*Por Joaquim Ferreira dos Santos – O amor acaba, diz Paulo Mendes Campos no mais bonito texto da crônica brasileira, mas para que ele chegue ao fim, num domingo de lua nova, no desenlace das mãos no cinema, é preciso começar – e o amor que hoje estarta no scrolling de um Tinder, um dia já começou de um jeito que eu nem me lembrava mais, até ler na semana passada o belo livro de poemas que Silvio Ferraz acaba de lançar.
O amor é isso que se está vendo, e se hoje ele beija rápido, vai para a cama logo em seguida, houve um momento em que as mãos do amor avançavam com timidez. Derrubavam pudores vagarosamente, um centímetro a cada encontro, até que muitas sessões adiante, no escurinho do cinema, os dedos sôfregos da paixão masculina alcançavam finalmente o coração da mulher amada, e ele arfava silencioso sob o sutiã de aro da Du Loren.
Silvio Ferraz é reconhecido por uma trajetória de glórias no jornalismo de hard news. Tem um passaporte carimbadíssimo, um enviado especial ao muro de Berlim quando ele caiu e também à muralha da China quando ela começou a subir de patamar econômico. Ainda bem que agora, despido do lead e do sublead d’antanho, ele mostra sua alma de leveza poética, com pitadas doces de Bandeira e salgadas de Drummond, em “Rota de Fuga” – e, principalmente, me lembra, em pleno alvoroço do delivery de nude no zap, o que era o amor no tempo da linha cruzada.
Para telefonar, primeiro tirava-se o fone do gancho de um aparelho preto enorme. Aguardava-se, então, um milagre chamado linha, um zumbido aflito que ao soar permitia enfiar paulatinamente o dedo em cada um dos dez buracos da geringonça e discar o número desejado. Enquanto esperava, o ouvido era infernizado por ruídos aleatórios que davam a impressão de o choque de planetas em galáxias distantes estar ecoando no turbilhão da galeria auricular – e aí voltamos ao Silvio.
No meio dessa chiadeira ocorreu o tema da poesia dele, o excitante fenômeno da linha cruzada. Alguém que você não tinha a mínima ideia caía dentro do seu ouvido, e aí era o que Deus, você e ela quisessem que fosse. Esses dois passageiros da roleta do destino eram apresentados assim, por um lance do acaso, à sanha dos desejos que escolhessem desejar. No poema, Silvio conta a noite de sexta-feira em que uma voz feminina, chorona, sexy, lhe cruzou a linha, e foi imediatamente convidada para um encontro na calçada do Palácio do Catete. O resto, sorry, está no livro.
O amor no tempo da linha cruzada também me apresentou uma voz sussurrante, aquela que seria a de um travesseiro no dia em que eles viessem a falar. A poesia numa hora daquelas me permitiu sonhar ser a da Iris Lettieri, a do alto-falante no aeroporto, e, fazendo o pândego, já abrindo as penas do pavão, pedi que sussurrasse “Flight number 3-5-4 to Paris”. Meia hora depois, tomávamos um chope no Amarelinho da Cinelândia. Não era amor, era apenas uma possibilidade, mas no tempo da linha cruzada todas deviam ser checadas.
Agora, lendo uma segunda vez os versos de “Rota de fuga”, fiquei com a impressão, a quase certeza poética, de que, as roupas de cores berrantes, o bandeide no dedo magro, sim, só pode – ela era a mesma mulher da linha cruzada do Silvio Ferraz.
Joaquim Ferreira dos Santos é um jornalista e escritor brasileiro.
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