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O Brasil superou neste sábado (8) a triste marca de 100 mil mortes pelo Covid-19

Segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde, o total de óbitos registrados é de 100.240, com 2.988.796 casos de Covid-19.

Por Ricardo Antunes
08/08/2020 - 16:43
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Do G1 – Brasil chega a 100 mil mortes por Covid-19; como chegamos até aqui?A primeira vítima foi uma mulher de 57 anos, que morreu em São Paulo em 12 de março – a morte foi divulgada no dia 17 daquele mês. Desde então, foram menos de cinco meses até a marca de 100 mil mortes. A Covid-19 deixou mortos em 3.692 dos 5.570 municípios brasileiros, ou 66,2% do total.

O Brasil é o segundo país em todo o mundo a atingir esse indicador com o Covid-19: em maio, os Estados Unidos chegaram a mais de 100 mil mortos, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins. Hoje, são mais de 160 mil vítimas nos EUA. Da primeira morte, em fevereiro, à de número 100 mil, em 27 de maio, se passaram pouco mais de três meses.

Os números que colocam o Brasil em destaque negativo já superam o total de mortos em eventos como a Gripe Espanhola e a Guerra do Paraguai. Em outro comparativo, é possível apontar que apenas 324 dos 5.570 municípios brasileiros tinham, em 2019, mais de 100 mil habitantes, segundo o IBGE.

São também, no mínimo, 600 mil pessoas impactadas: segundo estudiosos, o luto pode atingir de seis a dez pessoas por família. A pandemia impôs um sofrimento sem precedentes para centenas de milhares de brasileiros, que perderam entes queridos muitas vezes sem poder se despedir — velórios e enterros passaram a ter restrições para reduzir a possibilidade de transmissão do vírus.

São histórias tristes como a do casal Francisca, 64 anos, e José Ariston, 69 anos, do Distrito Federal, que estavam juntos havia 42 anos e morreram na última semana com 14 horas de diferença. Nenhum dos dois pôde ser velado; foram enterrados no cemitério do Gama. A família acompanhou o sepultamento a distância.

Ou de Flávia Carvalho, que morreu em 15 de julho em Teresina, no Piauí, deixando o marido e cinco crianças pequenas: Maria Cecília, que nasceu pouco antes de a mãe morrer, Isadora, de 2 anos, João Lucas e Miguel, de 3 anos, e Gerson, de 5 anos. Desempregado e com cinco filhos para criar, o homem ganhou a ajuda de vizinhos, que organizaram uma campanha para ajudá-lo.

Uma das questões que a pandemia impõe é como lidar com a dimensão das mortes. “Existe uma máquina de insensibilidade, e a gente tem o tempo todo o trabalho de reverter essa máquina de insensibilidade”, disse o psicanalista Tales Ab’Saber ao podcast O Assunto sobre as 100 mil mortes. “Se a gente fizer uma reflexão, a Guerra do Vietnã matou 59 mil pessoas em dez anos. A gente tem 100 mil brasileiros mortos em quatro, cinco meses.”

O avanço da doença segue sem perspectiva de diminuição no Brasil: em 34 dos últimos 37 dias (todo o mês de julho e o início de agosto) morreram mais de mil pessoas por dia, segundo indica a média móvel de mortes.

Fortaleza, no Ceará, é a capital em que há proporcionalmente mais mortes no Brasil. Lá, o isolamento social dificilmente é cumprido. O estado de Goiás também enfrenta a pandemia com dificuldades, assim como a aldeia indígena em Jacareacanga, no Pará.

Em entrevista à Globonews na última quinta (6), o médico lista alguns motivos: “Primeiro, nós não nos preparamos adequadamente para a chegada do vírus aqui, e, sabidamente, ele vinha”. Drauzio lembrou que, apesar das recomendações de cientistas sobre a necessidade de isolamento para conter a disseminação do vírus, houve “contradição” nas orientações dadas à população pelos governos estaduais e o federal.

O presidente Jair Bolsonaro chegou a criticar o isolamento social, reconhecido como forma eficaz de contenção do vírus, e causou ainda aglomerações. “Todo o pessoal de ciência dizendo ‘o isolamento é fundamental’, e o governo federal apontando na direção oposta”, disse Drauzio.

A única maneira de combater a doença em grande escala, segundo os especialistas, é uma vacina, que ainda não está disponível. Na última quinta (6), o governo federal assinou medida provisória para viabilizar a produção no Brasil de 100 milhões de doses de uma das mais promissoras vacinas em teste, a chamada “vacina de Oxford”. O Instituto Butantan, de São Paulo, fechou acordo com o laboratório chinês Sinovac para produzir outra vacina bem-sucedida nos testes até agora contra o Covid-19.

Na quinta-feira, Bolsonaro falou sobre a iminência das 100 mil mortes. “A gente lamenta todas as mortes, já está chegando ao número 100 mil, talvez hoje. Vamos tocar a vida. Tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”, declarou, ao lado do ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, em uma live.

O avanço da doença segue sem perspectiva de diminuição no Brasil: em 34 dos últimos dias morreram mais de mil pessoas por dia.

Desde o início da pandemia, em março, Bolsonaro deu diversas declarações sobre a necessidade de “seguir em frente”, mesmo com o número de contágios e mortes crescendo a cada dia.

Em 28 de abril, ele disse, sobre as mortes por coronavírus: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, fazendo referência ao próprio sobrenome. Em seguida, disse se solidarizar com as famílias das vítimas. Naquela data, o Brasil tinha 5 mil mortes por causa do coronavírus.

Um pouco antes, em 20 de abril, quando o país registrava mais de 2,5 mil mortes, Bolsonaro foi questionado a respeito e respondeu: “Ô, cara, quem fala de… Eu não sou coveiro, tá certo?”.

Ele também defende o uso da hidroxicloroquina no combate ao Covid-19. O remédio, no entanto, se mostrou ineficaz no tratamento da doença, segundo apontou, entre outros, um estudo brasileiro.

Os dados sobre casos e mortes de coronavírus no Brasil foram obtidos após uma parceria inédita entre G1, O Globo, Extra, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e UOL, que passaram a trabalhar, desde o dia 8 de junho, de forma colaborativa para reunir as informações necessárias nos 26 estados e no Distrito Federal

 

Tags: Covid-19Jair Bolsonaro
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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