De O Globo – É difícil desviar de Erling Haaland nos últimos dias. Ele está em um anúncio de bacalhau na entrada do Mercado Central de Belo Horizonte. Em Outeiro, no Pará, um dançarino de brega faz sucesso por se parecer com o norueguês e ganhou o apelido de “Rala”.
Em Jaú, no interior de São Paulo, um garoto de 11 anos ficou conhecido como “mini Haaland” pelas madeixas e já deu entrevistas para a TV. “Cantor Igor Kannário convida atacante norueguês para curtir o Carnaval de Salvador em 2027”, informa um portal de notícias da Bahia, e uma suposta semelhança da cantora Luísa Sonza com o jogador acabou rendendo intrigas entre ela e o ex, Whindersson Nunes, informam as páginas de celebridades.
Uma das maiores estrelas do Mundial, Haaland goza de prestígio até então inédito para um carrasco do Brasil em Copas. Eusébio, Rossi e Zidane também já tiraram a taça da seleção marcando mais de um gol e, por óbvio, foram tachados de vilões. Haaland é o oposto e, entre um meme e outro, se tornou de casa.
Parte desse fenômeno extrapola o universo do futebol e se explica pela profusão de vídeos de inteligência artificial que transformaram Haaland em um personagem. O Mundial de 2026 é o primeiro em que ferramentas de IA dominaram a produção de vídeos virais, e o norueguês foi o protagonista de alguns dos mais compartilhados.
A revista americana Wired debruçou-se recentemente sobre essa nova forma de se construir um astro global. Segundo a publicação especializada em tecnologia, “se o antigo modelo de celebridade consistia em controlar rigidamente a própria imagem, o novo formato, como demonstra a recente fama de Haaland na internet, se apoia em ser um personagem tão marcante, tão constantemente transformado em meme, que a inteligência artificial faz o trabalho de alimentar o hype por você”, escreve. É como se essa nova celebridade fosse um personagem de código aberto, um humano que possui um rosto, frequentemente recriado.
No fim de junho, um vídeo em que Haaland olhava para o espelho e tomava um susto quebrou a barreira das dezenas de milhões de visualizações. Especialistas em checagem descobriram que se tratava de um vídeo fake, a partir da esquete de um comediante chinês, mas o selo de IA não impediu que continuasse a ser repostado e recriado. Dias antes do jogo com o Brasil, o vídeo em que ele e Vini Jr. apareciam em uma cena da comédia “As Branquelas” (2004) chegou ao próprio jogador:
“Precisamos recriar isso”, brincou o jogador, marcando Vini., que retribuiu com risos.
Fora de campo, Haaland é uma figura admirada pela forma educada com que trata fãs e companheiros. Dentro dele, o norueguês é o exemplo mais bem-sucedido da última década de construção de carreira. Em janeiro de 2020, traduzimos no GLOBO um artigo do colunista Rory Smith, do New York Times, que mostrava como cada passo do norueguês vinha sendo minuciosamente calculado aos olhos do pai, Alfie, ex-jogador do Leeds e do próprio Manchester City.
Em 2017, mesmo cobiçado no exterior, a família optou pelo Molde, à época a maior força do país. Aos 19 anos, de saída do Salzburg, repetiu o roteiro ao escolher o Borussia Dortmund, mesmo sendo desejado pelos gigantes Manchester United e Juventus. A família sempre soube que o voo seria maior, mas as escalas seriam importantes.
Hoje, aos 25 anos e multicampeão no City, Haaland chega às quartas de final contra a Inglaterra novamente como azarão. Com apenas quatro participações em Copas — a última em 1998 —, os noruegueses nunca foram tão longe. Se você acordasse hoje de um coma profundo, demoraria um pouco até entender que o Brasil é o atual campeão olímpico de esqui alpino, mas que ficou fora do top-10 da Copa do Mundo de futebol eliminado pela Noruega. E que a referência de carisma, em campo e fora dele, também não é mais nossa.







