Por Thais Bilenky,do UOL – Um pênalti perdido contra a Noruega no primeiro tempo. A seleção eliminada da Copa do Mundo depois da pior campanha em meio século. O Brasil inteiro decepcionado. E a porteira de críticas à CBF (Confederação Brasileira de Futebol) aberta. Escancarada.
O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes, torcedor do Santos, não perde a piada. “Vou reclamar com o Francisco”, brinca, entre amigos.
Francisco Schertel Mendes, seu filho de 41 anos, é o mais novo e poderoso cartola brasileiro.
O cargo formal que ocupa desde janeiro no ecossistema do futebol parece discreto diante do poder que de fato exerce: vice-presidente da Federação Matogrossense de Futebol.
Mas foi com esse mandato que Francisco passou a ter assento na assembleia da CBF, direito a voto e influência.
Não é só isso. Ele é hoje o único brasileiro membro do comitê disciplinar da Fifa —aquele que anulou o cartão vermelho do jogador americano Balogun após pedido do presidente Donald Trump. Segundo Francisco disse a aliados, a decisão não foi deliberada por todos os membros e não o incluiu.
Francisco é também “patrono” da CBF Academy, braço acadêmico da confederação, em parceria feita desde 2023 com o IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa), fundado por Gilmar e comandado pela família —o filho é diretor-geral.
Bastaria dizer que o presidente da CBF, Samir Xaud, é egresso da CBF Academy. Mas a influência não se restringe a isso.
Com indicados espalhados pelos departamentos da confederação e aliados em postos-chave da gestão, Francisco é a voz mais influente nos principais debates da CBF hoje.
Por ser filho do ministro do STF e poderoso na CBF, carrega a fama —para o bem e para o mal.
Dirigentes de federações pelo país dizem reservadamente que a presença do filho do ministro intimida. São poucos os que têm coragem de contrariar ou contestar os Mendes, e ainda assim se o fazem é com máxima discrição.

“A turma de Brasília”
Apesar da queda precoce na Copa, não há assunto que mobilize mais as rodas do esporte que a disputa de bilhões de reais entre cartolas e a Faria Lima na formação de uma liga profissional que organize o Campeonato Brasileiro.
A turma de Francisco está integralmente dedicada a rescindir os contratos da FFU (Futebol Forte União), um bloco que negocia os direitos de transmissão da maioria dos clubes das séries A e B.
Com a corretora XP entre os investidores, a FFU fechou um acordo de 50 anos com os clubes, que agora começam a desistir do contrato, considerando-o um mau negócio.
A mudança de posição dos clubes é resultado do esforço da “turma de Brasília”, como é conhecido o grupo de Francisco. Com advogados e gestores na equipe, eles se reuniram individualmente e, duas vezes, com todos os representantes dos 40 clubes do Brasileirão.
O objetivo é desfazer os blocos existentes e formar uma liga profissional única com os clubes, que possa manter o vínculo com a CBF, sem interferência de investidores externos.
Mergulhados nessa disputa, dirigentes da CBF estão mais preocupados com uma eventual derrota para banqueiros do que com a eliminação nas oitavas de final da Copa. Com este revés, já se conformaram. E unificaram o discurso sobre a queda.
“Tudo muito triste, não era o que a gente queria”, reconheceu Ricardo Gluck Paul, um dos vice-presidentes da CBF, que integra o mesmo grupo de Francisco.
“Mas estamos construindo um novo ciclo agora. Não é justificar, não ter passado das oitavas significa uma campanha muito ruim. Mas a gente está muito tranquilo com o trabalho transformador que estamos fazendo, com o grupo para aprimorar as categorias de base. Esse sim fala muito de futuro.”
Em outras palavras, a atual gestão da CBF responsabiliza as anteriores pelo desempenho em campo.
O jornalista Juca Kfouri, colunista do UOL, coloca em outros termos. “O jogador de futebol sabe à perfeição quem o lidera e quem é promíscuo com ele. A CBF há anos é o reinado da promiscuidade. Não espere mais do jogador do que aquilo que eles têm feito”, disse.
