Por Fábio Serapião e Natália Portinari, do TAB UOL – Planilhas encontradas pela Polícia Federal com o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, registram R$ 29,3 milhões atrelados a nomes de políticos.
Os registros estão em ao menos três planilhas encontradas com o bicheiro no dia de sua prisão, em fevereiro, na cidade de Cabo Frio (RJ).
Adilsinho é, segundo a PF, integrante da cúpula da contravenção ligada ao jogo do bicho e chefe de esquema milionário de falsificação e distribuição clandestina de cigarros no Rio.
Ele foi alvo de um novo mandado de prisão na quinta fase da Operação Unha e Carne no último dia 2 de julho.
Outro preso novamente foi Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Na Unha e Carne, a PF aponta a relação da organização criminosa do bicheiro com agentes políticos. As planilhas são utilizadas para sustentar a tese da investigação.
A operação é relatada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e tem como um dos focos a infiltração do crime organizado no poder público fluminense. As informações sobre as planilhas estão na decisão de Moraes que autorizou a nova prisão do bicheiro.
Os investigadores descobriram as planilhas e também uma rede de empresas utilizadas pelo bicheiro para lavar dinheiro e manter relações com políticos.
Entre as empresas estão um grupo de gráficas que recebeu milhões de campanhas políticas nas últimas quatro eleições. Essas gráficas receberam R$ 18 milhões de campanhas políticas nas últimas três eleições. Um deles é o ex-governador Cláudio Castro (PL), citado na decisão de Moraes.
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Planilhas
Em um documento intitulado “Planilha 1”, a PF afirma que consta uma relação de candidatos a cargos públicos e agentes políticos atrelada a valores.
O material ainda é analisado pela PF, segundo trecho da decisão de Moraes.
“A denominada Planilha 1, apreendida em poder de Adilson Oliveira Coutinho Filho, vulgo Adilsinho, apresenta uma relação nominal de candidatos e agentes políticos acompanhada de valores individualizados, sob a rubrica Valor Atualizado, alcançando o montante global de R$ 21.986.970,60 “, diz a PF.
De acordo com a decisão, a lista de políticos contida na planilha “inclui nomes de diferentes campos e níveis de atuação política”. A identidade dos citados, no entanto, não é abordada na decisão de Moraes.
“O achado ganha relevância porque não se trata de anotação genérica ou isolada: a planilha organiza beneficiários, quantifica valores e consolida um total expressivo, compatível com uma contabilidade paralela de grande escala, circunstância que recomenda o confronto sistemático com dados bancários, fiscais, eleitorais e com as prestações de contas declaradas à Justiça Eleitoral”, afirma a PF.
Os investigadores entendem que a lista é importante para a apuração porque pode ser um “mapa de circulação de recursos destinados ao financiamento político, formal ou informal, por estrutura vinculada à organização criminosa investigada”.
A decisão de Moraes ainda cita outras duas planilhas encontradas com Adilsinho e que, diz a PF, representam uma “contabilidade paralela” com repasses de valores em espécie e transações bancárias sob suspeita de serem “destinadas a agentes políticos”.
Nesse documento, o valor atrelado aos repasses nas duas planilhas é de R$ 7,4 milhões.
“O montante total documentado nessas planilhas alcança a impressionante cifra de R$ 7.382.928,55, subdividido em R$ 6.307.867,00 em espécie e R$ 1.075.061,55 sob a rubrica bancária”, diz trecho da decisão.
“Assim, a lista deve ser explorada como ponto de partida para identificar eventuais convergências entre os nomes nela constantes, fornecedores gráficos utilizados em campanhas, vínculos com pessoas jurídicas suspeitas, notas fiscais emitidas, doações oficiais, despesas eleitorais declaradas e possíveis contrapartidas posteriores no exercício de mandatos ou funções públicas”, afirma a PF.
Embora não cite nomes, a decisão afirma que a PF cruzou dados das planilhas e da prestação de contas de campanhas, indicando uma “convergência de dados”.
De acordo com a PF, o cruzamento de dados reforça “a hipótese investigativa de que a organização criminosa injetava dinheiro em espécie diretamente nas campanhas de candidatos que, posteriormente, atuavam como defensores dos interesses do grupo nos Poderes Legislativo e Executivo”.
Defesas
O advogado Ricardo Braga, defensor de Adilsinho, disse por meio de nota que seu cliente “nega ser o autor das planilhas apresentadas pela Polícia Federal e afirma desconhecer a sua origem e conteúdo, existindo patente divergência entre o manuscrito apócrifo apreendido e o material apresentado pelos investigadores”.
“Adilson nega qualquer relação com gráficas, reforçando que jamais efetuou pagamentos a agentes públicos ou políticos, confiando que os fatos serão esclarecidos na Justiça”, diz a nota.
O ex-governador Cláudio Castro disse em nota que nega qualquer “relação social, comercial ou financeira com Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho”.
“Cláudio Castro desconhece qualquer relação de sua campanha com os fatos investigados. O acompanhamento operacional de fornecedores gráficos ou de eventuais vínculos mantidos por seus responsáveis não era atribuição pessoal do então candidato e, menos ainda, do governador no exercício de seu mandato”, diz a nota.
Em nota divulgada no dia da Operação Unha e Carne, a defesa de Bacellar negou que ele tenha atuado “para inibir ou embaraçar qualquer investigação, direta ou indiretamente, ou para proteger e beneficiar organizações criminosas e seus integrantes”, “conforme extensa documentação acostada aos autos próprios”.
Segundo a nota, Bacellar “pautou e pauta sua atividade política e atuação como agente público na legalidade, na impessoalidade e, principalmente, no firme combate à criminalidade organizada no estado do Rio de Janeiro”.









