Por Julia Affonso, do TAB Uol – O barbeiro Max do Corte ganhou fama cortando cabelos na cidade serrana de Mendes (RJ), a pouco mais de cem quilômetros da capital fluminense. Nas últimas eleições, candidatou-se a vereador pelo município e se tornou suplente da Câmara local.
Maxslei de Oliveira Silva tem ensino fundamental completo. Neste ano, o barbeiro se tornou formalmente bolsista de um convênio que desenvolve estudos científicos e promove cursos online, da estatal federal PortosRio.
É uma das centenas de pessoas que integram o “exército” de cabos eleitorais abrigados no contrato de R$ 35 milhões da companhia com a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
O UOL teve acesso a uma folha de pagamentos sigilosa, no valor de R$ 8,9 milhões, que mostra a extensão da rede de apoio político. Procurado, Max do Corte não respondeu aos questionamentos da reportagem.
A estatal pagou 305 bolsistas com ligações com a classe política. São cabos eleitorais e candidatos das últimas eleições, ex-funcionários da Prefeitura de Belford Roxo, dirigentes e filiados partidários, advogados e parentes de políticos e aliados. Até um criador de jingle figura na lista.
A PortosRio se tornou área de influência do ex-prefeito Wagner Carneiro (Republicanos), o Waguinho, a quem o presidente Lula (PT) concedeu o poder de influenciar politicamente a empresa. Ele não tem vínculo empregatício com a companhia ou com a universidade.
O Palácio do Planalto declarou que não procede a afirmação de que Lula tenha escolhido Waguinho para influenciar politicamente a empresa federal.
“As nomeações e a gestão das empresas estatais observam a legislação vigente e os respectivos mecanismos de governança”, disse o Planalto (leia a íntegra de todas manifestações aqui).
O acordo com a UFRJ, fechado sem licitação, prevê o repasse da verba em três parcelas até setembro deste ano, mês anterior às eleições. A suspensão do convênio atrasou o pagamento da segunda parcela, prevista para abril —o convênio foi restabelecido em junho.
Por contrato, os recursos têm de ser aplicados exclusivamente no desenvolvimento de estudos científicos em áreas como logística, engenharia e regulação portuária e conformidade ambiental e em ações de integração entre portos e comunidades do entorno.
Em 2022, o UOL revelou que o governo do Rio usou a Fundação Ceperj (Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos) para contratar, sem transparência, mais de 18 mil pessoas.
O caso virou uma ação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que condenou o ex-governador Cláudio Castro (PL) a oito anos de inelegibilidade por abuso de poder político e econômico nas eleições daquele ano.

A folha de pagamentos
A reportagem analisou os nomes de 544 pessoas listadas como bolsistas que receberam R$ 5,6 milhões da primeira parcela, entre janeiro e março deste ano —mais da metade dos beneficiários está vinculada à classe política (a universidade destinou R$ 3,3 milhões a esse grupo de 305 bolsistas).
A primeira parcela também bancou duas empresas, uma fundação ligada à UFRJ e 33 acadêmicos. O UOL não conseguiu identificar mais informações sobre as demais 147 pessoas listadas.
A estatal PortosRio é a antiga Companhia Docas do Rio de Janeiro, que administra os portos da capital fluminense, de Itaguaí, Niterói, Angra dos Reis e do Forno. O orçamento de investimento previsto para este ano é de R$ 200 milhões.
Lula e Waguinho se aproximaram nas eleições de 2022, quando o então prefeito apoiou o petista em uma Baixada Fluminense tomada por aliados do então presidente Jair Bolsonaro (PL).
Belford Roxo tem cerca de 480 mil habitantes e regiões dominadas por milícias e pelo tráfico de drogas, segundo mapa de grupos armados do Instituto Fogo Cruzado.
Um bolsista identificado pelo UOL é Alex Pagniez, primo do ex-vereador Marcinho Bombeiro, que chegou a ser preso sob suspeita de chefiar uma milícia no município. Pagniez recebeu R$ 15 mil.
Lula perdeu para Bolsonaro no município, mas ficou grato a Waguinho pelo amparo. Após vencer a eleição, o presidente nomeou a deputada federal Daniela Carneiro (Republicanos-RJ), mulher do ex-prefeito, para chefiar o Ministério do Turismo, onde ficou por cerca de seis meses, em 2023.
No ano seguinte, ao anunciar investimentos no município da Baixada, Lula lembrou que Waguinho “não teve medo dos negacionistas, não teve medo dos malucos e resolveu me apoiar”.
“Não esqueço nunca a noite em que eu vim aqui [Belford Roxo], trazido pelo [ex-secretário do Planalto] André Ceciliano. Eu tive a oportunidade de conhecer você [Waguinho] e a Daniela. Se ninguém acredita, eu posso dizer que amor à primeira vista existe e foi o que aconteceu na minha relação e da Janja com você e a Dani”, declarou.
