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Home Economia

Startup indiana chega ao Brasil com aulas de programação para crianças

Por Ricardo Antunes
28/07/2021 - 11:06
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Maior startup de educação do mundo, a indiana Byju’s anuncia nesta quarta-feira, 28, sua chegada ao Brasil. Depois de crescer em seu país de origem e se consolidar como “unicórnio” (como são batizadas as empresas de inovação que valem mais de US$ 1 bilhão), a startup quer disputar o mercado educacional brasileiro com aulas de programação para crianças, complementando o currículo do ensino tradicional com atividades para os pequenos. É um reforço para o setor de “edtechs” do País, que conta com 566 empresas atualmente, mas nenhum unicórnio.

Fundada em 2011 na Índia, onde é a gigante nacional de inovação – assim como o Nubank é no Brasil –, a Byju’s dá continuidade à expansão internacional que começou neste ano em países como Austrália, Estados Unidos e Reino Unido. Agora, além do Brasil, os mercados do México e da Indonésia também são os novos alvos da startup, avaliada em US$ 16,5 bilhões após receber US$ 1,5 bilhão em uma rodada de investimento finalizada no último mês de junho.

“O País é um dos grandes mercados mundiais e, apesar da crise econômica, o setor de startups está bombando. É natural desembarcar aqui”, afirma ao Estadão o presidente executivo da Byju’s no Brasil, Fernando Prado — o executivo fez recentemente uma “guinada” de área: antes CEO na startup de mobilidade Clickbus (onde ainda mantém o cargo de conselheiro), ele foi chamado para lançar a operação da indiana no País e “colocar a casa em ordem”.

A Byju’s é dona de uma plataforma para computadores que conecta alunos a professores por meio de vídeo. A empresa atesta que o diferencial do modelo, frente a plataformas de videochamadas como Zoom e Google Meet, está na metodologia criada pelo educador e fundador da startup, Byju Raveendran: a startup aposta em um atendimento individualizado, em que cada estudante precisa entregar atividades curtas nas aulas. No mundo, a plataforma tem 100 milhões de estudantes, sendo 6,5 milhões assinantes pagos.

Além disso, a Byju’s foca o ensino em crianças de 6 anos até adolescentes de 15 anos, diferente de parte das startups rivais no País, que segmentam o negócio nos jovens em época de pré-vestibular, como a Descomplica. A operação é inaugurada com aulas de programação com até 18 meses de duração.

“Nós desenvolvemos atrativos para as crianças aprenderem, com a intenção de tornar o aprendizado em algo divertido para eles”, explica Prado, citando que é possível, por exemplo, aplicar a linguagem de programação JavaScript e, ao final da lição, criar um jogo de pingue-pongue com o tema. O executivo vê a Byju’s como uma aliada do ensino tradicional nas escolas, e não concorrente no aprendizado – ainda que, no momento, a startup prefira captar estudantes diretamente, e não com parcerias com instituições de ensino. As aulas podem sair por até R$ 500 mensais.

Em um mercado com escassez de programadores, como o do Brasil, a Byju’s reconhece que é positivo formar o que podem ser os futuros desenvolvedores das startups e empresas do futuro – mas esse não é o foco da indiana. “Não queremos colocar esse peso da profissão em crianças. Quando você aprende a escrever, pode até escrever poesia, enquanto, ao ‘codar‘ (criar códigos de programação), é possível fazer até um jogo”, explica Prado, que já “sentiu na pele” a dor de encontrar bons desenvolvedores para trabalhar em startups.

A diretora presidente do Centro de Inovação para Educação (Cieb), Lucia Dellagnelo, concorda e diz que, para além das vantagens profissionais, a programação tem vantagens para o desenvolvimento das crianças, como o ensino de lógica e resolução de problemas. “Mesmo que a pessoa não venha a ser programadora, é muito importante entender a lógica e os conceitos principais da computação para viver a vida normalmente, porque o assunto permeia quase todos os aspectos de nossas vidas”, explica.

Aulas de matemática e música também devem entrar no cardápio da startup no Brasil até o final deste ano, similar aos outros mercados em que atua.

O professor e empresário Byju Raveendran fundou a edtech Byju's na Índia em 2011
Dhiraj Singh/Bloomberg – 5/4/2017

A Byju’s traz números gigantes no currículo. Recentemente, após aterrissar nos EUA, a empresa adquiriu uma plataforma americana de leitura, a Epic, por US$ 500 milhões. A startup promete manter a tendência no Brasil e não nega a ambição de se tornar uma líder global.

A Byju’s, que entrou em pré-operação no País há um mês, já tem 300 funcionários trabalhando na empresa por aqui, além de 1,5 mil estudantes matriculados em todos os Estados e 400 professores aprovados na plataforma para lecionar. A meta é ter 3 mil docentes parceiros até o final de 2021 – o modelo de contratação dos educadores é semelhante ao Uber.

“É indiscutível que a Byju’s está crescendo rapidamente. Ter esse número de alunos pagantes não é desprezível: é uma aquisição de clientes acelerada”, observa o ​​diretor do comitê de edtech da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), Leonardo Gmeiner.

Esse crescimento tem contexto. Assim como os setores do varejo e finanças, a adoção de tecnologia na educação durante a pandemia de covid-19 foi essencial para a continuidade das atividades escolares dos pequenos aos mais velhos. Gmeiner acrescenta que a Byju’s chega em um cenário de diminuição da barreira do preconceito com plataformas de videoaula, possibilitando a expansão do setor de edtechs, que fica mais receptivo a nomes estrangeiros.

A chegada da Byju’s ao Brasil pode ter um bom “timing”, mas isso não significa que faltam desafios à startup. Conectividade e acesso a dispositivos de tecnologia são os dois principais entraves para os alunos, que podem ter má conexão de banda larga em casa ou, mais grave, ausência de computador – a empresa indiana não tem aplicativo para smartphone (aparelho mais popular no Brasil) e funciona apenas em PCs por meio de website.

“O fato de a Byjus não usar o celular já cria uma barreira do público que eles vão conseguir acessar”, aponta Lucia, do Cieb, acrescentando que 90% dos jovens do País acessam a internet pelo smartphone. A especialista explica, porém, que o computador ainda é um dispositivo melhor para o aprendizado, inclusive de programação. “A qualidade com o dispositivo móvel acaba sendo mais limitada”.

“Em um primeiro momento, atacamos um tipo de público mais privilegiado nesse sentido, mas trabalhamos para desenvolver ferramentas para expandir para todas as crianças do País”, explica Fernando Prado, citando que a experiência na Índia, que também enfrenta desafios similares devido à similaridade social-demográfica, é um bom comparativo.

No futuro, a Byju’s não descarta fazer parcerias com operadoras de telecomunicações para melhorar o serviço ou reduzir custos de conexão móvel. “A gente sabe que não é só copiar e colar a operação de outro país. É preciso fazer adaptações.”

Fonte: Estadão
Tags: EducaçãointernetTecnologia
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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