Do UOL – A rivalidade entre Brasil e Argentina no futebol fez crescer o discurso de ódio contra argentinos que vivem no Brasil, segundo relatos obtidos pelo UOL. A comunidade cita ataques xenofóbicos, episódios de vandalismo e ameaças de agressões físicas, após a Copa do Mundo.
Procurado, o Consulado Geral da Argentina em São Paulo não retornou a contato da reportagem.
Os depoimentos mostram que, diferentemente do que ocorreu com brasileiros residentes no país vizinho, o Mundial aqui acentuou a rixa para além das redes sociais.
Um morador da zona norte da capital paulista teve a porta de seu apartamento forçada e a varanda invadida por sacos de lixo após a final, no domingo. A reportagem apurou que o argentino ainda recebeu uma multa do condomínio por estender uma bandeira de seu país na janela. Procurado, não quis dar entrevista.
Em outro caso, ocorrido também na capital, uma brasileira casada com um argentino, que optou por não se identificar por medo de represálias, conta que atiraram pedras na janela de seu apartamento. Ninguém ficou ferido, mas as ameaças também invadiram o grupo de WhatsApp do condomínio e até mesmo de familiares mais distantes.
O medo de ataques físicos faz com que a maioria dos argentinos contatados prefira não se identificar. Parte deles cita, por exemplo, os discursos do vereador paulistano Adrilles Jorge (União Brasil), que postou vídeos nas redes sociais incitando o ódio contra a seleção argentina e classificando como “retardados” os brasileiros que torcem para ela.
Outro episódio que colocou a comunidade em alerta foi o ataque ao bar Moocaires, que reuniu a torcida argentina durante a Copa na Mooca, zona leste de São Paulo. Na manhã de domingo, o empresário Cristián Galarza viu a rivalidade extrapolar as quatro linhas. O estabelecimento amanheceu vandalizado por sujeira e manchas vermelhas na parede onde as cores azul e branca antes predominavam.
A médica Lúcia (nome fictício) está no Brasil há 16 anos, tem dupla cidadania e mesmo assim esconde ser argentina. “Já sofri muita xenofobia, perdi emprego e até vaga em universidade. Vivo essa realidade, mas percebi uma piora por causa da Copa. Felizmente minha profissão permite que não tenha meus perfis abertos, mas, mesmo assim, vejo comentários xenofóbicos de conhecidos.”

Lúcia mora em Campinas, no interior de São Paulo, assim como Maria (nome fictício), que foi atacada durante uma reunião de trabalho. Um colega chegou a dizer em público que ela mereceria ser “amarrada em um poste e chicoteada em praça pública” apenas por ser argentina.
Ela conta que pela primeira vez teve de esconder sua nacionalidade durante o Mundial. A camisa da seleção só foi usada em locais privados e na companhia de outros argentinos, que passaram a combinar saídas em grupo
Em Indaiatuba, também no interior paulista, uma família decidiu registrar boletim de ocorrência após receber ameaças de morte de um vizinho.
“Sofremos insultos durante toda a Copa, especialmente quando a seleção argentina jogava. No dia do jogo com a Inglaterra as mensagens no grupo do condomínio saíram do controle. Recebemos ameaças de morte diretamente por sermos argentinos”, conta a enfermeira Aylen Almonacid Trossi, que mora no Brasil com o marido e o filho de 3 anos.
O temor que o discurso de ódio atinja os filhos é comum entre as famílias ouvidas pelo UOL, que recebeu relatos de situações constrangedoras vivenciadas até mesmo por crianças. Os casos geralmente dizem respeito a xingamentos pelo uso da camiseta da seleção em escolas e espaços comuns de condomínios.










