Por Jéssica Ribeiro, do Metrópoles – O esquema criminoso da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), que lucrou mais de R$ 708 milhões com a Farra do INSS, esquema relevado pelo Metrópoles, não se limitava apenas a transferências bancárias complexas. Segundo inquérito da Polícia Federal, o dinheiro desviado também transbordava para as garagens dos envolvidos sob a forma de uma frota cinematográfica de veículos de luxo.
O modus operandi era sofisticado: o dinheiro retirado indevidamente de benefícios de idosos e indígenas vulneráveis era canalizado para empresas de fachada localizadas no Distrito Federal e em São Paulo. Dessas contas, saíam os pagamentos para a compra de veículos de alto padrão, como Porsche 718 Boxster, BMW X5, Ford Mustang e Land Rover Defender.
Enquanto os carros desfilavam luxo, as sedes das empresas que os compravam eram de uma simplicidade suspeita.
No Recanto das Emas (DF), as empresas supostamente proprietárias de alguns dos veículos operavam em sala de 20 metros quadrados, localizada em um pequeno sobrado – onde também consta endereço de outros oito CNPJs pertencentes a Lucineide dos Santos Oliveira e a dois integrantes da Conafer – Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior e Cícero Marcelino Santos.
Essas empresas abertas no DF, segundo a Polícia Federal, lavaram mais de R$ 304 milhões do total desviado do INSS pela Conafer.
Foi por meio dessas estruturas inoperantes que a organização comprou, em nome de Lucineide, um Chevrolet Camaro por R$ 510 mil, um Porsche avaliado em R$ 700 mil, uma caminhonete Mitsubishi Triton Sport e um Pajero Sport. Lucineide é sócia da Associação dos Aposentados do Brasil – outra ONG envolvida na farra – e dona de uma igreja evangélica também localizada no Recanto das Emas.
Conforme as investigações, boa parte dos veículos adquiridos no esquema eram mantidos em um galpão em Presidente Prudente (SP). No local, que funcionava como uma espécie de quartel-general logístico, a PF encontrou aproximadamente 40 veículos.

Moeda de corrupção
A frota também serviu como moeda de corrupção. A investigação detalha como o ex-procurador-geral do INSS Virgílio Filho recebeu uma Toyota Hilux SW4 de R$ 464 mil. O veículo foi faturado em uma concessionária em Goiânia (GO) e entregue em sua residência, em Curitiba.
Da mesma forma, o diretor de Benefícios, André Fidelis, foi presenteado com um VW T-Cross, registrado inicialmente no nome de um laranja para mascarar o recebimento da vantagem indevida.
Na garagem da sede da Conafer, em Brasília, e em fazendas de luxo em Minas Gerais, os agentes apreenderam os símbolos de uma ostentação financiada pela fraude sistêmica contra a Previdência Social.

Ostentação
Mensagens interceptadas pela Polícia Federal expõem o gosto da liderança da Conafer pela ostentação. Em um diálogo, o operador Cícero Marcelino pergunta a Higor se ele possui algum carro “mais top” ou “mais máquina” que um Audi RS4 Avant, avaliado em R$ 749 mil, pois o presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, desejava algo “mais impactante”.
A resposta sugeria a aquisição de um Porsche, veículo que, segundo os criminosos, faria o líder “destruir” ao chegar aos lugares.
Com a deflagração das fases da Operação Sem Desconto, a Justiça determinou o sequestro de bens e o bloqueio via sistema de Restrições Judiciais sobre Veículos Automotores (Renajud) de dezenas de veículos.










