Por Noelia Brito – “A Justiça Eleitoral falha quando não identifica quem tornou a misoginia uma prática corriqueira nas eleições pernambucanas.”
João Campos tem afirmado ser vítima de um suposto “gabinete do ódio”. A existência desse suposto gabinete, contudo, é objeto de controvérsia política e judicial. A própria Justiça Eleitoral determinou a retirada de conteúdos que apresentavam essa acusação como fato consumado.
Mas há uma reflexão que vai além do processo.
As críticas dirigidas a João Campos, as quais ele rotula de “gabinete do ódio”, em sua maioria, dizem respeito à sua gestão. Já Raquel Lyra tem sido alvo de ataques constantes à sua honra, sua personalidade e sua condição de mulher. Chegou-se ao ponto de instrumentalizar, durante a atual campanha, a morte de seu marido, Fernando Lucena, numa tentativa de lhe causar dor e desgaste político. Cartazes demoníacos, taxando-a “assassina de marido” foram espalhados pela cidade, tudo ainda sem autoria identificada. A quem interessaria esse tipo de desqualificação é a pergunta que não quer calar.
Em Pernambuco, há um histórico de misoginia nas disputas eleitorais. Em 2020, a campanha de Marília Arraes denunciou ataques considerados machistas e misóginos. Em 2022, a vítima da vez foi Raquel. Tudo de baixíssimo nível, via cartazes, sempre sem a identificação dos responsáveis.
A Justiça Eleitoral falha quando não identifica quem tornou a misoginia, prática corriqueira nas eleições pernambucanas.
Poucos diriam que um homem que enfrenta seus adversários com firmeza governa movido pelo ódio. Em regra, ele é descrito como combativo, estratégico ou firme. Já mulheres em posição de comando são, muito mais frequentemente, retratadas como movidas pela “raiva”, pelo “ódio”, pela “vingança” ou pelo “destempero”. É um estereótipo de gênero antigo, utilizado para deslegitimar lideranças femininas.
O problema surge quando um rótulo como “gabinete do ódio” deixa de descrever fatos comprovados e passa a associar uma mulher à ideia de que governa movida pelo ódio ou pela vingança.
Mulheres na política merecem ser julgadas por seus atos, não por estereótipos machistas.











