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Marcela Turati: “No México, matar jornalistas sai barato”

Por Ricardo Antunes
19/04/2021 - 15:21
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Da Folha de S. Paulo – Para a jornalista mexicana Marcela Turati, uma das repórteres mais premiadas da América Latina, o México mantém o título nada honroso de campeão em assassinatos de jornalistas porque, lá, a Justiça não funciona e os crimes não são elucidados.

Foram 8 jornalistas assassinados em 2020, e 119 desde o ano 2000.

Ela cobre a violência decorrente da guerra às drogas e a crise dos desaparecidos no México como jornalista independente e é uma das responsáveis pelo projeto El País de 2 mil Fosas, que investiga, documenta e identifica valas clandestinas no país, onde há mais de 84 mil desaparecidos.

Turati recebeu o prêmio de Consciência e Integridade no Jornalismo Louis M. Lyons, da Universidade Harvard, em 2013 e o Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia, em 2019.

Confira a entrevista:

O México é o país campeão de assassinatos de jornalistas há alguns anos. Por que a situação não melhora?

O México continua encabeçando o ranking de países mais perigosos para jornalistas, muitas vezes mais arriscado do que nações que estão em guerra.

O principal motivo para que isso não mude é que a Justiça não funciona, não elucida os assassinatos de jornalistas. Às vezes, só apresentam o atirador, não revelam quem foi o mandante e tampouco investigam porque o jornalista foi silenciado. Matar jornalistas sai barato. As pessoas silenciam jornalistas porque sabem que a impunidade é garantida.

Qual o grau de medo que os jornalistas mexicanos sentem quando estão fazendo reportagens investigativas, relacionadas ao narcotráfico ou ao governo?

O medo permeia tudo.

Não matam só os jornalistas que cobrem o narcotráfico. Um jornalista de esportes me contou que estava cobrindo um jogo de beisebol infantil quando chegou uma pessoa armada dizendo: “Você precisa falar bem deste menino porque é filho do chefão”.

Ou há aqueles que cobrem artes, que chegam a um evento cultural e se dão conta de que o show é para o chefão do lugar.

Além disso, no México, pelo menos a metade das ameaças contra jornalistas vem de integrantes do governo, políticos. Existem jornalistas que publicaram reportagens sobre algum desvio de verbas em um município e foram sequestrados por grupos armados, que os torturaram e ordenaram que não escrevessem mais nada sobre o prefeito.

É como andar em um campo minado. Qualquer jornalista está em risco, mesmo que não cubra política ou notícias policiais.

No México, profissionais da Imprensa protestam contra a violência que sofrem

Esse risco mudou a maneira de fazer jornalismo no México?

Sim, é muito impressionante, o jornalismo mudou muito nos últimos anos.

Agora, em muitos lugares, os jornalistas trabalham juntos, é quase proibido cobrir alguma coisa sozinho. Todos entram em acordo para cobertura, criamos esquemas para que alguém de fora fique monitorando para conseguirmos reagir se acontecer algo. Temos protocolos de segurança. Às vezes não assinamos as matérias [por segurança].

Trabalhamos muito de maneira colaborativa em investigações, temos que convidar quatro, cinco outros jornalistas, ou nos juntar a um veículo de imprensa internacional para reduzir custos e riscos para os jornalistas da região.

Já não há tantas matérias exclusivas porque precisamos estar em grupo, mudou a mentalidade dos jornalistas, por segurança.

Mas existiam jornalistas que faziam tudo isso, andavam com outros jornalistas, assinavam juntos e, mesmo assim, foram assassinados.

Também criamos muitas redes de proteção de jornalistas. Cada vez que matam um jornalista, surge mais um coletivo de jornalistas, que se unem, fundam um veículo para continuar fazendo jornalismo e não se deixar silenciar.

A senhora fundou um desses coletivos, o Periodistas de a Pie? 

​Fundamos em 2006, antes da violência. Éramos jornalistas mulheres que cobríamos pobreza.

Quando a guerra contra as drogas foi declarada pelo presidente [Felipe] Calderón e explodiu a violência em todos os cantos, começaram a vir para nossas oficinas jornalistas de várias partes do país, contando-nos histórias horríveis.

Um deles nos falou que, em Guerrero, onde ele trabalhava, um grupo havia deixado cabeças de pessoas em um local público e ligaram para os jornais para obrigá-los a publicar fotos. O grupo ordenava que eles tirassem (e publicassem) as fotos enquanto o Exército os proibia. Então, ele teve que tirar fotos bem fora de foco pra conseguir cumprir as exigências dos dois lados.

Nós nos demos conta de que a situação era muito grave e passamos a organizar treinamentos com jornalistas colombianos e com a ONU, e formaram-se coletivos e redes de proteção, quase sempre fundadas por mulheres.

Há muitos anos, a senhora vem acompanhando de perto a morte e a dor de pessoas que perderam familiares para a violência. Como a senhora cuida da saúde mental?

Depois de muitos anos entrevistando pessoas cujos familiares estavam desaparecidos, gente passando por muita dor, passei a desenvolver sintomas de um estresse pós-traumático. Chorava em qualquer lugar, perdia a concentração, a memória. Pouco a pouco, percebi que todos estávamos assim.

No primeiro dia de um treinamento que nos deu uma colega colombiana, que nos ensinava a entrevistar vítimas de violência, todo mundo começou a chorar. Começamos a consultar psicólogos para ver como incorporar nos treinamentos a segurança psicológica e emocional.

Também temos grupos de WhatsApp de apoio emocional, convidamos xamãs para os treinamentos, fazemos rituais indígenas para lidar com tanta morte, tantas histórias que estamos carregando.

Estar em contato frequente com a morte não pode nos roubar a alegria de viver, a capacidade de sonhar e de fazer planos.

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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