Waguinho e Lula se encontraram em junho deste ano para uma “importante conversa sobre os rumos do Rio de Janeiro e os desafios das eleições” deste ano, contou o ex-prefeito nas redes sociais.
“Lula ressaltou que nossa participação nas eleições de 2026 será fundamental para ajudar o Brasil a seguir crescendo, gerando oportunidades, reduzindo desigualdades e fortalecendo a democracia”, afirmou o aliado.
Procurada, a PortosRio declarou não ter firmado contratos individuais com os bolsistas e, sim, um convênio com a UFRJ. O objetivo é desenvolver assistência técnica e científica especializada, estudos, projetos, análises técnicas, atividades de capacitação e ações de integração entre portos e comunidades do entorno.
“A PortosRio não mantém cadastro destinado a identificar filiação ou atuação político-partidária e não valida a metodologia nem as conclusões desse levantamento”, disse.
O UOL cruzou nomes e CPFs dos bolsistas com dados de candidatos e prestadores de serviços registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) nas duas últimas eleições. Também checou a atuação dos beneficiários no Portal da Transparência e em Diários Oficiais da Prefeitura de Belford Roxo e em processos judiciais.
A UFRJ informou que existem dois grupos de bolsistas: os ligados ao apoio técnico e científico, selecionados pela própria universidade, e os que fazem parte do programa Capacita Portos, de extensão universitária, cooperação comunitária e ecossistema social, “indicados pela PortosRio para realizarem cursos online sobre temas portuários e a relação porto-cidade-sustentabilidade”.
Waguinho e Daniela Carneiro disseram não ter participado da seleção de bolsistas ou quaisquer outros procedimentos administrativos.

“Capacidade pífia”
O presidente entregou a estatal a Waguinho no meio do ano passado. O ex-prefeito emplacou ao menos 37 ex-funcionários da Prefeitura de Belford Roxo ou aliados em cargos na empresa.
Waguinho chegou a trabalhar na estatal como assessor de Relações Institucionais, entre setembro do ano passado e março de 2026. Deixou o posto para tocar a campanha ao Senado. A irmã dele e um sobrinho permanecem em cargos na PortosRio.
Em outubro passado, o diretor de Gestão Portuária, Ricardo Ganem Leal, sugeriu ao presidente da companhia, Flávio Vieira da Silva, ambos então recém-nomeados, a celebração de um convênio com a UFRJ. Silva é ex-secretário de Saúde de Belford Roxo.
Na avaliação de Leal, o quadro técnico da PortosRio era “altamente especializado”, mas tinha “capacidade pífia” para atender certas demandas da empresa. Segundo ele, a situação comprometia a execução de obras, dificultava o cumprimento de exigências de órgãos ambientais e reguladores e já havia provocado multas e ações judiciais contra a companhia.
Um parecer da auditoria interna da estatal, datado de 18 de abril e obtido pelo UOL, registrou que entre a proposta do diretor e a assinatura do contrato com a universidade, em dezembro, “se passaram apenas 75 dias”.
O documento destacou que a diretoria da empresa, ciente de que não havia verba orçamentária prevista para celebrar o convênio, “aprovou a utilização dos recursos próprios de caixa”. A decisão ficou caracterizada como “queima de caixa”.
Famílias bolsistas
Waguinho comandou Belford Roxo entre 2017 e 2024 e é pré-candidato ao Senado. Na chapa dele, estão a mulher, Daniela, que concorre a deputada federal, e o ex-secretário do município Leandro do Waguinho (Republicanos), a deputado estadual.
A mulher, a filha e um sobrinho de Leandro receberam R$ 41 mil como bolsistas.
A UFRJ destinou R$ 150 mil à família do assessor de Relações Institucionais da PortosRio, Patrick Senhorinho. Até março, Senhorinho era funcionário do gabinete de Daniela na Câmara.
O pai, a mãe e três irmãos do assessor também se tornaram bolsistas da universidade. A matriarca trabalhou como cabo eleitoral da deputada em 2022.
Imagens publicadas no Instagram mostram que Senhorinho continua atuando para a parlamentar depois de ter assumido o cargo na estatal. Na sexta-feira, 12 de junho, o assessor recebeu a ex-vereadora de Cordeiro (RJ) Fabíola Bianchini no escritório político da deputada, no centro do Rio.
“Hoje, estive reunida com o assessor do gabinete da deputada federal Daniela Carneiro e de Waguinho para alinhar os últimos detalhes da entrega da retroescavadeira destinada ao nosso município”, escreveu Bianchini, ao publicar uma foto com Senhorinho. A filha dela recebeu R$ 15 mil em bolsa da UFRJ.
