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Home Justiça

Desembargador comprou casa de mais de R$ 1 milhão com dinheiro vivo

Por Redação
01/12/2024 - 21:06
desembargador Júlio Roberto de Siqueira Cardoso, aposentado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul

desembargador Júlio Roberto de Siqueira Cardoso, aposentado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul

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Do Estadão – O desembargador Júlio Roberto de Siqueira Cardoso, aposentado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, comprou com dinheiro vivo uma casa de R$ 1,4 milhão no condomínio Quinta das Lagoas, na Praia de Itacimirim, no litoral Norte da Bahia. A Polícia Federal investiga se o imóvel foi pago com propina da venda de decisões.

O magistrado foi procurado pela reportagem, mas não atendeu aos pedidos de comentário. O espaço segue aberto.

A casa tem cinco suítes climatizadas, oito banheiros, quatro vagas de garagem, piscina, churrasqueira, 436 metros quadrados de área construída e mil metros quadrados de área total. Em conversa obtida pela Polícia Federal, o desembargador afirma que o condomínio é “coisa de primeiro mundo”.

A Polícia Federal chegou ao imóvel depois de encontrar um comprovante de transferência de R$ 556 mil para o antigo dono da casa. A transação é de outubro de 2022. O banco confirmou que o valor foi depositado em dinheiro vivo e que “não foram identificadas transações que estejam relacionadas com o referido depósito”.

A PF também localizou um boleto de R$ 509 mil, pago pelo desembargador com dinheiro de origem ainda desconhecida.

Para os investigadores, há “indícios de ilegalidade, na medida em que atualmente é extremamente rara a utilização de altas somas de dinheiro em espécie”. A informação consta na representação da Polícia Federal que desencadeou a Operação Última Ratio, investigação sobre suposto esquema de venda de sentenças no Tribunal de Mato Grosso do Sul.

Em outro trecho do documento, a PF afirma que há “indício de ocultação de parte do valor pago, o que pode configurar crime de lavagem de dinheiro, tendo em vista a utilização de dinheiro em espécie de origem desconhecida (R$ 556.400,00), além de outros valores de origem também desconhecida, podendo ser decorrentes de corrupção”.

Ao analisar as movimentações bancárias do desembargador, a Polícia Federal encontrou nove transferências para o antigo dono da casa, entre outubro de 2022 e novembro de 2023, que somam R$ 924 mil.

Em conversa sobre os pagamentos, Júlio Cardoso afirma que “vai mandar essas quatro (transferências) de 200″. O interlocutor, identificado apenas como João, responde: “Dentro da sua conveniência você vai transferindo. É até bom que você faça isso Júlio, porque se você transferir tudo dum valor só, desperta o banco. Se você puder botar de 200. Não tem problema. Não tem data. Fica a critério seu.”

As mensagens de áudio, enviadas no WhatsApp, foram encontradas na nuvem do desembargador, que teve o sigilo telemático quebrado.

Imóvel do magistrado em Campo Grande também está sob investigação.

Outra casa está na mira da Polícia Federal. É um imóvel de 351 metros quadrados em um condomínio de luxo em Campo Grande. O desembargador declarou à Receita Federal que comprou a casa por R$ 1,4 milhão em 2018. Segundo a PF, o imóvel vale pelo menos R$ 3,5 milhões.

“Assim, a nosso ver, há indícios de que Júlio Cardoso declarou valor de aquisição de tal imóvel abaixo do real para ocultar a origem dos recursos utilizados, podendo ter natureza ilícita”, afirma a Polícia Federal.

Além disso, os investigadores não encontraram transferências bancárias envolvendo o pagamento da casa. “Não foi possível esclarecer qual a origem do dinheiro utilizado na aquisição de tal imóvel.”

Foi neste endereço que a Polícia Federal apreendeu R$ 3 milhões em dinheiro vivo durante as buscas na Operação Ultima Ratio. A PF investiga a verdadeira origem da fortuna.

A servidora Natacha Neves de Jonas Bastos, assessora do gabinete do desembargador, que também teve o sigilo de mensagem quebrado, foi flagrada pela Polícia Federal em uma conversa que mostra que o suposto esquema de venda de decisões judiciais era conhecido por atores do Poder Judiciário. Ela afirma: “Todo mundo fala: ‘ai não sei como que o CNJ não pega, a Polícia Federal não pega’”.

COM A PALAVRA, O DESEMBARGADOR JÚLIO CARDOSO

A reportagem pediu posicionamento do desembargador. O espaço está aberto para manifestação (rayssa.motta@estadao.com e fausto.macedo@estadao.com).

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