*Por Vera Magalhães – Confirmada a derrota histórica e acachapante da indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, a oposição comemorava, nos bastidores, o que considera o fim prematuro do governo Lula e um grande baque na candidatura do petista a um quarto mandato, capaz inclusive de inviabilizá-la.
Quando escrevi, na minha coluna no GLOBO, que para Lula era “vencer ou vencer”, era justamente pelo peso histórico, simbólico e concreto que uma derrota dessa magnitude, inédita, teria.
O governo estava absolutamente vendido no lance. Pela manhã, diante de questionamentos de que Messias poderia não ser aprovado no plenário do Senado, líderes faziam pouco. Diziam que passaria por uma margem apertada, mas passaria.
Com o painel já aberto e um saltitante Davi Alcolumbre no comando de uma sessão que tinha nove votações preliminares, esses mesmos líderes demonstraram miopia absurda ao enxergar a relativa facilidade no placar como prenúncio da consagração do ex-AGU.
Mas era óbvio que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Os nomes indicados para o CNJ, CNMP e outros postos em aberto não carregavam a simbologia de Messias: um nome com histórico de ligação umbilical com o presidente e o PT, que ficou famoso nacionalmente no episódio da tentativa frustrada de Dilma Rousseff de nomear o mesmo Lula para a Casa Civil em 2016, no auge da Lava Jato e na antessala do impeachment.
Já na oposição corria um trabalho de formiguinha, de dois meses, pilotado pelo próprio Alcolumbre e pelo líder do PL e coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho, principal responsável pelo convencimento de senadores do MDB e do PSD que na surdina traíram um Planalto totalmente alheio ao que se passa no Congresso.
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Lula apostou numa cozinha eminentemente de esquerda, com Gleisi Hoffmann e Guilherme Boulos. Com a saída da ministra, nomeou José Guimarães, que, se tem algum trânsito na Câmara, não deve ter nem o celular de Alcolumbre. Deu no que deu.
O presidente do Senado não recebeu o indicado, não atendeu Randolfe Rodrigues nem Jaques Wagner ao longo de todo o dia. E, ainda assim, ninguém abortou a votação para evitar o pior. Apagão geral da articulação política. E não foi o primeiro nem o segundo. Basta lembrar da derrota na escolha do presidente e do relator da CPI do INSS.
O recado está dado em alto e bom som: qualquer nome que Lula apresente que não tenha a chancela de Alcolumbre corre o risco de ter o mesmo destino de Messias.
Desistir de indicar um integrante para o STF e deixar para fazê-lo depois da eleição embute o risco de o Senado não analisar o nome em caso de derrota de Lula nas urnas.
Capitular a uma chantagem explícita do presidente do Senado e indicar Rodrigo Pacheco pode até levar a uma vitória no plenário, mas, a essa altura, ele será um ministro indicado por quem?
Ao declarar guerra aberta ao Executivo, Alcolumbre dá mostras de que sente o cheiro do poder mudando de lado, e tenta se recompor com a direita. Pode também ser um tiro n’água: caso Flávio Bolsonaro vença e se concretize o plano de seu pai de um Senado eminentemente de direita, o próprio Rogério Marinho será um candidato quase imbatível a presidir a Casa, de pouco valendo as piscadelas do amapaense.
Com essa derrota, ficou evidente que Lula não tem o comando do Congresso. Nesta quinta-feira, uma nova humilhação virá, com a derrubada do seu veto na dosimetria das penas —que também é outra paulada no grupo do STF que trabalhou por Messias e outra vitória do bolsonarismo.
Não foi só o governo que sofreu um abalo sísmico neste 29 de abril. A candidatura de Lula recebeu seu maior golpe, e as injunções que já existem de que ele não terá condições de ser candidato ficarão mais fortes a partir de agora.
Vera Magalhães cobre política e economia desde 1993. Comanda o Viva Voz, na rádio CBN.
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