O ex-vereador de Belford Roxo André da Prestação (Republicanos) conseguiu um cargo na estatal, como gerente de Acesso Aquaviário do porto de Niterói, com salário de R$ 17 mil mensais. A mulher dele, dona de uma loja de utensílios domésticos, e um filho do casal receberam, juntos, R$ 22,5 mil como bolsistas.
André da Prestação esteve em uma reunião eleitoral com Waguinho e Daniela em 9 de julho, no município da Baixada. “André da Prestação votando Waguinho”, afirmou em publicação nas redes.
“Peço a vocês que também colaborem e lutem, porque vocês não têm conhecimento só aqui dentro de Belford Roxo, têm fora. Mandem mensagem para os amigos, para os conhecidos.”
O ex-prefeito de São Pedro da Aldeia (RJ) Claudio Chumbinho (União) tornou-se superintendente do porto de Niterói em maio deste ano, com remuneração de R$ 27 mil. Ele recebeu R$ 10 mil de bolsa em fevereiro.
Uma advogada que trabalhou para a campanha dele a prefeito em 2024 ganhou R$ 10 mil. Felipe Chumbinho, filho do ex-prefeito, ganhou outros R$ 10 mil.
Presidente do Republicanos em Maricá, o pré-candidato a deputado estadual Fabinho Sapo e a mulher angariaram R$ 20 mil. Após um encontro com Waguinho, há algumas semanas, Sapo afirmou que o ex-prefeito “é a voz de quem sabe gerir e quer ver o dinheiro público render o máximo para a população”.
O ex-prefeito de Mesquita (RJ) Gelsinho Guerreiro, a mulher e dois filhos do casal receberam R$ 84 mil. Procurados, os citados não responderam.
Do norte ao sul
O estado do Rio de Janeiro tem 92 municípios. Levantamento do UOL com base na lista de bolsistas ligados à classe política indica que os pagamentos chegaram a aliados em pelo menos 48 cidades.
Uma delas é Paracambi, reduto do PT no estado. A prefeitura é liderada por Andrezinho Ceciliano, filho de André Ceciliano, ex-secretário de Assuntos Parlamentares do Governo Lula e ex-prefeito da cidade.
Um dos filhos do secretário municipal de Transportes, Carlos Alberto Callegaris Neves, é beneficiário do convênio. Recebeu R$ 15 mil em três parcelas entre fevereiro e março deste ano. Outro filho do secretário trabalha no gabinete do prefeito.
Procurada, a Prefeitura de Paracambi disse que “não possui participação ou atribuição em relação ao convênio mencionado”.
Ao norte do estado, o bolsista e ex-candidato a vereador Guido Pessanha levou um ônibus de apoiadores a um evento de pré-candidatura de Waguinho em Itaperuna, em maio. “Gratidão a cada pessoa que nos acompanhou nessa viagem”, agradeceu Pessanha, que recebeu R$ 15 mil da universidade.
A UFRJ transferiu outros R$ 15 mil ao ex-secretário de Agricultura de Itaocara (RJ) Roldiney Navega. No fim de junho, Branco, como é conhecido, encontrou-se com Waguinho, a quem se referiu como “meu pré-candidato ao Senado”.
“Pode ter certeza que em Itaocara, vocês têm parceiros”, disse em uma publicação nas redes sociais.
O convênio transferiu valores a integrantes de partidos adversários do PT, como o PL. Repassou R$ 17 mil ao pré-candidato a deputado estadual Edson Cavalcanti, o Thimothinho, da região de Angra dos Reis, e a uma cabo eleitoral que atuou para ele em 2024. Em 2022, ele se candidatou a vereador pelo PL.
“Não estou aqui para fazer mais do mesmo. Estou aqui para ouvir, trabalhar e representar de verdade quem acredita que a política pode ser feita com transparência, responsabilidade e resultado”, afirmou o candidato, nas redes sociais. Procurados pela reportagem, os citados não responderam.
Suspensão
O Conselho de Administração da estatal suspendeu o convênio, em abril, após receber o parecer da auditoria interna da companhia.
A fiscalização registrou, por exemplo, que não havia estudos prévios que mostrassem que o convênio “era a alternativa mais vantajosa” em comparação à “contratação convencional de empresas de consultorias privadas”.
O comitê liberou o pagamento da segunda parcela do convênio, em meados de junho, mencionando um parecer da Superintendência Jurídica, liderada por um ex-funcionário de Belford Roxo, e a avaliação da auditoria interna.
A PortosRio designou o superintendente de Sustentabilidade do Negócio, Renan Assis, ex-secretário municipal de Belford Roxo, como um dos fiscais do convênio e um dos responsáveis por liberar as parcelas.
Assis, que é presidente do Republicanos de Queimados, comentou uma publicação de Waguinho há algumas semanas. “Meu líder sempre ao lado da população.”











