Por Luis Felipe Azevedo, de O Globo – A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), acionou a Justiça Eleitoral por conta de um perfil nas redes sociais supostamente mantido por um produtor de vídeos ligado ao PSB — sigla do seu principal adversário, João Campos, na disputa pela reeleição. A conta, chamada “João Campos Platinado”, estaria vinculada a Wladimir Fernandes, que teve passagem por uma prefeitura pessebista no estado. Em 2022, Fernandes já havia sido alvo de ações da coligação de Lyra por conta da página “Marília Arraes debochada”, referência à rival da hoje governadora naquele pleito. Ele nega qualquer relação com os conteúdos.
Este é mais um capítulo da batalha jurídica entre as campanhas de Lyra e Campos. Ambos afirmam serem vítimas de “gabinetes do ódio”, que difundiriam informações falsas sobre o outro lado no ambiente digital.
O processo apresentado pela campanha de Lyra contém uma mensagem da Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, que informa o telefone cadastrado na conta judicializada este ano. O número é o mesmo que a Justiça utilizou para procurar Fernandes e intimá-lo em 2022, e também é o mesmo pelo qual O GLOBO contatou o produtor em busca de um posicionamento.
Há quatro anos, a equipe jurídica da atual governadora acusou o perfil “Marília Arraes debochada” de difundir desinformação. O Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) julgou parcialmente procedentes três representações e determinou a remoção de conteúdos. Já o perfil “João Campos platinado” é alvo de sete representações do PSD em 2026.
Em janeiro passado, Fernandes abriu uma empresa de pós-produção de vídeos. O cadastro ocorreu semanas antes da publicação de peças audiovisuais judicializadas pela sigla de Lyra. A equipe da governadora afirma que houve uso irregular de Inteligência Artificial (IA) e propaganda eleitoral antecipada negativa.
Elos com o PSB
Fernandes ocupou cargos comissionados na Prefeitura de Paulista, em 2020, no período da gestão de Junior Matuto, que era filiado ao PSB. A informação está disponível no portal Tome Conta, plataforma digital de transparência pública criada pelo Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE).
Nas ações eleitorais de 2026, Fernandes é representado pelo escritório Rocha & Pinto Advogados Associados. A firma tem como sócios-administradores Celso Rocha Barbosa Souza e Américo Oliveira Pinto Neto. Advogado principal no caso, Souza é servidor comissionado da Câmara Municipal do Recife, nomeado no gabinete do vereador Eduardo Mota (PSB).
Mota se licenciou do mandato em abril para assumir a Secretaria de Esportes do Recife na gestão de Victor Marques (PSB). Ele está à frente da capital desde a descompatibilização de Campos para disputar a eleição deste ano.
Já Neto, o outro sócio do escritório, atuou na Secretaria de Saúde do Recife entre março de 2021 e fevereiro de 2023, com João Campos ainda no posto. O Portal da Transparência da prefeitura aponta que ele atuava como “gestor de unidade” na pasta.
Postagens nas redes sociais também mostram uma proximidade de Neto com o deputado federal Pedro Campos (PSB), irmão do ex-prefeito, que remontam a mais de uma década. O advogado também fez publicações de apoio a candidaturas do próprio João — a mais recente é do dia 12 de abril deste ano.
Em outra ação, apresentada em julho deste ano, o PSD pede a preservação de provas para esclarecer a autoria, administração e eventual custeio de uma “rede de perfis digitais anônimos que, de modo reiterado e articulado, ataca a governadora” e “promove” Campos. A sigla manifesta a intenção de solicitar uma investigação e a reunião de “acervo mínimo”.
A ação cita 15 perfis — entre eles, o “João Campos Platinado” — que pertenceriam à rede e fala em um “alcance conjunto expressivo”. Segundo a sigla, o escritório Rocha & Pinto Advogados Associados atua para “praticamente todas” as páginas, aparecendo em pelo menos 18 dos processos citados. No início de agosto, a Justiça Eleitoral acolheu pedido do partido da governadora para preservar provas.
O GLOBO procurou os advogados, mas não obteve retorno. Já o próprio Wladimir Fernandes negou relação com os perfis:
— O que tenho a falar é: favor verificar o conteúdo da página — limitou-se a dizer por mensagem, sem fornecer informações adicionais.
Procurada, a campanha de Campos não retornou.
Ataques a Campos
O governo de Pernambuco exonerou Amisadai Andrade da Silva na última terça-feira. A medida foi tomada no mesmo dia em que a TV Record veiculou uma reportagem que apontava o então servidor como operador de uma suposta rede de perfis que receberia dinheiro público para atacar adversários políticos de Lyra, como Campos.
Segundo a emissora, a Polícia Federal (PF) investiga o suposto “gabinete do ódio” montado pela campanha da governadora. A reportagem mostra a gravação de uma reunião na qual Amisadai, que é servidor da Caixa Econômica Federal e estava cedido à Secretaria Estadual de Turismo e Lazer, negocia ataques nas redes sociais. Ele teria uma rede com mais de 300 perfis.
Amisadai foi nomeado para um cargo no governo Lyra em novembro de 2024. A reportagem aponta que a empresa de publicidade tem contratos com a gestão estadual desde 2023 e recebeu mais de R$ 500 mil pelos serviços.
Para o advogado Rafael Carneiro, que representa o PSB nacional e falou em nome da equipe jurídica da coligação de João Campos, há indícios suficientes da existência de um “gabinete do ódio” voltado a prejudicar o ex-prefeito e beneficiar a candidatura de Lyra.
— Na quarta-feira, a governadora disse que esse sujeito estava muito longe dela. E no mesmo dia foi demonstrado que ele estava muito perto — afirmou o advogado.
Em nota, o governo Lyra afirmou que a publicidade da gestão é executada exclusivamente mediante licitação. A elaboração do plano de mídia e a seleção dos veículos, segundo a equipe da governadora, seguem critérios técnicos de audiência, alcance e custo.
“Os valores destinados em 2026 ao veículo citado representam cerca de 0,3% do investimento permitido ao Estado em publicidade no período, distribuído entre dezenas de veículos. Todos os pagamentos são precedidos de comprovação de veiculação e estão disponíveis no Portal da Transparência”, conclui a nota.