O sonho de Gilmar: ser cartola
Ao brincar que reclamaria com o filho do desempenho da seleção, Gilmar citou Neném Prancha, o lendário técnico das categorias de base do Botafogo: “Pênalti é uma coisa tão importante que quem devia bater é o presidente do clube”.
O sonho de criança do ministro era ser presidente do Santos. Natural de Diamantino, em Mato Grosso, percorria quase 200 quilômetros de caminhão para ver o time jogar em Cuiabá.
Muitos anos depois, quando atuava como subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil, de 1996 a 2000, no governo FHC, tornou-se amigo do Pelé, então ministro dos Esportes. A relação perdurou até a morte do Rei e ainda hoje o gabinete do ministro no STF tem um santuário em sua homenagem.
Camisas autografadas emolduradas, fotografias e memorabilia decoram a espaçosa sala em que despacha no tribunal.
Apesar de ter elogiado Neymar após a eliminação na Copa, chamando o jogador de “liderança e exemplo”, a relação de Gilmar com o atleta criado na base do Santos não tem a mesma intimidade e admiração.
Mas a torcida do ministro por Neymar é o bastante para gerar desconfianças sobre o poder da família Mendes em campo.
A ruidosa convocação do atual camisa 10 para a Copa do Mundo foi atribuída, aqui e ali, a Francisco Mendes. A interlocutores, ele reiterou, toda vez que questionado, que a teoria não passava de “maluquice”.
Decisão do pai abriu espaço para filho da CBF
Foi uma medida de Gilmar no STF que acabou por dar espaço para a turma de Francisco assumir o comando da entidade.
Em março de 2025, o então presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, se lançou à reeleição, mas tomou a pior decisão de sua carreira: excluiu da chapa ninguém menos que Fernando Sarney, 70, vice-presidente da CBF desde 2004.
Filho do ex-presidente José Sarney, representante da CBF na Fifa por muitos anos, políglota, diretor da afiliada da Globo no Maranhão, Fernando emanava poder.
Ednaldo o excluiu da chapa sem avisar, rompendo o acordo prévio, e se reelegeu por aclamação. A traição não ficaria barata.
Fernando acionou o Supremo e os seus contatos. O pai, José Sarney, é amigo de Gilmar. Ambos se frequentam.
De pai para pai, no passado, Sarney chegou a confidenciar para Gilmar que Fernando já devia ter sido presidente da CBF.
Em 2024, Gilmar tinha dado uma liminar que manteve Ednaldo na presidência da CBF em meio a contestações judiciais feitas à época.
Mas, em maio de 2025, já depois da traição, o ministro mandou um processo sobre o então presidente da CBF para o TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro).
Os desembargadores fluminenses já tinham anteriormente decidido contra a permanência de Ednaldo no cargo. Portanto, quando o processo voltou para o TJ-RJ, o desfecho era esperado.
Em uma semana, Ednaldo caiu.
Quando comenta o caso, o ministro diz que não agiu sob influência de ninguém, e sim pela convicção que formou do processo. Em sua defesa, afirma que nem mesmo acompanhou o desfecho do caso na CBF.
Após a queda de Ednaldo, novas eleições foram convocadas e Samir Xaud se tornou o novo presidente da CBF.
Geração “CEO”
Médico de Roraima de 42 anos, Xaud tomou posse e mudou a faixa etária média e o mapa da cartolagem.
Dirigentes de estados como o Amapá e Pará assumiram postos de destaque. Uma geração entre 30 e 40 anos ascendeu com um vocabulário que substituiu jargões antigos por termos como “CEO”, “benchmarking” e “fair play financeiro”.
