*Por José Fucs – Diante da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e de alguns seus aliados mais próximos pela suposta tentativa de golpe de Estado, bem como de centenas de cidadãos envolvidos no quebra-quebra de 8 de Janeiro, prosperou por aí a narrativa de que agora é hora de o STF (Supremo Tribunal Federal) voltar ao seu quadrado. Impulsionada por “isentões”, “moderados”, sociais-democratas e tudo o mais que se enquadre no campo do chamado “centro democrático” e da centro-esquerda de plumagem tucana, tal narrativa escora-se na ideia de que, agora que o “bode” foi retirado da sala, a corte deve voltar a respeitar os ritos processuais, os códigos legais e a Constituição, atropelados em nome de uma alegada defesa da democracia.
De repente, com a maior cara lavada do mundo, essa turma —que por ódio a Bolsonaro e a sua tropa de choque uniu-se ao lulopetismo e passou pano para as arbitrariedades do ministro Alexandre de Moraes e de alguns de seus colegas do Supremo— resolveu navegar em raia própria e posar de paladina da legalidade. Age agora como se não tivesse sido cúmplice dos abusos em série cometidos pelos magistrados para extirpá-los da vida política nacional.
Em meio à súbita guinada legalista desse pessoal, ganharam corpo também as críticas aos papéis de “salvadores da pátria” e “semideuses” que continuam a ser atribuídos a Xandão e a seus parceiros no STF pelo presidente Lula, pelo PT e por seus apoiadores. Na ânsia de se afastar das arbitrariedades do Supremo aos 49 minutos do segundo tempo, como se diz no jargão do futebol, houve até quem afirmasse que “a democracia brasileira não precisa de heróis”, parafraseando o personagem Galileu na peça homônima do dramaturgo marxista Bertolt Brecht, que a certa altura brada: “Pobre da nação que precisa de heróis”. A frase cunhada por Brecht, adaptada ao contexto atual do Brasil, pode até ter certo apelo. Realmente, com “heróis” como esses, que passam por cima das leis para perseguir uma corrente política da qual discordam, quem precisa de vilões hoje no país? A democracia precisa de heróis A questão não é que o Brasil não precise de heróis.
O Brasil precisa de heróis, sim. A democracia brasileira, também. Não de falsos heróis, de justiceiros que se impõem pela força, pela censura, pelo medo gerado em seus “súditos”. Nem de políticos que, junto com eles, agem para calar os brasileiros nas redes sociais, distribuem benesses para os “amigos do rei” e gastam o dinheiro dos pagadores de impostos como se não houvesse amanhã. O Brasil precisa de heróis legítimos, reconhecidos por serem coerentes entre o que dizem e o que fazem, por sua conduta cívica exemplar, sem ambiguidades éticas, que despertem admiração e respeito coletivos e possam inspirar as pessoas a ser melhores cidadãos.
A figura do herói é a base da civilização ocidental. Qualquer país, qualquer democracia, qualquer grupo político e social, qualquer indivíduo, precisa de heróis. Ainda mais um país como o Brasil, carente de figuras públicas virtuosas, que respeitam as leis e o bem comum e elevam a autoestima nacional e a consciência da cidadania.
Como afirmou o filósofo e historiador escocês Thomas Carlyle (1795-1881), em sua obra Sobre heróis: culto ao herói e o heroico na história, “a história universal, a história do que o homem realizou neste mundo é, no fundo, a história dos grandes homens que trabalharam aqui”. Para Carlyle, uma nação sem heróis para cultuar perde sua bússola moral, seu padrão de excelência.

O Brasil precisa de heróis que, independentemente da ideologia, sejam homens e mulheres honrados, que acreditem que ninguém está acima da lei, que não sejam tolerantes com o arbítrio para se livrar de adversários incômodos e que façam da luta contra a corrupção uma realidade cotidiana. Heróis que defendam as liberdades e os direitos individuais sem adjetivos, que não sejam solidários com ditadores e terroristas amigos, que valorizem a primazia do trabalho, a meritocracia e o sucesso individual e prezem o conhecimento e as conquistas da civilização.
Heróis que respeitem a independência dos Poderes, que zelem pela transparência na gestão pública e pela responsabilidade fiscal, que não usem cargos públicos para garantir privilégios para si mesmos e para os seus e que se solidarizem com as vítimas e não com seus algozes e com a bandidagem.
Estas são apenas algumas das características que forjariam os heróis de que o Brasil precisa hoje. Sem “lei de Gérson”, segundo a qual é preciso “levar vantagem em tudo”, sem messianismo, sem jeitinho brasileiro, sem favorecimentos para os “parças”, sem culto à malandragem e sem vitimização.
O surgimento de heróis do gênero no país seria a verdadeira “recivilização” do Brasil de que falava o ex-presidente do STF Luís Roberto Barroso —e não a que seria promovida a partir do banimento de um grupo político do qual ele não gostava e não gosta.
Os (raros) exemplos
Pode parecer inocência ou ingenuidade imaginar que isso seja possível no Brasil de Lula e do PT, de Xandão e de alguns de seus colegas no STF, das emendas parlamentares bilionárias com destino incerto, das rachadinhas, dos perdões a corruptos confessos, dos gastos sob sigilo nos cartões corporativos do governo, das viagens em aviões da FAB para cima e para baixo.
Há, porém, bons exemplos na história do Brasil, ainda que raros, e na história universal de quem se tornou admirado pela sua postura, pela sua ética e pela sua obra na vida pública, para nos inspirar. Nos Estados Unidos, os chamados founding fathers eram obcecados pelo caráter e pela contenção do poder. O primeiro presidente americano, George Washington (1732-1799), privilegiou os interesses do país quando recusou pedidos de aliados para buscar um terceiro mandato.
Mesmo contra a vontade de muitos de seus seguidores, o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela (1918-2013), que passou 27 anos preso por sua luta contra o apartheid, preferiu cumprir sua promessa de construir um país para todos, em vez de buscar a vingança contra os brancos —uma política abandonada, em boa medida, pelos atuais governantes sul-africanos.
Numa linha mais dramática, o filósofo, teólogo e jurista britânico Thomas More (1478-1535) preferiu a morte a trair sua consciência e seus princípios para agradar o rei Henrique VIII. Sócrates, o filósofo da Grécia antiga, considerado como um dos grandes inspiradores de Platão, preferiu ingerir cicuta, uma planta altamente venenosa, à renunciar às suas verdades ou fugir da prisão.
No Brasil, o aristocrata Joaquim Nabuco, político, diplomata, jornalista, e historiador, dedicou a vida a combater a escravidão, contra os interesses de sua própria família e de sua classe social. O político, clérigo e escritor Frei Caneca (1779-1825), líder da Confederação do Equador, movimento revolucionário e republicano que eclodiu em 1824, logo após a independência do Brasil, preferiu enfrentar o fuzilamento a jurar fidelidade a uma Constituição que considerava autoritária.
O advogado Sobral Pinto (1893-1991), católico fervoroso e anticomunista ferrenho, foi quem defendeu o líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990) durante a ditadura de Getúlio Vargas. Ele se apegava a um princípio que, hoje, pode parecer uma heresia para os ministros do Supremo e para muitos dos que são coniventes com o arbítrio contra seus desafetos políticos: o de que, se a lei for ignorada para punir um adversário, ela deixará de existir para proteger qualquer um.
José Fucs é repórter especial do Estadão










