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Líder religioso é preso no Sergipe por estupro de menores

Por Paula Cordeiro
22/08/2026 - 19:04
índicios apontam que o líder cometeria esses crimes desde 2014

índicios apontam que o líder cometeria esses crimes desde 2014

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Do UOL – O advogado e líder religioso Iannick Sucupira Curvelo, 35, foi preso pela Polícia Civil de Sergipe na última quarta-feira (19/8), suspeito de interferir na investigação que apura denúncias contra ele por estupro de crianças e adolescentes.

Iannick atuava na Igreja Metodista e era, até renunciar um dia antes de ser preso, o representante da região Nordeste na Coordenação Geral de Ação Missionária. Os assédios, contam os denunciantes, ocorriam muitas vezes dentro do templo religioso.

O caso está sendo investigado pela Delegacia Especializada de Atendimento a Crianças e Adolescentes Vítimas, que aponta indícios de que Iannick estaria cometendo os crimes desde 2014. Até ontem, a polícia diz ter identificado e ouvido pelo menos dez possíveis vítimas, a maioria delas parentes do suspeito.

A ordem de prisão foi dada pela juíza Heloísa de Oliveira Castro, da 6ª Vara Criminal de Aracaju, no último dia 7, por conta de intimidações que teriam sido feitas pelo homem. Ela ainda autorizou a busca e apreensão na casa e no escritório do suspeito para verificar se ele mantinha conteúdos sexuais envolvendo menores de 18 anos.

Iannick foi preso ao prestar depoimento no Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis. Por ser advogado, ele teve direito a uma cela especial e está detido no Presídio Militar de Aracaju. Ele é investigado pelos crimes de estupro, quando se trata de vítima adolescente mediante violência ou grave ameaça; e estupro de vulnerável, no caso de crianças.

A defesa de Iannick diz que a prisão era desnecessária, já que ele se propôs a cumprir medidas cautelares, e assegura que o advogado está “colaborando com o esclarecimento dos fatos”. A nota não nega, nem confirma os crimes de estupro (veja íntegra abaixo).

Em nota pública, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em Sergipe afirma que foi instaurado Processo Ético-Disciplinar. “Diante da excepcional gravidade dos fatos, decidiu pela suspensão cautelar do exercício profissional do advogado”.

A Igreja Metodista foi procurada na noite de ontem, mas não se pronunciou sobre a prisão de seu ex-membro. O espaço segue aberto, e o texto será atualizado em caso de resposta.

As denúncias

Iannick exercia várias funções na igreja em Aracaju, a principal delas a liderança de células, que são grupos de discipulado voltados a crianças e adolescentes. As reuniões ocorriam na igreja, nas residências dos membros ou em seu apartamento. Ele também era assessor jurídico, delegado para eventos nacionais e chefiava um ponto missionário no bairro Santos Dumont.

As vítimas relataram que o advogado costumava se aproximar de crianças e adolescentes que conhecia na Igreja Metodista Central, de Aracaju. A abordagem era parecida, com oferta de videogames, refeições e promessas.

Os relatos também dão conta de que Iannick convidaria crianças e adolescentes para sua casa, onde praticaria “atos libidinosos e comportamentos sexuais inapropriados, mediante sedução, manipulação psicológica e, mais uma vez, com promessas de vantagens materiais”.

Um caso em especial chamou a atenção e acabou sendo determinante para sua prisão. Uma vítima de 13 anos relatou que estava sofrendo abusos, ao dizer que o advogado impunha “banhos conjuntos e toques íntimos”.

Ainda em depoimento, a vítima disse que os abusos tiveram início quando ela tinha 8 anos e que o suspeito exigia segredo da relação, invocando sua condição religiosa e o papel de “pai”.

Outro depoimento, prestado pelo pai de uma adolescente, relatou que, em fevereiro de 2026, sua filha foi abordada pelo advogado dentro do templo da igreja, quando ele pediu seu contato em uma rede social. Ele teria bloqueado a saída da jovem com uma cadeira e proposto namoro sob a justificativa de “discipulado”.

Um dos depoimentos importantes foi o do síndico do condomínio onde morava Iannick, que afirmou ter observado uma frequência de adolescentes em seu apartamento por curtos períodos.

Para garantir um acesso frequente, Iannick cadastrou pessoas não residentes no sistema de controle facial do prédio “sem aprovação de assembleia”. Após ser questionado pelo síndico, ele solicitou a exclusão de quatro nomes.