Ficaram para trás alguns dos vícios do eixo Rio-SP na entidade. E chegou chegando a assim chamada “turma de Brasília”. São eles:
- Gustavo Dias Henrique, vice-presidente e secretário-geral da CBF;
- André Mattos, diretor jurídico da entidade;
- Matheus Senna, diretor de desenvolvimento e projetos;
- Caio Cordeiro de Resende, presidente da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol e diretor do IDP.

Resende é o número 2 de Francisco no IDP. Foi ele quem tocou o grupo de trabalho para instituir o “fair play financeiro”, talvez a principal medida implementada na gestão Xaud até aqui. Agora, Resende é o presidente da agência que vai acompanhar sua vigência.
O “fair play financeiro” é um conjunto de regras impostas pela CBF para limitar o endividamento dos clubes e impedir atrasos nos pagamentos de salários, encargos tributários e obrigações com outros clubes.
Este era o primeiro passo para a formação da liga.
“Com o fair play, o pilar da despesa está controlado. Agora precisamos fechar o pilar da receita. Estamos conversando com os clubes, procurando um modelo para a unificação”, disse Ricardo Gluck Paul.
Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro são a principal fonte de receita dos clubes, especialmente os da série B. Por isso, negociar bons contratos é fundamental para a sua saúde financeira.
Um estudo encomendado pela CBF ao qual o UOL teve acesso dá a dimensão do volume de recursos do qual se está falando.
A receita total dos clubes na temporada 2024/2025 do Campeonato Brasileiro foi de 1,8 bilhão de euros. Na Bundesliga, a liga profissional da Alemanha, foi de 5,1 bilhões de euros.
O Brasil tem 210 milhões de habitantes e gera um terço da receita da Bundesliga em um país de 84 milhões de habitantes. Eis o tamanho do potencial de crescimento do faturamento do futebol nacional.
A CBF sustenta que uma liga única e profissional saberá explorar esse mercado melhor caso não esteja submetida a interesses externos de investidores financeiros.
Os críticos da entidade, no entanto, apontam a ambição dos cartolas de deixarem os clubes amarrados à CBF, que tenta atuar como uma mediadora do impasse.
A confederação tem procurado os clubes e os levados para conhecer modelos fora do país. Em janeiro, representantes dos 40 clubes do Brasileirão, das séries A e B, foram para a Europa conhecer a Bundesliga, a La Liga, da Espanha, e a Premier League, da Inglaterra.
Representando o Cuiabá, time que hoje joga a série B do Brasileirão, Francisco estava na comitiva. Com doutorado pela Universidade Humboldt de Berlim e fluente em alemão, acabou sendo protagonista como tradutor e cicerone.
Com seu sobrenome, formação e contatos, Francisco não tem vocação para a segunda divisão.
“Ele e o IDP têm o papel de apoiar as pautas importantes”, disse Netto Góes, dirigente do Amapá de 35 anos e parte da cúpula atual da CBF. “A CBF Academy vem com papel forte na parte de formação, de inteligência, de captação de informação, levantamento de dados e benchmarking [aperfeiçoamento].”

A parceria entre CBF e IDP foi fechada depois de a Fundação Getulio Vargas recusá-la.
Segundo fontes internas, o IDP precisou fazer um investimento inicial de quase R$ 10 milhões e demorou dois anos para sair do vermelho na operação da CBF Academy.
Hoje o negócio fica no zero a zero, mas a cúpula da instituição bota na conta ativos não financeiros da parceria: o acesso à cartolagem e influência na CBF. É o mapa do caminho para o poder na indústria do futebol.
No contrato, 16% do faturamento bruto da Academy fica com a CBF. Os demais 84%, com o IDP. Se os negócios forem bem, o lucro não será pequeno.
Com cursos da Academy oferecidos em diversos cantos do país, Francisco estabeleceu pontes com dirigentes de futebol locais. Angariar apoio numa eventual sucessão de Xaud parece ser o caminho natural para esse novo cartola.
Pode ser. Mas a liga, se sair como a turma de Brasília quer, pode oferecer um cofre e desafios ainda mais atraentes para um “CEO” do futebol.






