungueal’ (marca de unha) no pescoço, sugerindo que ela foi imobilizada com força. Foram encontradas ainda lesões recentes na face e na axila, compatíveis com uma agressão física prévia ao disparo.”
Trecho da investigação, citado em decisão da Justiça Militar
O laudo de reprodução simulada apontou a impossibilidade técnica de a vítima ter se matado. Além disso, padrões de sangue encontrados no local entre 1,70 m e 1,80 m de altura foram considerados incompatíveis com a tese de suicídio seguida de queda. “A reprodução simulada indicou que o tiro teria sido realizado pelas costas, possivelmente de forma súbita e inesperada, o que teria inviabilizado qualquer chance de defesa por parte da vítima.”
Corpo foi movimentado e arma colocada na mão da vítima. Perícia indicou que o tenente-coronel manipulou a cena para simular o suicídio. O investigado também teria demorado a chamar o socorro para ter tempo de limpar vestígios. “No dia do delito, antes do acionamento efetivo do 190 às 07h57min17s, o investigado realizou sucessivas ligações a terceiros e, apenas depois, consolidou o chamado às equipes estatais.
Tal sequência evidencia o retardamento não explicado do socorro imediato e priorização de contatos particulares, circunstância relevante para a compreensão de possível manipulação da narrativa e do cenário dos fatos”, aponta a investigação.
“Ainda, a reconstrução tridimensional do ambiente concluiu que, da porta do banheiro, não era possível visualizar o corpo na posição registrada nas fotos de chegada dos socorristas, com ou sem a árvore de Natal na sala, contrariando a narrativa do investigado.”
Trecho da investigação, citado em decisão da Justiça Militar.
Polícia não acredita, até o momento, que o crime foi premeditado. “Foi causado por uma forte emoção do momento”, acredita Saito, que acrescenta não ter elementos que comprovem um planejamento prévio.
Colegas de trabalho da vítima também descreveram o tenente-coronel como “ciumento, controlador e invasivo”. O inquérito cita visitas ao local de trabalho da esposa, mesmo sem atribuição para tal, com base em sua “ascendência hierárquica”
“As mensagens extraídas do celular do investigado revelaram ofensas, humilhações, controle e ameaça de subjugação, inclusive episódio de agressão física (“enfiado a mão”) dias antes dos fatos aqui analisados (05/02/2026)”
Trecho da investigação, citado em decisão da Justiça Militar
O advogado Eugênio Malavasi, defensor do tenente-coronel, diz que não há fundamentação para a decretação da prisão do cliente. “A prisão é manifestação ilegal, pois, sem entrar no mérito, a Justiça Militar não é competente para determinar medidas invasivas, pois a competência é da Justiça Comum”.
Geraldo Leite Rosa Neto ficará detido no presídio militar Romão Gomes, na capital paulista. Prisão ocorreu após determinação da Justiça Militar após encaminhamento do Ministério Público, que cita o inquérito da Polícia Civil no documento, acatado pelo juiz.
Entenda o caso
Gisele morreu após ser encontrada com um tiro na cabeça no apartamento onde morava com o marido. Caso ocorreu em 18 de fevereiro. Ela foi socorrida em estado grave e levada ao Hospital das Clínicas, na região central da capital. A morte dela foi constatada às 12h04 do mesmo dia.
Em depoimento, Geraldo afirmou que, no dia dos fatos, se dirigiu ao quarto de Gisele por volta das 7h para dizer que queria a separação. O homem afirmou ter dito que ainda a amava, mas entendia ser melhor terminar porque o relacionamento não estava funcionando. De acordo com ele, após a declaração, a esposa se levantou de forma “exaltada”, mandou ele sair do quarto e bateu a porta. Ele alega ter pegado a toalha para tomar banho em seguida.
O tenente-coronel declarou ter ouvido um barulho, um minuto após entrar no banho, que pensava ser uma porta batendo. Mas, ao abrir a porta, se deparou com Gisele no chão, ferida na cabeça e segurando a arma de fogo. Ele disse ter acionado o resgate, a Polícia Militar e ter ligado para um amigo que é desembargador.
Mãe da vítima disse à polícia que o relacionamento da filha com Geraldo era “extremamente conturbado”. Ela afirmou que o tenente-coronel era uma pessoa abusiva e muito violenta, que proibia a vítima de usar batom, salto alto e perfume, além de cobrá-la rigorosamente para realizar várias tarefas domésticas.
O caso foi registrado inicialmente como suicídio consumado. Depois, registro foi alterado pela Polícia Civil para “morte suspeita” a partir do depoimento da mãe da vítima.
Em caso de violência, denuncie
Denúncias podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive no exterior. A ligação é gratuita.