Familiares relatam casos

Outra característica apontada nas denúncias é o grau de parentesco entre o suspeito e algumas das supostas vítimas. Um dos denunciantes, hoje maior de idade, é primo do advogado e narrou à polícia que os abusos começaram quando ainda tinha 12 anos. Ele citou episódios de contato físico de natureza sexual e imposição de nudez “sob pretexto de prova de roupas”.

Nesse caso, a polícia cita que a vítima apresentou provas digitais, como gravação de videochamada com o suspeito, além de capturas de conversas pelo WhatsApp.

Em outro depoimento, uma prima do investigado relatou ter sofrido abuso físico durante a infância, quando tinha entre 9 e 10 anos de idade, em um episódio ocorrido na casa de familiares.

Outro primo também acusou Iannick de abusos recorrentes durante a infância e adolescência, a maioria deles na casa do advogado. Citou atos de natureza sexual praticados sob coação. No depoimento, ele afirmou que o investigado fazia chantagem psicológica para atrair e silenciar as vítimas.

Um homem casado com uma prima do advogado também relatou que Iannick costumava realizar reuniões religiosas em residências e se aproximava de adolescentes. Afirmou, inclusive, que sua esposa teria sofrido “investidas físicas de cunho sexual” durante a infância.

Uma das denúncias de familiar citou que houve uma “intensificação das investidas aos 16 anos” e que o advogado teria feito uma oferta de R$ 100 para a permissão de ato sexual.

O que dizem as autoridades

O pedido de prisão da delegada Gabriela Sá Campos cita que a medida foi baseada em prova “concreta e recentíssima de interferência”. Ela ressaltou que a polícia ouviu vários depoimentos, entre julho e agosto, que levaram ao avanço das investigações.

Nos dias que antecederam à representação da delegada, Iannick teria feito contato com uma testemunha e uma vítima, chegando a promover uma chamada em grupo.

O pedido de prisão teve parecer favorável do MP (Ministério Público). O promotor Cláudio Roberto Alfredo de Sousa citou “indícios de autoria são robustos” e a suspeita de que ele “armazena e compartilha material de abuso sexual”.

A polícia ainda diz ter indícios de que Iannick estava em grupos de WhatsApp com compartilhamento rotineiro de informações e materiais relacionados a possíveis abusos sexuais contra adolescentes.

“A prisão preventiva revela-se a única medida apta, no momento, a resguardar a integridade da vítima e a regularidade da instrução criminal”, diz a magistrada na decisão.

Veja a nota completa da defesa de Iannick

Diante da ampla repercussão midiática, o escritório Ricardo Almeida Advogados, responsável pela defesa, esclarece que I.S.C. apresentou-se espontaneamente nesta semana para cumprimento do mandado de prisão preventiva, embora a defesa discorde da necessidade da medida.

Desde sua apresentação, I.S.C, vem colaborando com o esclarecimento dos fatos sob apuração.

Voluntariamente, firmou compromisso de não manter contato com testemunhas ou declarantes relacionados às investigações, além de ter entregue seu aparelho celular e passaporte às autoridades competentes. Mesmo discordando da necessidade da medida extrema, permanece à disposição da Justiça e seguirá colaborando com o regular esclarecimento dos fatos.

A defesa ressalta, ainda, a necessidade de cautela na divulgação e reprodução de informações acerca do caso, especialmente para que não sejam atribuídas aos fatos circunstâncias ou condutas que não integram as imputações objeto da investigação, inclusive alegações de emprego de violência, ameaça ou outras formas de constrangimento que não constituem objeto da apuração.

Em razão do segredo de justiça e das particularidades do caso, a defesa informa que se manifestará sobre o mérito das investigações exclusivamente nos autos, preservando o sigilo das informações e a identidade das pessoas envolvidas.”

Como denunciar violência contra crianças e adolescentes
O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) —Lei nº 8.069/1990— estabelece a proteção integral e os direitos fundamentais de crianças e adolescentes.

A violação de direitos ocorre quando crianças ou adolescentes são colocados em situação de risco, incluindo:

  • violência física, psicológica ou sexual;
  • negligência ou abandono;
  • exploração ou abuso;
  • trabalho infantil;
  • recusa de matrícula escolar;
  • situação de rua;
  • conflitos familiares graves.

Denúncias podem ser feitas aos Conselhos Tutelares, órgãos municipais responsáveis por zelar pelos direitos da infância e adolescência. Em situações urgentes, também é possível acionar o Disque 100 ou a Polícia Militar (190).

 

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Paula Cordeiro

Paula Cordeiro

Jornalista

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