Por Bianca Gomes e Pedro Augusto Figueiredo, do Estadão – Apontado até poucos meses atrás como o favorito na disputa pelo governo de Pernambuco, o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB) viu sua vantagem sobre a governadora Raquel Lyra (PSD) derreter em um intervalo curto de tempo. Impulsionada pela melhora na avaliação de sua gestão, a chefe do Executivo estadual assumiu a dianteira nas pesquisas antes mesmo do início oficial da campanha, levando o adversário a intensificar a pressão por um apoio explícito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A ascensão de Raquel nas pesquisas já estava nos cálculos de especialistas em opinião pública, visto que o incumbente – aquele que tem a “caneta” na mão – costuma crescer no ano da eleição. A surpresa foi a rapidez com que esse movimento aconteceu.
Na pesquisa Datafolha desta semana, a governadora aparece à frente do adversário no segundo turno, com 51% das intenções de voto contra 44% do pessebista. Em comparação com o mês anterior, Raquel cresceu 9 pontos, enquanto João Campos recuou 8.
As pesquisas mais antigas ajudam a entender o tamanho da reviravolta. Em agosto do ano passado, o levantamento da Quaest mostrava o então prefeito do Recife com 31 pontos de vantagem sobre Raquel no primeiro turno. À época, a governadora enfrentava ceticismo até mesmo entre aliados sobre suas chances de reeleição. No levantamento mais recente do instituto, do mês passado, a vantagem havia encolhido para apenas 8 pontos.

Na Quaest, a melhora na performance eleitoral de Raquel veio acompanhada de um salto de 11 pontos na aprovação da sua gestão (62%) – e este, segundo especialistas, costuma ser o principal termômetro das chances de reeleição de um governante.
O sociólogo Maurício Garcia, diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e ex-diretor regional do Ibope na região Nordeste, cita mais de um fator para explicar a melhora de Raquel Lyra nas pesquisas. Ele diz que, nos últimos meses, a governadora melhorou a comunicação do governo, azeitou a relação com a Assembleia Legislativa e mostrou resultados à população, com entregas concretas, especialmente na área da segurança pública.
“Pernambuco é um dos Estados mais violentos do País e ela começou a atacar essa questão. Houve uma contratação, segundo dados do governo, de quase 7 mil agentes de segurança. É um incremento muito forte”, afirma Garcia, hoje diretor do Instituto Conectar.
Para ele, a governadora soube explorar e dar visibilidade ao investimento. O especialista conta que os policiais novatos são identificados por bonés da cor laranja e passaram a ser conhecidos pela população como “laranjinhas”, apelido incorporado pela comunicação da gestão. Na prática, o acessório tornou mais perceptível para a população o reforço do efetivo nas ruas.
Renato Dorgan, CEO do Instituto Travessia e especialista em pesquisas qualitativas, também cita as contratações como um acerto da gestão:
“Ela encheu as ruas do Recife de policiais com boné laranja. Isso mexe diretamente na sensação de segurança da população. Em grupos qualitativos que fizemos, as pessoas dizem que melhorou a segurança e que tem mais polícia na rua”, afirma Dorgan.
O CEO do Travessia também associa o avanço de Raquel Lyra nas pesquisas às obras e investimentos realizados no interior do Estado, especialmente em infraestrutura e saneamento, um problema histórico do Sertão e do Agreste pernambucano.
Segundo Dorgan, Raquel ampliou sua influência entre os prefeitos do interior com o apoio do PSD, que filiou mais de 70 gestores municipais no Estado. O movimento ajudou a contrabalançar a força de João Campos na capital, Recife, e na Região Metropolitana.
Garcia e Dorgan convergem em outras duas análises. A primeira é a de que Raquel conseguiu melhorar a comunicação de sua gestão e a sua imagem pessoal, se mostrando nas redes sociais uma gestora mais carismática e próxima da população, ao mesmo tempo em que passou a explorar com mais frequência símbolos da identidade pernambucana, como a bandeira do Estado. A segunda é a análise de que João Campos pode ter errado na escolha dos seus candidatos ao Senado, apesar de, até o momento, seus dois nomes estarem liderando a corrida.
O ex-prefeito optou por uma chapa “puro sangue lulista”, com a ex-deputada Marília Arraes (PDT) e o senador Humberto Costa (PT), o que o afasta do eleitorado de centro e centro-direita. Na chapa de Raquel, as vagas ainda não foram definidas. São quatro pré-candidatos: Miguel Coelho (União Brasil), Túlio Gadelha (PSD), Eduardo da Fonte (PP) e Fernando Dueire (PSD).
A disputa pelo governo de Pernambuco tem peso estratégico para os planos nacionais do PSB. O partido, que ocupa a vice-presidência da República com Geraldo Alckmin e manterá o posto na chapa à reeleição, trabalha para se consolidar como a principal força do campo progressista no pós-Lula. Nesse contexto, vencer o governo pernambucano é tido como fundamental para ampliar a projeção nacional do PSB e de João Campos, que hoje comanda a legenda. Aliados avaliam que uma vitória fortaleceria o nome do ex-prefeito do Recife como um potencial candidato à Presidência em 2030.












