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Historiador frânces, Jean-Yves Mollier diz que “a censura é uma fênix”. Confira entrevista

Ricardo Antunes Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 16:21
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De O Globo

Quando se pensa que a censura desapareceu, ela sempre renasce, alerta o historiador francês Jean-Yves Mollier, que esteve no Rio anteontem para a conferência de abertura do colóquio “A censura à prova do tempo”, promovido pelo consulado francês.

Professor emérito na Universidade de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines, ele conhece como poucos os recursos usados para a proibição ao longo dos séculos, analisados em livros como “La censure de l’imprimo (“A censura do impresso”, ainda não lançado no Brasil) e “Edição, imprensa e poder na França no século XX” (Edusp). Em entrevista ao Globo, Mollier chama a atenção para o ressurgimento de patrulhas nas artes, na cultura e na política em todo o mundo.

Como você compararia o clima democrático da França hoje e em 1968?

‘Hoje, a arquidiocese de Paris é vigilante. Se um filme como “A vida de Brian”, do Monty Python, saísse agora, provocaria protestos do episcopado francês, sendo que não houve problema algum na época em que foi exibido (1979).’

– Jean-Yves Mollier, Historiador.

A sociedade francesa se tornou mais intolerante do que era em 1968. Hoje, a arquidiocese de Paris é vigilante. Se um filme como “A vida de Brian”, do Monty Python, saísse agora, provocaria protestos do episcopado francês. A imagem de um Cristo na cruz cantando não passaria, sendo que não houve problema algum na época em que foi exibido (1979). Havia aspectos da crítica à Igreja que eram aceitos com humor e que hoje não são mais. Olhem as reações cada vez que o jornal satírico “Charlie Hebdo” publica uma charge com um padre copulando com um coroinha. O que diz esse tipo de caricatura? Que a Igreja Católica tem um problema verdadeiro com a pedofilia.

No Brasil, um caso chamou a atenção sobre os limites da liberdade de expressão hoje. Em setembro, a exposição “Queermuseu” foi cancelada, após ataques de quem via nela sugestões de pedofilia, zoofilia e ofensa religiosa. Houve algo semelhante na França?

Houve um caso similar, que é pouco conhecido. Uma exposição chamada “Presumé innocent” (“Presumível inocente”), montada em 2000 em Bordeaux, que mostrava como artistas representavam a infância a partir de 1945. Algumas esculturas se aproximavam da apologia à pedofilia. Mas o museu tomou todo cuidado: existia uma parte aberta para todas as idades e outra, só para adultos. Todas as garantias foram tomadas, o prefeito havia inclusive autorizado. Mas grupos católicos de extrema-direita fizeram denúncias de apologia à pedofilia. Só após 11 anos de processo, a corte de cassação decidiu que não havia problemas.

Quais foram as consequências para os envolvidos?

Nesse meio tempo, o diretor do museu pediu demissão e está mudo. A curadora da exposição teve sua carreira prejudicada, está na geladeira. Essa associação de extrema-direita que denunciou a exposição, chamada La mouette (A muda), conseguiu o que queria. Depois disso, o meio artístico se tornou muito mais prudente.

é um historiador francês , professor emérito de história contemporânea da Universidade de Versalhes Saint – Quentin – en – Yvelines .

Até pouco tempo atrás, via-se a liberdade na democracia ocidental como algo consolidado. Há um engano em relação a isso?

Os romanos nos ensinaram algo fundamental: a censura é uma fênix. Assim como o pássaro, achamos que ela desapareceu, até que ela renasce. A história da censura é cíclica, não segue um curso de progresso. Hoje estamos num ciclo regressivo, porque toda parte do mundo entrou em uma era de censura. Isso acontece porque não somos capazes, na democracia, de combater o fascismo, ou suas ressurgências, chamando o pelo nome.

Oito dias antes do assassinato dos quadrinistas do “Charlie Hebdo”, em 2014, escrevi um artigo no “Le Monde” dizendo que o fascismo estava renascendo, e que era preciso chamá-lo e atacá-lo como tal. Eu disse que os islamistas estavam restaurando um tipo de fascismo. Essencialmente religioso e não político, é verdade, mas eles tinham um exército, uma polícia, impostos, todos os atributos dos países fascistas do período entre-guerras.

E por que as democracias não conseguem mais chamar o fascismo de fascismo?

Porque não temos em nossa democracia o que tínhamos nos anos 1930, esse sobressalto de um movimento antifascista muito consciente dos riscos da tentação fascista. Houve um romancista que tentou tocar o sinal de alarme, Michel Houellebecq (em 2015, ele publicou “Submissão”, romance que imaginava a França, em 2022 ,sendo dominada por um presidente e um partido político islâmico). E seu livro foi criticado, foi visto como paranoico.

Como o legado de Maio de 68 pode ajudar a combater movimentos de intolerância que ganham força hoje?

Existe esse lado utópico, generoso, humanista de Maio de 68. Um movimento que é antirracista e pela fraternidade entre os povos. É a época do anti-imperialismo e do terceiromundismo. Via-se uma abertura profunda, o oposto das visões nacionalistas, fechadas e atrasadas de hoje.

Há uma diferença brutal entre a liberdade que havia no Brasil e na França em 1968. Para nós, os protestos desencadearam na pior fase de repressão da ditadura. Como os manifestantes franceses viam a sua democracia?

Os estudantes à esquerda que contestavam De Gaulle não o viam mais como o libertador da França de 1944 nem como o descolonizador da Argélia, e sim como um ditador. Como historiador, é óbvio que não vejo De Gaulle como ditador, já que ele foi eleito democraticamente. Mas essa visão dos jovens da época deve estar ligada ao fato de que ele gostava de aparecer na TV de uniforme militar, mesmo sendo um presidente civil. O que é um erro de comunicação.

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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