Do UOL – A apreensão do computador de um dirigente de uma organização social de saúde que atuava em Goiás e no Amapá revelou o que seria, segundo a Polícia Federal, o funcionamento de um esquema de corrupção ligado a contratos com hospitais públicos. A PF e o Ministério Público encontraram o que chamam de “planilha de contabilidade de propina”, com registros de supostos repasses irregulares derivados desses contratos, firmados com governos estaduais e prefeituras nos dois estados.
O computador foi apreendido em 2020, e, após os investigadores obterem as informações, o material voltou ao centro das investigações e embasou três novas operações no final de abril deste ano. A organização social envolvida é o Instituto Brasileiro de Gestão Hospitalar (IBGH), que tinha como controlador, até então desconhecido, o médico Hilton Picelli. O tesoureiro da entidade era o advogado Paulo Eduardo Leite.
Segundo a polícia, a coluna da planilha nomeada como ‘retorno’ se refere à propina vinculada àquela nota fiscal de serviço. Segundo a polícia, a coluna da planilha nomeada como ‘retorno’ se refere à propina vinculada àquela nota fiscal de serviço.
O UOL obteve cópia da planilha. Os “retornos” registrados nas subplanilhas somam R$ 34 milhões entre fevereiro e agosto de 2020, em contratos ligados à pandemia de covid-19. As supostas propinas eram calculadas por fórmulas, em percentuais que, em média, chegavam a 10% dos contratos mensais.
Os registros indicariam ainda como o dinheiro teria saído da organização social responsável pelos hospitais públicos para ser repassado a empresas “quarteirizadas”, que executavam os serviços. Os valores seriam divididos entre o médico, a advogada Lázara Mundim e o empresário Fernando Sampaio, já falecido.
O documento registraria o pagamento de propina principalmente em dinheiro em espécie, com valores que chegam a R$ 94 mil, entregues em locais como instituto, chácara, imóveis ligados ao grupo e até porta-luvas de carro, além de repasses “em mãos”.
Também há transferências bancárias fracionadas, feitas em abril para a conta de um mesmo destinatário, além de pagamentos de salários, despesas e repasses a terceiros.
As operações da Polícia Federal e do Ministério Público tiveram três etapas no final de abril. Antes disso, o IBGH já havia sido alvo de outras três operações da Polícia Civil de Goiás, da PF e do MPF.
Em 2020, uma ação mirou na falsificação de “álcool em gel” em um hospital do interior administrado pelo instituto durante a pandemia de covid-19. Foi nessa operação que a “planilha da propina” foi apreendida.
Segundo as investigações, o IBGH é controlado pela advogada Lázara Mundim, por Adolfo Sampaio —filho de seu falecido companheiro— e também pelo médico Hilton Picelli, que é dono da empresa Mediall.
O advogado de Picelli e de seus sócios na Mediall, Roberto Serra Maia, criticou a investigação por misturar diferentes operações. Ele obteve decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região que determinou a soltura dos presos.
As prisões foram absolutamente ilegais. A investigação vai ser considerada ilegal. O sr. Hilton Picelli nega qualquer participação em esquema de desvio de recursos públicos ou lavagem de dinheiro. Todos os contratos celebrados foram lícitos, com prestação de serviços efetiva, inexistindo qualquer evidência concreta de prática criminosa. Trata-se, até o momento, de narrativa investigativa que ainda será submetida ao devido contraditório.
Roberto Serra Maia, advogado de Picelli
Ele disse ainda que o médico não é controlador de fato do IBGH. “Sobre a hipótese de pagamento de ‘propina’, é imprescindível destacar que não há prova concreta que sustente tal alegação em relação ao sr. Hilton Picelli.”
Apesar da negativa da defesa, a planilha indica que um terço dos valores arrecadados pelo IBGH com empresas, sob a rubrica de “retorno”, seria destinado a Picelli. No Amapá, onde o IBGH deixou de operar por inadimplência, empresas ligadas ao médico assumiram parte dos serviços. Um quadro da companhia indica que a Mediall ainda atua no estado.
A reportagem perguntou ao advogado do médico como ele conheceu Lázara, Fernando e os dirigentes do instituto, mas a defesa não comentou.
[O médico e empresário] Hilton Picelli [preso] atuava em duas frentes: simultaneamente exercia influência interna na gestão da OS-IBGH e comandava empresas contratadas pela própria organização social, especialmente a MEDIALL Brasil Gestão Hospitalar, empresa que, segundo os autos, detinha os maiores contratos com o IBGH.
Juiz Paulo Augusto Moreira Lima, da 11ª Vara Federal de Goiás










