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Ecologistas preocupam-se com a natureza e se esquecem do ser humano, por Xico Graziano

Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 18:29
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Por Xico Graziano

O maior erro de alguns ecologistas é desconsiderar a variável populacional em suas avaliações. Olham um campo cultivado e pensam: “Destruíram a floresta”. Preocupam-se com a natureza, e se esquecem do ser humano.



O jornalista Claudio Angelo se inclui entre eles. Por essa razão não gostou de meu artigo sobre a teoria do desmatamento inteligente. Acho, sinceramente, que ele, apegado aos seus preconceitos políticos, nem entendeu meu ponto de vista.

Tenho proclamado, há muito tempo, que é necessário superar uma dicotomia, ingênua, estabelecida entre desmatar tudo ou nada desmatar. Minha proposta se resume em uma pergunta: qual tipo de desmatamento é possível ou, melhor ainda, justificável?

Não penso somente na Amazônia. Vale para qualquer bioma, como o do Cerrado, especialmente. Tecnicamente é muito razoável supor que terras planas e férteis podem ser incorporadas à produção agropecuária sem ferir os preceitos básicos da sustentabilidade.

Produzir e, ao mesmo tempo, preservar, é a base da ideologia agroambiental que adoto. Nela, a capacidade de uso dos solos é um conceito fundamental, próprio da agronomia conservacionista.

Recentemente o Instituto Escolhas se aproximou dessa questão ao dimensionar o estoque de terras denominadas com “elevada aptidão”, existentes na área ainda florestada no país. Publicado sob o título Qual o Impacto do Desmatamento Zero no País, o estudo deu um passo importante para além da ingenuidade ecológica.

Tendo como consultor o conceituado agrônomo Gerd Sparovek (Esalq/USP), o Instituto Escolhas mostrou que, segundo o Código Florestal, um total de 63,6 milhões de hectares poderia ser, legalmente, desmatado no país. A estimativa envolve os biomas da Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica (para comparação, a área cultivada do país situa-se ao redor de 70 milhões de hectares).

Daquele território inculto, porém, apenas 11,5 milhões de hectares, ou seja, 18% do total, seria composto por terras apropriadas à exploração agropecuária. Representam 5,9 milhões de hectares nos Cerrados, 3,1 milhões da Amazônia e 2,5 milhões na área da Mata Atlântica.

Percebam que eu não estou tratando do desmatamento ilegal, aquele realizado de forma criminosa. Este é sempre condenável, sob qualquer prisma, devendo ser repelido pelo poder público. Falo da situação juridicamente correta.

A FAO, órgão da ONU para Alimentação e Agricultura, estima a necessidade de elevar, até 2050, a produção de alimentos em 70%, para atender ao acréscimo da demanda mundial. Estudo realizado pelo USDA atribui ao Brasil, unicamente, aumentar sua produção de alimentos em 41% na próxima década, rumo a essa meta.

Ademais do crescimento populacional, puxa o consumo mundial de alimentos a elevação da renda familiar nas economias em desenvolvimento. Ásia, Oriente Médio e África lideram esse movimento global. Nos países ricos, cada habitante consome em média 800 kg de alimentos por ano, contra 200 kg/hab/ano nos países mais pobres.

Vários caminhos deverão ser seguidos, no Brasil e no mundo, visando a superação desse desafio alimentar:

  1. Intensificação tecnológica para aumento de produtividade física, ou seja, elevar a produção rural por hectare cultivado ou por pastagem utilizada;
  2. Recuperação de pastagens degradadas através do sistema integrado de produção, utilizando-se lavouras seguidas de uso pecuário;
  3. Expansão da fronteira agrícola com incorporação das terras mais férteis e planas, além daquelas com disponibilidade para irrigação;
  4. Desenvolvimento de novos sistemas produtivos em estufas, como hidroponia, aeroponia e outras invenções surpreendentes;
  5. Introdução de novas fontes de proteínas naturais, como insetocultura, ou artificiais, tal qual a carne de laboratório;
  6. Redução do desperdício de comida nos países ricos.

Se o jornalista Claudio Angelo entendesse um pouco mais de economia agrária, saberia que os agricultores não abrem terras, nem plantam ou criam, baseados em decisões individuais. Fatores coletivos, sinalizados pelos mercados, os induzem a investir e trabalhar no campo.

A verdade –que os ecologistas detestam ouvir– é que continua aumentando a “pegada ecológica” da humanidade sobre a Terra. Significa mais gente demandando comida, bens, energia, água, tudo. Nesse contexto, beira a crueldade atribuir aos produtores rurais a “culpa” pelo desmatamento.

Para quem assistiu ao filme Vingadores, o “efeito Thanos” oferece uma hipotética saída. Se, simplesmente, desaparecesse metade da população mundial, tudo se resolveria: o desmatamento, a poluição, o aquecimento planetário…

A realidade, porém, é mais complexa. Ainda por muito tempo a satisfação alimentar dos seres humanos irá pressionar os recursos naturais da Terra. Quem pertence à elite da elite, como o jornalista Claudio Angelo, obviamente não percebe esse drama.

Os chineses começaram agora a experimentar o gosto delicioso de um churrasco. E sem o farelo da nossa soja eles não conseguem engordar o porco nem o frango que tanto adoram. Vale na África, na Indonésia, na Turquia. Alhures.

O agro brasileiro exporta alimentos e matérias-primas para 162 países. No prazo de uma década, o Brasil será a maior potência alimentar do mundo, sem destruir suas florestas. Basta usar a inteligência.

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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